A OPERAÇÃO

Quero me fazer operar da vergonha. Me fazer operar da impossibilidade de me despir nos vestiários binários de piscinas e estabelecimentos balneários.

 

Uma manhã como outra qualquer, tenho uma consulta na clínica de cirurgia estética onde se fazem operações de redesignação sexual. Nela você pode também modificar seu nariz, cortar os grandes e pequenos lábios da vulva, extrair ou injetar gordura nas suas nádegas, alongar e aumentar o pênis, reforçar os peitorais, reduzir seu quadril e a cintura. Trata-se de uma oficina de biodesign onde a bricolagem somática é praticada com aspirador, bisturi, laser, fio de sutura… mas sobretudo com dólares.

Na primeira consulta, a enfermeira me informa sobre a norma legal da operação: “Você tem a idade legal e sofre de disforia de gênero persistente e bem documentada? Você trouxe o laudo psiquiátrico?” Eu entrego a ela um papel oficial que diz que o que quero fazer não é “uma mutilação”, mas “uma reconstrução cujo objetivo é a adaptação entre meu gênero psicológico e minha anatomia”. Ninguém pediria um laudo psiquiátrico se eu desejasse modificar a forma ou o talhe do meu nariz. Mas para mudar o gênero, é preciso pedir permissão ao papa. A maior parte de nossos órgãos é gerida pelo neoliberalismo: para mudar sua forma ou volume, basta ter dinheiro. Mas os órgãos considerados componentes do sistema reprodutor (seios, útero, pênis, testículos) são ainda submetidos à gestão do regime teológico-patriarcal. Em termos de marcação social do corpo, poderíamos dizer que o nariz, os lábios, as nádegas são o software, enquanto os órgãos genitais seriam o hardware. Mudar os órgãos genitais não é percebido como uma melhoria, mas como uma modificação total do sistema operacional, como uma reprogramação.

O médico me entrega, então, uma folha com a imagem de um corpo humano (humano? Isso é um corpo humano? Não é o meu corpo…) e me pede para indicar onde quero ser operado e qual forma desejo dar a meus órgãos. Faço ranhuras e cruzes com um marcador vermelho. Não desenho o corpo que quero: desenho o corpo que o remédio pode ver. Você não pode falar com a ciência na linguagem do ativismo. Nem com a da poesia. Para falar do meu corpo real, seria necessário, antes de me examinar, que esse médico e seu Rolex tomassem alguns goles de ayahuasca… Enquanto desenho, percebo sobre a mesa três próteses mamárias: duas beges e uma transparente. O médico, que tem nome de vodca, observa que meus olhos se fixam nas próteses e me tranquiliza: “Não se preocupe, não é para você.” Mas quando ele desaparece atrás de uma parede de vidro para eu me despir, não posso evitar tocá-las. Uma tem a textura de um mochi, uma sobremesa japonesa; a outra, a maior, assemelha-se a um globo túrgido cheio de um líquido mais denso que a água, mais leve que o óleo; a terceira prótese tem exatamente a consistência do primeiro seio que toquei em minha vida ou da memória utópica que esse contato, nem duro nem macio, deixou em minha memória. O médico volta: estou nu com um seio utópico na mão. “Ele te agrada?”, me pergunta. “Não, não – respondo, oprimido. – Foi apenas curiosidade.”

Então, ele toca meu corpo e pergunta: “E então, você quer operar?” Fico em silêncio. Estou distraído, penso em seu relógio e no “cipó dos espíritos”, na poesia e nas formas adquiridas pela selva quando o jaguar a olha. Eu não digo: quero me fazer operar da vergonha. Quero operar do constrangimento que senti quando um professor de psicologia disse, diante de um grupo de estudantes, que eu falseava minha voz para me fazer passar por um rapaz. Quero me fazer operar da impossibilidade de me despir nos vestiários binários de piscinas e estabelecimentos balneários. Quero ser operado de uma noite em um hotel em Las Vegas e das exatas palavras que a garota que eu amava disse. Quero que essas palavras sejam extirpadas e que em seu lugar fique apenas a lembrança de um beijo que trocamos no corredor do hotel Caesar Palace, diante de uma reprodução do David de Michelangelo. Que suas palavras sejam extirpadas e permaneça apenas a maneira como ela olhou meu braço, como se ele fosse um pênis. Quero operar a fúria que cresceu em meu peito quando eu tinha 11 anos. Quero operar o realismo naturalista que diz que vocês nasceram assim e que assim vocês morrerão. Quero me esgueirar do olhar inquisidor da norma. Quero operar da insatisfação de meu pai, que sabe que sua herança cairá em uma bolsa rasgada. É nessa bolsa rasgada que seria preciso fazer uma intervenção. Eu pediria ao doutor Vodca para costurar essa bolsa para que meu pai pudesse colocar seu ódio dentro dela como se empilham pedras quando queremos rasgar um tecido sob seu peso. Em seguida, eu pediria novamente a esse médico para me ajudar a jogar essa bolsa no rio Ouse. Quero ser operado de ter sido expulso das aulas de judô porque uma garota (eles disseram uma garota para se referir a meu corpo selvagem) não pode lutar com o peito nu. Quero ser operado do binarismo de gênero. Gostaria de operar o regime binário como se a epistemologia fosse uma bolsa de costura. Uma bolsa rasgada em duas. De um lado, a luxúria; de outro, a inconsciência. Quero costurar essa bolsa com pedaços de outras bolsas perdidas e rasgadas. Quero pedir a esse médico que me faça uma bolsa na qual eu traga as asas arrancadas das crianças trans. Quero me fazer operar do patriarcado: ele esticará o arco sobre meu peito e as flechas voarão para o passado, em direção a minha infância. O doutor Vodca aguarda ainda um minuto, mas, diante de meu silêncio, ele me repreende: “Se você não tem certeza, me diga. Essa operação não é uma tatuagem.”

 

Crônica de Paul Preciado publicada no jornal Libération em 2 de novembro de 2018. Disponível em: https://next.liberation.fr/images/2018/11/02/l-operation_1689546.

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

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