“Para você que, por ser lésbica, trans’, bi ou gay, nunca viverá completamente em segurança.”

Passou-se quase um mês desde que o comediante Arnaud Gagnoud sofreu uma violenta agressão homofóbica em Paris, enquanto abraçava seu companheiro. Um enésimo ato de ódio, enquanto as agressões LGBTfóbicas se multiplicam nos últimos meses e nas últimas semanas. Ainda em 16 de outubro, Guillaume Mélanie, presidente da Urgence Homophobie, recebeu um soco no rosto. Face a esse recrudescimento inquietante de atos homofóbicos, Arnaud Gagnoud, convidado por Têtu, pegou a caneta, em um tom deliberadamente provocativo, para convocar as autoridades públicas a reagirem.

 

“Para você, que será agredido dentro de alguns dias, de alguns meses ou alguns anos.

Para você que, por ser lésbica, transgênero, bi ou gay, nunca viverá completamente em segurança.

Para você, quero escrever hoje algumas palavras.

Como um guia prático sobre a agressão homofóbica ou transfóbica que você vai viver. Como o primeiro volume de um pequeno manual da vida cotidiana de um homossexual na França, em 2018.

 

“Gritar, o mais forte possível”

Saiba, antes de mais nada, que seus agressores serão covardes e rápidos. Eles te atacarão, sem prevenir, no meio de uma discussão (se eles tiverem tempo de te insultar antes). Você poderá aparar um ou dois golpes, mas a covardia deles os levará a atacá-lo todos ao mesmo tempo. E é impossível revidar os golpes quando um cara bate em você com seu capacete e dois ou três outros te martelam com chutes nas costas e ombros.

Ficar de pé, manter-se sobre as duas pernas, é o objetivo que você deve ter de imediato. Não os deixe te derrubar no chão, pois aí os chutes serão destruidores. E enquanto estiver de pé, proteja a cabeça. É o segundo objetivo.

Enfim, terceiro e último objetivo: gritar. O mais forte possível. Para que as pessoas te socorram. Aí, vou admitir meu amargo fracasso: não consegui gritar. Eu me preparei por meses para isso. E nada saiu da minha boca. Nenhum som. Felizmente para mim, os espectadores do teatro chegaram. Gritando. Eles provavelmente salvaram a vida, a de Rémi e a minha.

Mas você pode não ter a chance de ter pessoas por perto. Então, grite! Grite para elas virem.

 

“Haverá idiotas em todos os lugares”

Uma vez passada a agressão, o que você deve fazer? É preciso chamar os socorristas para constatar os ferimentos, fazer os primeiros cuidados e te levar para o hospital. É preciso ser medicado com urgência em um hospital público. É preciso prestar queixa na delegacia mais próxima.

Eu sei, você tem medo de comentários e comportamentos inadequados. Pequenas frases de estilo, como “Afinal, foi você quem procurou!”. Medo de que a polícia se recuse a escutá-lo, deboche de você, ou classifique diretamente o caso sem resultado.

Mas os serviços públicos franceses mudaram. E devo agradecer aqui aos socorristas de Paris, o hospital de urgência Tenon e toda a delegacia do 20° distrito de Paris, pela escuta, a atenção e o respeito com que nos trataram em cada etapa dessa maldita noite e dos dias que se seguiram.

Sim, talvez tenhamos sorte. Talvez, e certamente isso não acontece em todos os lugares, da mesma maneira, na França. Eu entendo seus medos. Eu também senti isso. Mas haverá idiotas em todos os lugares. E você deve saber desde agora que poderá ser recebido por algum desses idiotas (talvez igualmente homofóbicos) em um dos serviços públicos.

Foi igualmente nosso caso, dois dias depois, no serviço médico-legal do Hôtel-Dieu de Paris. Não será legal viver isso. Ficar frente a frente com um médico fingido que tirará sarro da sua cara, te humilhará e rirá abertamente do que te aconteceu.

Como uma segunda agressão. Um escarro em plena cara.

 

“Falar sobre isso o máximo possível”

Chegará um momento em que você se colocará a pergunta sobre o que fazer com sua história. Com quem você fala sobre isso? Com sua família, seus amigos, seus colegas de trabalho? Você publica a foto de seus ferimentos nas redes sociais como Wilfred de Bruijn em 2013? Você aceita dar entrevistas à mídia depois?

Minha opinião pessoal é que é preciso falar sobre isso o máximo possível. É o único meio para despertar a opinião pública e fazer mover um pouco as fronteiras. Publicar cada foto, de cada agressão homofóbica ou transfóbica, dia após dia. Para que os heteros compreendam, enfim, o que nós vivemos. Que eles compreendam que o mito da igualdade entre heterossexuais e homossexuais é uma quimera com a qual eles se encharcam para não ver os golpes que recebemos cada dia que passa, para não ver nossos sofrimentos e nossas desilusões.

Mas trata-se ainda de tomar uma decisão importante que modificará profundamente sua vida cotidiana. Então, você tem o direito de não concordar comigo e Rémi, de não fazer como nós. Obviamente! E qualquer que seja sua decisão, terá sido uma boa decisão. Porque ela será sua escolha, para você, naquele momento de sua vida.

 

“Você tem que se preparar psicologicamente”

Entretanto, se você escolher publicar sua foto nas redes sociais e falar com a mídia, eis os conselhos que posso te dar. Você tem que se preparar psicologicamente. Prepare-se para receber mensagens de ódio, zombaria, insultos e ameaças.

Mas prepare-se igualmente para receber centenas de mensagens de apoio da parte de desconhecidos. Milhares de mensagens que travarão seu celular, seu tablet e seu computador, sobrecarregados com muitas notificações novas sempre que você os ligar. Prepare-se para ser reconhecido nos transportes públicos, nos lugares públicos ou na rua. Por pessoas que te demonstrem apoio em silêncio, com um olhar sincero e um enorme sorriso que te fará chorar de alegria.

Prepare-se para ouvir os outros com palavras por vezes desajeitadas, girando ao redor do assunto, não ousando evocar a agressão verbalmente. Por vezes você terá medo, por vezes você terá vontade de sair correndo.

Prepare-se para receber mensagens de apoio da parte de mulheres e de homens políticos conhecidos. Alguns farão isso discretamente, outros tentarão promover sua recuperação publicamente.

Prepare-se, enfim, para o jogo das mídias, que se servirão tanto de você para a audiência e os cliques, quanto você se servirá deles para fazer mover as fronteiras. Saiba que, depois de uma semana, esse turbilhão se acalmará. E ao fim de três semanas, tudo voltará a ser como antes.

Então, sobretudo, prepare-se bem para a aterrissagem. Guarde um pouco de energia durante esses dias de intensa atividade. Para não te fazer mal quando você se reencontrar sozinho, consigo mesmo e com suas feridas, que jamais te deixarão.

 

“Você esperará com angústia a agressão seguinte”

E depois você esperará com angústia o anúncio da agressão homofóbica seguinte. Quando você compreender que a violência que você venceu não parará. Nunca parará.

A mídia pode ter ficado surpresa com a agressão que você enfrentou. Sua família, seus amigos e os cidadãos poderão ter escrito para você que não imaginavam a homofobia ainda tão presente e tão forte na França em 2018. Você terá a confirmação de que essa violência, esse ódio pelos gays ainda está ancorado. Enormemente. E que nada, verdadeiramente nada, o fará parar.

Os políticos se mobilizarão? Sim, pelo Twitter. A sociedade se questionou? Sim, por alguns minutos. E você será tomado pelo medo quando se der conta de que a agressão homofóbica seguinte será ainda mais violenta, ainda mais destrutiva, e que finalmente você teve sorte.

 

“Todos nós seremos insultados”

Com Rémi, fomos agredidos no dia 18 de setembro. Nas quatro semanas seguintes, houve outras cinco agressões homofóbicas divulgadas pela mídia: quatro em Paris e uma em Lyon. Mais de uma agressão por semana. E quantas não foram notificadas?

Enfim, eu aconselho, leitor, a manter sempre preciosamente este pequeno guia por perto. Já que as coisas não mudam mais desde a promulgação do Casamento para Todos[i]. Já que, desde então, consideramos as minorias sexuais e sentimentais como iguais aos heterossexuais. Já que, de fato, nós não somos definitivamente iguais a eles.

Pense nos debates que estão por vir. PMA[ii], GPA[iii], doação de sangue. Esses debates desencadearão uma nova onda de ódio, com a qual as mulheres e os homens políticos vão jogar.

É certo, então, que você será insultado. Que todos nós seremos insultados. É certo, então, que você terá a cara quebrada. Que todos nós teremos a cara quebrada. Então, em 1° de janeiro, este pequeno guia prático será infelizmente sempre útil. Será o suficiente para barrar 2018 e substituí-lo por 2019. E assim por diante.”

 

Reportagem de Rozenn Le Carboulec publicada em Têtu, dia 17 de outubro de 2018. Disponível em: https://tetu.com/2018/10/17/diversite-corps-hommes-illustrateurs-suivre-instragram/.

 

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

[i] N.T.: Mariage pour Tous (Casamento para Todos) é a expressão francesa utilizada para se referir ao projeto de lei aprovado em 23 de abril de 2013, no Parlamento, que regulamentou o casamento, a adoção de crianças e a partilha de bens entre casais do mesmo sexo.

[ii] N.T.: A procriação medicamente assistida (PMA) é um conjunto de práticas clínicas e biológicas em que a medicina intervém mais ou menos diretamente na procriação.

[iii] N.T.: A Gestação por terceiros (GPA, gestation pour autrui) é o conjuntod e ´tcnicas utilizadas para efetuar a gravidez para casais do mesmo sexo.

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