Conversamos sobre teoria queer com Sam Bourcier

Teórico, ou melhor, “trabalhador queer em uma universidade neoliberal”, como ele próprio se denomina, Sam Bourcier é um personagem único no campo intelectual francês. No final dos anos 90, com seu doutorado apenas iniciado, ele foi um dos primeiros a introduzir a teoria queer na França, popularizando a produção de Judith Butler (de quem se distanciou em seguida), discorrendo sobre o sadomasoquismo (SM) ou o pós-pornô. Internacionalmente reconhecido como figura incontornável para o pensamento queer, esse pesquisador trans, professor na Universidade de Lille III, ocupa, entretanto, uma posição muito marginal no seio da universidade francesa. Foi essa precariedade que, aliás, inspirou seu último livro Homo Inc.orporated: le triangle et la licorne que pète [Homo Inc.orporated: o triângulo e o unicórnio que peida, em tradução livre], uma perspectiva transfeminista sobre o trabalho.

Por ocasião da reedição da trilogia Queer Zones, que o tornou conhecido, tomamos um café na universidade em companhia de seu buldogue Baby Butch.

Como se iniciaram suas reflexões sobre o trabalho?

Na faculdade, tenho um trabalho de merda. Dou as aulas que quero, mas a cada vez que quis desenvolver um Mestrado, fui censurado. Então, me perguntei: o que é útil para mim e para as pessoas ao meu redor que são precarizadas? Obviamente, é o trabalho. Ao mesmo tempo, grupos queers e transfeministas, principalmente na Itália, evoluíam nessa questão lá.

De fato, seu lugar na universidade ainda é marginal…

Ela está infectada. Eu me vejo no armário. Sou percebido como “muito militante” e, além disso, sou trans. Desde o início, faço epistemopolítica: questiono as relações com o saber. Poucas pessoas querem isso. Na EHESS, fui demitido quando promovi sessões pornôs. Saí do laboratório porque queria desenvolver estudos queers. Na França, a estrutura disciplinar é muito relutante à entrada dos saberes minoritários. O que reina são estudos de gênero achatados e desfigurados, muito ligados à sociologia, à antropologia. Resultado: eu me vejo excluído da universidade por fazer o que eu deveria fazer lá. Não existem estudos queers na França. Nem estudos feministas. Nem cursos de teoria crítica.

Há também o modo como você fala e escreve, uma maneira de criticar a posição de saber.

Faço a temperatura subir. É uma contribuição dos estudos culturais, o dirty outside world, como se diz. Não sou o melhor exemplo porque sou pesado. Mas para mim, se você não torna porosa a fronteira entre a universidade e o mundo, você não está indo bem.

Antes de Queer Zones, houve Zoo. Você pode nos contar sobre essa época?

Zoo era um espaço meio universitário. É o que sempre fiz: criar espaços que não existem, espaços de produção de saberes e de subjetividades. Descobri Problemas de gênero [de Judith Butler] em uma livraria anarquista-feminista em Londres, a Camden, e isso mudou minha vida. Quando você começa a politizar e desnaturalizar o gênero, tudo salta aos olhos. É por isso que as pessoas que acreditam na diferença sexual – a maioria – entram em pânico. Nós vivemos isso como uma euforia de gênero. Como fizemos isso coletivamente, não havia vergonha, nem solidão. Depois o cinema queer chegou com Bruce LaBruce, que dizia: “não faremos imagens de gays gentis, não faremos histórias de bichas criminosas”. Era extremamente estimulante: no contexto universalista e republicano francês, tínhamos necessidade de uma política de identidade ao modo americano, e é por isso que todo mundo nos detestava… Mas o desencadeador de Queer Zones 1 é o filme Baise-moi

. Eu não conhecia Despentes; aquilo foi um tapa. A partir daí, comecei o pós-pornô, quer dizer, a crítica à pornografia moderna e como faríamos de maneira diferente.

Havia também essa influência dos Estudos Culturais e do “dirty outside world” de Stuart Hall: os “objetos sujos”, como o pornô ou o SM, se tornariam enfim objetos de estudo legítimos.

Voltamos à universidade pela janela, mas eu não achava que iria levar objetos sujos para a universidade. Ao contrário, estou na universidade porque, para mim, saberes e práticas estão sempre ligados. Para me construir, meu gênero mudou – e, aliás, minha sexualidade mudou. Senão, não leria livros que tomam muito tempo para serem lidos. Por que a pornografia? À época, havia uma cultura sexual rica. Nos ambientes queers, ainda há um interesse pela sexualidade e a experimentação, mas com a agenda PMA[i], GPA[ii] e casamento[iii], o que está desaparecendo? É a ideia de que a sexualidade pode se renovar, que você contribui para modificá-la. E nisso somos fortes. A grande influência, pelo menos para mim enquanto homossexual, era a cultura gay. Nós mudamos nossas práticas sexuais, sobretudo com os SM. O que é bizarro, aliás, é que não transamos com eles mais frequentemente.

Sim, aliás, seu trabalho é também uma crítica ao movimento LGBT mainstream.

Minha prioridade é dar visibilidade ao antagonismo real que há entre as agendas queers e as agendas LGBT reformistas. Se quisermos desfazer a democracia liberal que empresta o pudor ao neoliberalismo – e ainda agora à ditadura, já que é isso o que se passa no Brasil –, devemos ser capazes de criticar e dialogar com os reformistas que estão na luta contra as discriminações tranquilizadoras, protetoras e seguras, que não funcionam. Nos anos 1970, eram feitas reflexões sobre o imperialismo, o anticolonialismo. Hoje, os grupos que se dedicam a questões de papéis, trabalho e trabalho sexual, como Acceptess T[iv] ou Strass[v], têm uma agenda política bem mais ampla.

A recente “mobilização contra as LGBTfobias” é um bom exemplo. Como pensar a violência oferecendo uma resposta queer que não seja vitimizante?

É preciso se libertar, se “desidentificar”, não acreditar na lei. Evidentemente, rostos inchados são importantes. Mas como atacar o problema de maneira sistemática? Você discute com o Strass e as profissionais do sexo, que são também confrontadas com a violência física e morrem disso… E, nós sabemos, se você fez um curso de autodefesa feminista, você tem um script: você dá um chute, pega no saco e torce bem. Não é o mesmo jeito de reagir. Porque ficar nas redes sociais gritando “homofóbicos, transfóbicos” em cada momento, isso demonstra qual capacidade de resistência? É lamentável ser maltratado na rua, mas, francamente, por que isso te anula? Porque a lei te faz fraco, te vitimiza. Antes, as trans, as bichas ou as drag queens pegavam a bolsa e paf!

Em um contexto repressivo e de recuo dos direitos sociais, os queers deveriam reinvestir nesses campos de luta, assim como os ativistas pink blocs[vi] fizeram?

De fato, não podemos fazer economia. Você fala de repressão, mas isso faz parte de um clima de violência segura, muitas vezes exigido pelas próprias pessoas LGBT. Quando eles dizem “é preciso educar a polícia”, precisamos ter diálogos políticos reais: por que você está errado?, o que é a violência policial? Hoje, a divisão se faz entre, de um lado, os gays reformistas e a PMA, de outro, as pessoas racializadas, precarizadas ou migrantes com uma agenda claramente anticapitalista. Obviamente, não podemos mais ser capitalistas.

Na Itália, eles fazem assembleias. É longo e complicado, mas as pessoas estão fazendo seu trabalho. As manifestações, a ocupação do espaço público, são importantes, mas quais são os espaços onde nos encontramos para definirmos juntos a agenda? Na França, o que nos impede de fazer a política, é a captura do desejo ativista por essa porcaria que é a lei de associação de 1901[vii]. Porque isso verticaliza, você tem muitos pequenos presidentes por todo lado que se comportam como presidentes. Os coletivos são a força. Em todos os programas em que falamos de política sexual, os coletivos deveriam estar presentes e desenvolver um ponto de vista queer. Sobre a teoria de gênero, vemos mais católicos do que nós. Os católicos compreenderam melhor a teoria de gênero do que nós, a tal ponto que os ativistas LGBT gritam e dizem: “a teoria de gênero não existe”. No entanto, de Lauretis e Butler, quando chegam à faculdade, fazem teoria de gênero! Evidentemente, existe: é você e é uma verdadeira riqueza! Vá lá!

Entrevista de Sam Bourcier a Matthieu Foucher, publicada em 16 de novembro de 2018 no site Vice, disponível em: https://www.vice.com/fr/article/xw9e5d/on-a-parle-theorie-queer-avec-sam-bourcier.

Tradução: Luiz Morando.


[i]
Procréation médicalement assistée (PMA – Procriação medicamente assistida). A
PMA é um conjunto de práticas clínicas e biológicas em que a medicina intervém
mais ou menos diretamente na procriação.
[ii] Gestation pour autrui (GPA – Gestação por
terceiros) é o procedimento da gestaão do bebê por uma mulher para gays ou
lésbicas, a partir de um contrato previamente estabelecido e negociado.
[iii] Mariage pour Tous (Casamento para Todos)
é a expressão francesa utilizada para se referir ao projeto de lei aprovado em
23 de abril de 2013, no Parlamento, que regulamentou o casamento, a adoção de
crianças e a partilha de bens entre casais do mesmo sexo.
[iv]
De acordo com o site da ACCEPTESS, a associação foi criada em Paris, em 26 de
junho de 2010, pela iniciativa de Giovanna Rincon e Chris Valle, acompanhadas
por Maire Dulong, Claudia Anjos, Cruz, Joana Machado, Alexia Rivillas, Jennifer
Cruz e Gaby Corrales. A sigla significa Actions
Concrètes Conciliants: Education, Prévention, Travail, Equité, Santé et Sport
pour les Transgenres (Ações Concretas Conciliadoras: Educação, Prevenção,
Trabalho, Equidade, Saúde e Esporte para Transgêneros). Seu objetivo é “a
defesa dos direitos das pessoas transgêneras mais precarizadas por meio da
interseccionalidade”.
[v] Conforme
seu site, o STRASS ou Sindicato do Trabalho Sexual existe desde 2009 na França.
Ele foi criado pelas profissionais do sexo durante a Conferência Europeia sobre
Prostituição realizada em Paris; ali estavam reunidas as profissionais do sexo,
junto com advogadxs, juristas, sociólogxs etc.
[vi]
Pink bloc designa uma tática de manifestação
ou uma forma de ação coletiva que combate o patriarcado e a categorização dos
gêneros. A tática visa promover o queer
e o travestimento.
[vii]
A respeito dessa lei, leia o artigo disponível em http://www.revues-plurielles.org/_uploads/pdf/17_13_37.pdf

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