“A educação e a cultura atual vão contra o pensamento”

A filósofa Marina Garcés diz que a crise atual da civilização nasce do medo do futuro e da busca de segurança baseada na força. É assim que surgem os autoritarismos.

A pensadora catalã publicou, no final do ano passado, o livro Nueva ilustración radical (Nuevos cuadernos Anagrama), considerado uma atitude de combate contra as crenças de nosso tempo e suas formas de opressão. Uma grande reflexão sobre autoritarismo, fanatismo ou terrorismo e a razão de estar na atual crise da civilização. A pensadora esteve no começo deste ano na Colômbia e Semana conversou com ela.

Em seu livro há certo desconforto, algo apocalíptico. O mundo está assim?

Diagnostico um pouco sobre o futuro e até onde os poderes podem nos levar. Reflito sobre os imaginários apocalípticos que ao mesmo tempo dominam nossos imaginários políticos, estéticos, até mesmo íntimos e pessoais: parece que não podemos olhar adiante sem pensar que algo vai acabar mal. E sentimos isso em muitas áreas. Analiso também nossa existência. O mundo parece formatado por uma ideologia e por uma forma de produzir impotência em nós como indivíduos e como sociedades. É o que chamo de um dogma apocalíptico, uma gestão por parte do poder em geral. E ainda como podemos desmontar essa espécie de condenação civilizatória que, de algum modo, nos convida a nos render.

Você fala de um mundo póstumo, que agonizamos…

Eu digo que essa crença é a construção ideológica do nosso tempo. O livro é um manifesto contra a condição póstuma. É um manifesto para nos reapropriarmos do tempo, de nossas existências pessoais e coletivas, e de fazê-lo retomando a conexão entre saberes e emancipação. Digo que é um livro que exige uma nova emancipação, contra esse futuro a que nos condena o capitalismo atual.

Você ficou marcada como uma ‘filósofa de guerrilhas’.

Porque tem um livro meu, anterior, chamado Fuera de clase: textos de filosofía de guerrilla, reunindo alguns escritos publicados em um diário, durante dois anos, que convidam à intervenção cotidiana sobre a discussão pública. Claro, na Colômbia, a palavra guerrilha tem outro significado.

Por que você fala de uma anti-ilustração?

Anti-ilustração é, precisamente, a situação reativa na qual vivemos agora. Optamos por mecanismos defensivos, especialmente aqueles que têm medo ao futuro e buscamos uma segurança baseada na força: lideranças fortes ou autoritarismos, o que chamo de guerra ilustrada, isto é, reação e defesa contra a incerteza do futuro.

Populismos, fanatismos e pós-verdade são o que você chama de ilustração?

São manifestações distintas dessa guerra ilustrada, porque são maneiras de neutralizar a possibilidade que temos todos de pensar por nós mesmos, e é nisso que se baseará a ideia clássica da ilustração. A ilustração é a defesa e a criação de condições para que possamos pensar por nós mesmos e, coletivamente, sobre nossas condições de vida. Um requisito para uma sociedade melhor e mais emancipada.

O outro é o culpado – o que está por trás, Trump, Putin –, mas nunca eu sou o culpado. Por quê?

Uma coisa é estar envolvido e outra é ser culpado. Não me sinto culpada de muitas das violências deste mundo, mas me sinto envolvida porque os problemas são comuns, sejam porque nos afetam diretamente ou não. Não vivo na Colômbia, mas a violência nesse país me preocupa. Para mim, me importa – com a filosofia, o ensino e a própria vida – despertar esse sentido de compromisso. Tem sido construído para nós um olhar individualista, um pouco sem-vergonha: como não posso fazer nada, não sou responsável. Todos temos responsabilidades éticas e políticas ao nosso alcance; se nos ocupamos delas, o mundo muda.

Você fala de analfabetismo ilustrado…

Tema ver com as maneiras como se educa hoje. Estamos todo o tempo escutando especialistas que nos dão receitas, políticos que vendem receitas… E isso é apenas o imediatismo da solução, quer dizer, o oposto de pensar. Pensar não garante a saída,mas pode criar outras saídas não previstas, outros valores ainda não incorporados à pergunta e, talvez, até invalida a pergunta: dizer que esse não é o problema, que o problema é outro.

E como nasce essa capacidade para pensar?

O pensamento não é produzir teorias sofisticadas. Todos os filósofos, de todos os tempos, dizem que a capacidade de pensar está distribuída igualmente para todos, que a força física é mais desigual que a potência de pensar. Há pessoas fortes, pessoas fracas, pessoas altas, pessoas baixas, pessoas saudáveis, pessoas doentes, mas todos podemos pensar.

Mas pensar depende de alguma coisa?

Das condições, dos tempos, dos espaços e das ferramentas para fazê-lo. A educação atual e a cultura atual, em geral, vão contra o pensar. Estamos no mundo da ação-reação, as redes sociais funcionam por likes, por “amei”. Mas o que quer dizer ‘amei’? Você não está dizendo nada. Tudo isso é a antítese do que seria uma cultura baseada na pergunta e na reflexão. Às vezes não temos as palavras imediatamente, mas, ao pensar, nascerão as palavras de que necessitamos.

No livro, você diz que talvez haja muita informação hoje, mas que não estamos melhor informados.

É outra coisa que analiso: a saturação informativa em tempo real, em quantidade. Informação que descontextualiza, quer dizer, não temos maneira de digerir tudo aquilo que recebemos. No mundo moderno somos receptores solitários de informação em frente a nossas telas e não podemos olhar ao lado, para compartilhar ou debater com alguém. Somos como patos engolindo comida para que o fígado inche. E, no final, incha.

Se não estou errado, você diz que a vida hoje é olhar constantemente as telas…

Sim, e como dissemos antes, então a única resposta possível são as reações: “ah, que horror!”, “ah, que bom!”, “ah, que legal!”, “ah, espetacular!”. Essa é a linguagem que hoje se constrói pela maneira como consumimos informação, máxima intensidade emocional. Por isso há tantos problemas nas redes, assédios, linchamentos ou insultos. Mas também enamoramentos absurdos: tudo é espetacular no mundo – um ator, um jogador de futebol, um artigo, um filme. A expressividade sempre sobe de tom, mas ao mesmo tempo a reflexão diminui.

No preâmbulo do livro você evoca Zygmunt Bauman, que fala da retrotopia. Se falamos em termos históricos, isso significa que voltamos à procura de uma utopia, mas não do essencial?

Bauman explica isso muito bem: que se nos relacionamos com o passado apenas em termos de utopia, isso é distensionar o próprio passado, porque o converte em ideal e todo ideal é uma ficção. Observem o caso do islamismo radical nesses momentos: invocam um Islam para poder lutar neste presente, mas a história do Islam é muito mais rica, muito mais complexa e, digamos, muito menos útil para fazer a guerra de hoje.

Você diz que tem que ser rebelde, mas como explicar isso ao leitor, como ser rebelde? Que tipo de rebelião você propõe?

Toda rebelião começa por parar e pensar, que não é necessariamente elucubrar e estudar muito. Parar e pensar desfaz a autoridade com a qual nós continuamente engolimos as formas de vida nas quais estamos encapsulados. Acredito que devemos evitar a reação e fomentar melhor a reflexão, o começo de todas as rebeliões possíveis.

Leio que você chamou seus alunos a desobedecerem. Devemos tomar isso ao pé da letra?

Não. Escrevi uma carta aos meus alunos na qual os interpelava, porque me incomodava a obediência mecânica deles: procurava fazer com que se perguntassem ‘por que estou aqui e por que volto toda semana a esta aula?’. Para obter um diploma? Para perder tempo? Todos saberão, mas se isso tiver um valor, comprometa-se com esse valor. E isso é diferente da obediência.

E frente à crise, a Trump, ao analfabetismo, aos populismos ou autoritarismos, para que serve a filosofia?

A filosofia serve para não desistir e é uma arma muito potente contra a resignação. Além disso, você não precisa comprá-la. O importante é alimentar a potência que temos para pensar as coisas de outra maneira, para parar e nos perguntar novamente.

Entrevista publicada na revista Semana, em 24 de outubro de 2018, disponível em: https://www.semana.com/cultura/articulo/entrevista-con-marina-garces-filosofa-espanola-autora-del-libro-nueva-ilustracion-radical/588074.

Tradução: Luiz Morando.

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