Aqui começa a resistência

Ponta cabeça. A fricção do ar na pele arranha, irrita. Queda livre. As narinas inalam mais ar do que conseguem, incham, sangram. Abismo sem fundo. Os olhos cegam, ressecam no contato árido com o ar. Espaço ilimitado. Os ouvidos ensurdecem enquanto o corpo fere o espaço e é ferido por ele. Sensação de sem-fim.

Com a divulgação da vitória do campo de extrema-direita na eleição presidencial brasileira, resta apenas esta impressão: descer vertiginosamente o precipício cambalhotando no ar.

É a velha história: sim, o resultado das urnas precisa ser respeitado, mas isso não significa que não se possa praticar resistência e oposição. Cá pra nós: aquele que falou que quem não concorda deve ser eliminado ou sair do país – independente de ser estratégia retórica de campanha (o que só piora as coisas) –, já deixa claro de antemão que respeito não será a tônica do governo que virá. Quem já mencionou que acabará com todo tipo de ativismo e ‘coitadismo’ nunca estudou pela cartilha da democracia.

A resistência deve e pode ser considerada como um instrumento, uma forma democrática de reação a um Estado que nasce anêmico em termos de liberdades; uma ferramenta para preservação de conquistas mínimas que estão ameaçadas de desaparecimento.

Será necessário resistir para preservar e manter conquistas que nos colocam próximos de nações que respeitam os direitos humanos, sociais, civis; que defendem políticas de caráter igualitário e afirmativo; que respeitam os direitos de populações indígenas, da população negra, de gays, lésbicas, travestis, transgêneros, bissexuais, assexuais, intersexuais e outras formas de identidades vulneráveis; que garantem o acesso universal à saúde e à educação de qualidade; que estabelecem o diálogo como condição sem a qual os processos sociais não avançam; que protegem as populações mais pobres e as capacitam para se tornarem mais autônomas.

O presidente eleito já deixou fartamente esclarecido que é racista, homofóbico, transfóbico, lesbofóbico, misógino, machista, armamentista, contrário à discussão sobre gênero e ao aborto. Seus aliados e apoiadores (membros do fundamentalismo religioso cristão, do agronegócio em escala industrial, da produção ruralista, do comércio de armas, do Escola sem Partido, da suposta ‘ideologia de gênero’) seguem-no naquelas características e nas propostas de redução ao mínimo do Estado, da venda dos campos de petróleo no pré-sal, da abertura ao agronegócio predatório, do desmatamento, do rompimento de acordos internacionais na área do clima e dos direitos humanos.

O presidente eleito já deixou suficientemente claro que não tem como controlar a turba de apoiadores que usam da ameaça, da intimidação, a ofensa, da intolerância, da difamação, da injúria, da calúnia, da agressão física e verbal como meios de praticar a violência associada à discriminação por etnia/raça, orientação sexual, identidade de gênero, idade, religião, classe ou origem social.

Então, a resistência se faz necessária para que não voltemos a um estado de barbárie social como o último mês já nos avisou com muita clareza. Dentro dos seus limites de ação, o Resista! Observatório de Resistências Plurais se propõe a atuar na resistência e a lutar para sensibilizar as pessoas e ajudar a manter as conquistas já efetuadas nas décadas anteriores. Por isso, sua pauta nos próximos dias será começar a pensar, planejar e organizar formas de resistência às medidas de retrocesso que o governo eleito tomar.

Pelos próximos anos, todos nós estaremos à flor da pele.

Sigamos.

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