“Eu não sabia mais que tinha o direito de ser”: declara o casal de lésbicas agredido em Pontoise

Marie e Laurie foram agredidas em fevereiro passado, em Pontoise, porque são lésbicas. Entretanto, a acusação não aceitou a circunstância agravante de lesbofobia para um dos dois acusados. Elas aceitaram contar sua história pela primeira vez para Têtu.

“Pensamos que fosse apenas mais um insulto.” Oito meses se passaram desde a agressão. Entretanto, Marie e Laurie* falam disso como se fosse ontem.

Em 9 de fevereiro, o casal de lésbicas esperava seu trem na plataforma da linha J, em Pontoise (Val-d’Oise). “Não estávamos exatamente próximas, relembra Marie, de 18 anos. Poderíamos ser tomadas apenas como amigas.”

Um grupo de sete pessoas decide, entretanto, atacá-las. “Não passem ao lado delas, são lésbicas, essas putas”, diz a única mulher do bando. O casal não se preocupou com isso. “Não pensamos muito sobre isso, porque ocorre frequentemente”, sublinha Marie. “Pensamos que fosse apenas mais uma ocorrência.”

 

Bolas de neve na cara

Nevava naquele dia e as duas jovens começavam a receber bolas de neve nas costas, acompanhadas de insultos como “lésbicas sujas”. Marie se vira e comenta que isso não muda nada. Nesse momento, um homem avança e esmaga uma bola de neve no rosto de Laurie, de 17 anos no momento dos fatos. “Qual é o seu problema? Não fizemos nada com você!”, ela diz na direção dele.

Foi o suficiente para desencadear a raiva do homem. Ele agarra Laurie pelo pescoço com sua echarpe. “Eu pensei que ele fosse dar um soco nela”, suspira Marie. Ele acaba soltando quando Laurie saca seu spray. “Eu vou foder vocês, ela acreditou que era sua puta. Vou foder vocês”, se excita em seguida o adolescente de 17 anos.

As jovens entram no trem, seguidas por seus agressores.

“Ficamos perto das portas expressas, mas eles ficaram perto das escadas para nos ver quando saíssemos”, lembra-se Marie. Aquele que agrediu Laurie não parava de dizer: ‘Vou descer e quebrar vocês’. Ele queria vingança, na verdade.”

“Nos sentimos em perigo”

Laurie decide ligar para seu pai, um policial, para contar-lhe sobre a agressão e pedir-lhe para ter a polícia na plataforma de Conflans-Sainte-Honorine (sua estação de chegada, em Yvelines) daí a dez minutos. “Nos sentimos em perigo e estávamos claramente com medo de sermos atacadas.” Sem surpresa, os agressores desceram com o casal em Conflans. Felizmente, a polícia prendeu os sete indivíduos que tentaram entrar no trem nesse meio tempo.

O grupo, Laurie e Marie vão à delegacia, onde as duas jovens prestam queixa e identificam duas pessoas (a mulher e o homem) como seus agressores. As jovens dizem terem sido acolhidas na delegacia, onde seu interlocutor insiste na natureza lesbofóbica da agressão. “Provavelmente, graças ao meu pai”, reconhecia Laurie.

“Sem lesbofobia, não haveria nada disso”

O julgamento dos dois réus, ambos com 17 anos no momento dos fatos, deveria ter sido realizado nesta terça-feira, 6 de novembro, na Corte de crianças de Pontoise. Mas nada se passou como o previsto.

Como foi dito em outra reportagem, o julgamento foi adiado para o próximo mês por razões que as duas jovens ignoram. E pior, a promotoria reconheceu a circunstância agravante de lesbofobia apenas para um dos dois réus, a mulher.

“Foi verdadeiramente uma incompreensão total”, diz Laurie. “Se não for mantido o caráter lesbofóbico, também não será mantida a agressão.”

“Esperávamos tudo, menos isso”, concorda Marie. “Qual foi o problema, então? Ele não gostou do casaco de Laurie? Sem a lesbofobia, não teria havido nada disso. Foi isso que desencadeou tudo!”

O casal tem a sensação de que a justiça nega sua agressão e tenta minimizar a gravidade dos fatos. Sobretudo, a gravidade das consequências, bem reais para duas mulheres jovens.

“Eu não sabia mais que tinha o direito de ser”

Após a agressão, Laurie, que estudava à época em Pontoise, não se atreve mais a sair de casa, nem que seja para ir à aula. A princípio, com medo de represálias. Depois, porque ela diz que uma nova agressão “pode vir a qualquer momento e em qualquer lugar”.

“Eu não sabia mais o que eu tinha direito a fazer, que eu tinha o direito de ser, como tinha que agir.”

“Quando estávamos andando pela rua, fingíamos que não nos conhecíamos”, acrescenta Marie, que narra ter passado noites sem dormir durante semanas. “Não paramos de viver, mas tivemos que nos adaptar para não correr o risco de sermos insultadas e atacadas.”

As cicatrizes ainda estão vivas, as sequelas bem presentes. E as dificuldades judiciais que elas encontram (adiamento do julgamento, a circunstância agravante de lesbofobia que não foi aceita…) não ajudam em nada. Entretanto, se isso se repetisse, elas não mudariam nada.

“Eu prestaria queixa todas as vezes, assegura Marie. Sim, é um saco as intimações na delegacia, as ações judiciais… Mas, se não fizermos nada, nada mudará. Se não registrarmos queixa, os agressores recomeçarão.”

Para concluir: “Esperamos que a justiça faça sua parte. Nós não pedimos para estar acima dos casais heterossexuais, apenas no mesmo nível de igualdade. Esperamos que a justiça faça sua parte. E se for necessário um exemplo, será o nosso.”

* Os nomes foram alterados a pedido das vítimas.

 

Reportagem de Youen Tanguy, publicada em 8 de novembro de 2018 na revista Têtu. Disponível em: https://tetu.com/2018/11/08/je-ne-savais-plus-qui-javais-le-droit-detre-le-couple-de-lesbiennes-agresse-a-pontoise-temoigne/

 

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

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