“Arquivar é recusar ser despossuído de sua história”

Um trabalho titânico. Embora a criação de um centro de arquivos LGBT+ em Paris tenha sido evocada por mais de 20 anos, Antoine Idier, sociólogo e historiador, decidiu reunir em um livro arquivos do movimento LGBT, a maioria inéditos. Fotografias, cartazes, a primeira página de jornais, folhetos, correspondências… Tantos documentos que emocionam, fascinam e nos permitem sobretudo tomar conhecimento de uma história que é um pouco também a nossa história. Para Têtu, Antoine Idier retoma esse precioso trabalho, lançado em 24 de outubro passado.

 

Por que era importante destacar arquivos LGBT+ em um livro?

Esta foi uma proposta que o editor da Textuel me fez, ao querer responder ao lançamento do filme 120 batimentos por minuto no outono de 2017. O filme reviveu todo o debate sobre a criação de um centro de arquivos LGBT em Paris.

O editor me propôs então construir um livro reunindo os arquivos LGBT+, e devo dizer que o projeto imediatamente me empolgou por uma razão simples: eu trabalho com esse tema há alguns anos enquanto historiador. Tenho lidado com muitos arquivos que às vezes me tocam e me emocionam, e são paradoxalmente documentos que nunca mostramos ao público em geral.

O livro começa em 1890. Por quê?

A obra deveria começar na segunda metade do século XIX, pois é nesse período que a definição de homossexualidade, no sentido moderno do termo, ocorreu. Deixe-me explicar: isso corresponde a um momento em que os comportamentos sociais foram pela primeira vez associados a uma identidade.

1890 foi escolhido de maneira arbitrária. Ele corresponde ao documento mais antigo desse livro: uma foto de Oscar Wilde dedicada a André Gide.

Seu livro é consagrado a lutas. Você diria que elas escreveram a história dos movimentos LGBT+?

A ideia era de partir dos discursos produzidos pelxs homossexuais e as pessoas trans’. De seus discursos políticos, das culturas e subculturas inventadas, dos movimentos organizados criados.

As pessoas LGBT+ estão constantemente lutando para criar espaços de vida em uma sociedade que era, e ainda é, hostil a elas. Nesse sentido, o fato de constituir arquivos LGBT não é apenas o prolongamento desse movimento. É criar um lugar na história e, portanto, na sociedade.

Como você coletou todos esses arquivos?

Por causa do meu trabalho, há numerosos documentos que eu já conhecia. Mas foi necessário solicitar diferentes fundos militantes, como o fundo Chomorat da Biblioteca Municipal de Lyon, os Archives Recherches Culturelles Lesbiennes de Paris, ou ainda, a associação Mémoire des sexualités de Marselha. Eu também recorri a fundos públicos, como os do Arquivo Nacional, ou o de Mucem, em Marselha.

Finalmente, procurei coleções particulares, como a do diretor Sebastien Lifshitz (do documentário Les invisibles), dirigi-me a militantes, a curadores de museus. Foi um trabalho titânico. Aconteceu de eu ver 300 fotos em uma única tarde para definir apenas uma para o livro!

As lésbicas estiveram durante longo tempo ausentes dos arquivos LGBT. Foi necessário um esforço particular de pesquisa para colocá-las no livro?

Sim, pois sempre houve uma luta no seio do movimento homossexual quanto à invisibilização das lésbicas pelo movimento gay, que reproduziu uma forma de dominação masculina sobre as lésbicas. É por isso que atribuímos particular importância a não reproduzir esse esquema dentro da obra. Em particular, isso mostra como esses problemas foram colocados, por exemplo, sobre a constituição e arquivos lésbicos precisamente para contestar essa invisibilização.

Os movimentos trans’ e bissexuais apareceram bem mais tarde em sua obra. Para você, isso é representativo da história de suas lutas?

Dizer que o movimento transgênero aparece tardiamente não é totalmente correto. Há uma espécie de proto-história do movimento transgênero tal qual o conhecemos hoje, começando na década de 1930, na esteira do médico alemão Magnus Hirschfeld, um dos fundadores da liberação homossexual. Esse médico acompanhava pessoas homossexuais e também pessoas transgêneras, e teorizou sobre a existência de um “terceiro sexo”.

Temos igualmente a tendência de esquecer a existência de uma associação para a luta pelos direitos das pessoas trans’, a Association d’aide aux malades hormonaux (Amaho) criada em 1965, antes da criação da Front homosexuel d’action révolutionnaire (FHAR) em 1971. Ao contrário, o movimento bissexual é relativamente recente já que a reivindicação bissexual, formulada enquanto identidade política, aparece com a expressão LGBT+ e sua popularização. É por isso que ele intervém tardiamente na obra.

Portanto, podemos realmente falar de arquivos lésbico, gay, bi et trans’, reunidos sob a sigla LGBT?

Há um duplo movimento. A expressão LGBT é um pouco anacrônica, pois um homossexual dos anos 30, 40 ou 50 não se reconheceria necessariamente nessa identidade que é contemporânea. Mas é um pouco mais complicado que isso. De um lado, podemos falar de “arquivos LGBT” como de um “movimento LGBT” no sentido de que a sigla tem algo de unificador que reúne essas minorias, dominadas em razão de uma identidade sexual rejeitada em relação a uma norma. De outro lado, a comunidade LGBT é atravessada por numerosas tensões e contradições.

Deve-se sempre ter em mente que é um movimento de identidades múltiplas. Dou dois exemplos: as lésbicas que fundaram a FHAR largaram-na porque a dominação masculina era muito forte aí. Os movimentos trans’ reclamam da falta de espaço para suas demandas dentro do movimento LGBT. É preciso então usar a expressão LGBT com seu sentido político, embora com a consciência de que isso não impedirá as tensões internas.

Esse livro é também uma reflexão real sobre o conceito de arquivos. Qual é seu impacto sobre a sociedade atual?

Esse livro é um gesto de coleta que esboça apenas o início de alguma coisa maior. Poderíamos coletar arquivos ao infinito! O arquivo é fundamental, tal como o ato de arquivar. Mas um arquivo não nos diz nada em si, ele existe apenas para os olhares que se voltam para ele, que provêm de diferentes épocas e que permitem fazer emergir leituras diversas e por vezes conflituosas. É, ao meu ver, apenas por essas diferentes releituras que o trabalho histórico e político pode tomar forma.

Ainda gostaria de fazer outra observação: ter a atenção para não imprimir uma força monolítica ao passado. Ele não está lá para ditar o que é o presente ou o futuro. Temos que ter sucesso, e se não for para nos afastar dessa ideia, pelo menos escolher o que queremos manter e o que queremos deixar de lado.

No fundo, este livro permite tomar conhecimento de uma história, colocar em circulação imaginários políticos para alimentar da maneira mais radical possível as lutas atuais.

O que você pensa do projeto do centro de arquivos LGBT de Paris?

É um projeto muito importante. Apreender os arquivos é apreender a história de alguém e recusar ser despossuído dela. É também reescrever a história do ponto de vista dos oprimidos. Há urgência porque as pessoas morrem, e com elas os arquivos desaparecem no esquecimento. Os porões tornam-se úmidos, os sótãos caem em ruínas e, em todas essas peças empoeiradas, há potencialmente fotos, panfletos, recortes que fazem a história dessa comunidade.

 

Archives des mouvements LGBT: histoire de luttes de 1890 à nos jours [Arquivos dos movimentos LGBT: história de lutas de 1890 aos nossos dias, em tradução livre], de Antoine Idier, publicado pela Editora Textuel em 24 de outubro de 2018.

 

Entrevista com Antoine Idier a Marion Chatelin, em 24 de outubro de 2018, publicada em Têtu. Disponível em: https://tetu.com/2018/10/24/vous-vehiculez-la-haine-crasse-quest-lhomophobie-le-depute-guillaume-chiche-tacle-la-manif-pour-tous/

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s