O que é a não-binaridade? Entrevista com a socióloga Karine Espineira

Em 29 de junho de 2018, Arnaud Gauthier-Fawas, diretor do inter-LGBT, foi o convidado do portal Arrêt sur images por ocasião da Marcha do Orgulho LGBT. Enquanto era salientado o fato de que “quatro homens” eram os convidados do programa, aquele que se reivindica “não-binário” declarou: “Não sei o que faz vocês dizerem que sou um homem, mas eu não sou um homem”, desencadeando os trendings topics no Twitter e resultando em numerosas paródias. Mas o que é a não-binaridade? Para melhor compreender o tema e as questões que o cercam,entrevistamos Karine Espineira, socióloga e membro associada do Laboratório de Estudos de Gênero e de Sexualidade da Universidade Paris 8.

O que é a não-binaridade?

Seria romper com a ordem dos gêneros, quer dizer, recusar se inscrever como homem ou mulher, obviamente com todas as coisas que acompanham isso. É a recusa da inscrição em um gênero, com aspas, a recusa de todos os papéis inerentes ao gênero atribuído. Ao gênero“homem” vai corresponder um monte de coisas; ao gênero “feminino”, mais outro monte, incluindo a opressão de gênero em particular.

Existem outras expressões:”gênero fluido”, “agênero”… Quais são as diferenças entre essas denominações?

As diferenças serão dadas pelos diferentes grupos. Mas todas essas expressões têm um ponto em comum: o de desfazer a hierarquia de gêneros, de recusar a ordem de gêneros, quer dizer, um mundo feito unicamente de homens e mulheres. Em segundo lugar, elas enfatizam a fluidez do gênero. Para esquematizar, gênero fluido são pessoas que vão se definir, em um dado momento, em relação a seus sentimentos, mais em um eixo feminino ou masculino, mas sem se sentirem confinadas a um gênero ou a outro. É também outra maneira de neutralizar o gênero e os papéis de gênero. Por exemplo, quando o ator Jaden Smith, filho de Will Smith, veste uma saia, ele não coloca uma roupa de mulher, ele a desgenerifica: ele coloca um tecido, uma roupa que lhe agrada. A roupa torna-se então gênero fluido porque não pode mais ser anexada a um gênero ou outro.

“Agênero” é a recusa provavelmente mais afirmativa de um marcador de gênero. É verdadeiramente nenhum dos dois, nada na personalidade da pessoa está marcada como masculino ou feminino. Tudo está completamente neutro. Gosto do termo neutralização do gênero: centra-se tudo no sentimento da pessoa e na reescrita, em algum lugar,do que ela é, de seus gostos. Isso remete, em algum momento, ao fato de amar alguma coisa porque ela nos convém, não porque seria masculino ou feminino.

No portal Arrêt surimages, Arnaud Gauthier-Fawas explica que “não devemos confundir identidade de gênero com expressão de gênero”. Qual a diferença entre os dois?

Não penso da mesma forma que ele. Para Arnaud Gauthier-Fawas, “identidade de gênero” é a maneira como nos sentimos; é também o que dizem as pessoas trans em geral. “Expressão de gênero” é o que refletimos exteriormente. Então, por exemplo, a identidade de Arnaud Gauthier-Fawas é não-binária, mas, visualmente, vemos um homem, uma barba, uma musculatura, certa corpulência.

Dito isso, eu não faria essa distinção, porque, nesse contexto, podemos ficar presos pela expressão de gênero. Por exemplo, no contexto das pessoas trans, a expressão de gênero é a afirmação da identidade e sentimento de gênero, que são, por longo tempo, negados e recusados a essas pessoas. Portanto, a expressão de gênero tem uma importância que é mais marcada nas pessoas trans, e ela tem tendência a ser consubstancial à identidade de gênero. Arnaud Gauthier-Fawas faz algo diferente disso. E, portanto, com os marcadores culturais etc. que temos, vamos interpretar sua aparência como sendo masculina.

Você vê avanços nessa questão? Por exemplo, a escrita inclusiva, toda a reflexão semântica com os pronomes “ille” ou “iel/yel”? Mas o que fazer na vida cotidiana, quando nos dirigimos a pessoas não-binárias e, por causa da influência de certa expressão de gênero, adotamos certa linguagem?

É aqui que vemos que o mecanismo da expressão de gênero é importante. Para retomar o que Daniel Schneidermann disse em seu post no Arrêt sur images após a sequência com Arnaud Gauthier-Fawas, se ele for à padaria e o atendente o tratar por “Senhor”, ele não vai balançar a bisnaga, porque o ou a padeira faz o que sempre fizemos há muito tempo: há um marcador, uma expressão de gênero, e nosso vocabulário está em adequação com essa expressão de gênero que vemos. Da mesma forma, na vida cotidiana, quando não conhecemos a pessoa, parece quase impossível identificar uma pessoa não-binária se não houver um marcador específico. O que fazer? Culturalmente, somos máquinas de binarizar: vemos masculino, feminino, e a linguagem se adapta. Portanto, na vida cotidiana, não sei – ou então teríamos que inventar uma linguagem oral que se adaptasse a todo mundo. E, nesse caso, haverá pessoas que dirão que elas querem um marcador de gênero masculino ou feminino, o que é natural também. O reconhecimento de uma identidade não-binária só pode ser feito como parte de uma relação interpessoal. Mas como parte de uma relação anônima no espaço público, eu não vejo como.

O que podemos fazer agora é parar de ver todo homem ou toda mulher e anexar a ela ou ele seja a homofobia, a transfobia ou o sexismo. Isso seria um primeiro passo, parar dever apenas “verdadeiros” homens ou “verdadeiras” mulheres, porque a vida não é isso. Dito isso, a linguagem e a escrita inclusiva já são um primeiro passo muito importante para desbinarizar a sociedade. Sem ofensa a detratores ou detratoras que dizem que isso é complicado etc. É apenas um esforço, não importa, acho que todos podem ganhar. Da mesma forma para os pronomes “ille”[i],“iel/yel”.

Como eu dizia, fora da estrutura do programa e do debate que ele criou, é muito positivo ver esse questionamento, e muito positivo para as pessoas poderem se afirmar, pois é também uma questão de bem-estar e de posicionamento em relação ao mundo. A identidade é política, afetiva, cultural, e acho bom esse posicionamento sobre a não-binaridade. Depois, à medida que a sociedade for contaminada – no bom sentido do termo! –, ela se abrirá para isso. Mas o caminho também é de mão dupla: não podemos pedir para as pessoas verem o que não é necessariamente visível. Voltemos mais uma vez à expressão de gênero: se não há um sinal, um código, é muito difícil e estaremos errados. E temos o direito de nos enganar,da mesma maneira que os não-binários têm o direito de se afirmar, de inventar um vocabulário, de inventar várias coisas para se sentirem bem nesse mundo. Todos nós temos o direito; compartilhamos o mundo e temos direito a ele.

Nas redes sociais, os comentários de Arnaud Gauthier-Fawas foram alvo de ataques muito violentos. Porque o tema da não-binaridade, e em geral o de gênero, suscita tanta rejeição e críticas?

Isso se deve a certa visão da sociedade tradicional, e isso também é um efeito do que será chamado de patriarcado. Estamos em uma sociedade onde temos dois sexos sociais, e portanto dois gêneros, homem e mulher, aos quais correspondem papéis bem precisos. Há então pessoas que temem o que chamo “a ordem dos gêneros” ser virada de cabeça para baixo. Porque, de repente, os papéis serão redistribuídos, criticados,analisados etc. E então há o medo de que a sociedade, tal como certo número de pessoas a veem, mude, evolua. São movimentos conservadores, que não querem que nada mude em nossas crenças e em nossa cultura. Em resumo, é a rejeição à diferença. Por isso, não fico absolutamente assustada que o vídeo de Arrêt surimages tenha suscitado isso. É um grande medo dos movimentos tradicionalistas e conservadores: queremos um papai, uma mamãe, crianças, um casal heterossexual, uma filiação heterossexual, uma cultura que seja Francesa…

Você acha que,eventualmente, o governo francês reconhecerá um gênero “neutro”? Você é favorável a isso?

Estou completamente dividida com relação a isso. Sempre há perigo de criar novas caixas. Se perguntarmos às pessoas trans, que estão amplamente envolvidas nessa questão, elas mesmas estão muito divididas. Há pessoas trans que são, por exemplo, não-binárias e que desejariam outra coisa que o gênero homem-mulher, e que seriam favoráveis a essa terceira caixa que poderia ser o gênero neutro. Outros grupos veem aí a possibilidade de uma discriminação a mais: essa caixa seria um marcador e, dependendo dos regimes políticos em vigor – e às vezes até democracias que não são boas democracias… –, isso poderia ser um problema. Imaginemos o uso que um governo um pouco rígido poderia fazer dessa terceira caixa…

Outra solução que me pareceria interessante é colocar a questão de saber se verdadeiramente temos a necessidade, nos documentos de identidade, de ter o M ou o F (para masculino/feminino), se nos papéis de seguridade social temos verdadeiramente a necessidade do 1 ou do 2 (para masculino/feminino). Nossa sociedade não seria capaz de viver sem esse marcador? Em vez de adicionar uma caixa, não podemos nos perguntar se realmente precisamos dessas duas caixas? Sou de origem chilena e já tive uma carteira de identidade onde não havia esses marcadores, só eu! Mas desde então, o país adicionou o F e o M.

A questão dessas diversas denominações é debatida dentro dos movimentos militantes, quer sejam feministas ou LGBTQI+. Quais são os pontos de tensão?

Os diferentes movimentos LGBTQI+ entraram em uma fase em que cada grupo tem suas especificidades. Há uma convergência de lutas, mas, ao mesmo tempo, cada grupo não quer perder suas especificidades e a especificidade de sua palavra. Assim, as tensões nascem frequentemente quando um grupo sente que está sendo desapropriado. Por exemplo, mesmo que não seja necessário generalizar: em dado momento, houve conflitos entre pessoas trans e feministas, aquelas do movimento radical – atenção, não digo o feminismo radical em seu conjunto –, porque as lésbicas feministas tinham a sensação de que foram despojadas das questões feministas através das questões trans, e que, finalmente, nos círculos LGBT, falava-se apenas da questão trans,da questão de gênero mas do ponto de vista trans. E que ninguém falava mais das relações sociais de sexo e de dominação de um ponto de vista feminista. Então,esse grupo se sentiu um pouco despossuído dessa questão e invisibilizado.

Da mesma forma, às vezes, os discursos gênero fluido, não-binário, podem dar a impressão de que estamos desalojando as lutas trans de certa especificidade, o que é ao mesmo tempo verdadeiro e falso. É falso porque é uma luta que se soma e, na minha opinião, que essas pessoas se põem a discutir a ordem dos gêneros etc. Isso me parece ir na direção certa. É também o que diz uma parte do pensamento feminista: é preciso pensar as relações sociais de sexo e de gênero. E penso que as lutas trans poderiam se beneficiar desse movimento agênero, não-binário etc.

Mas, ao mesmo tempo, isso pode ser contraproducente. Por exemplo, mais uma vez para voltar ao que aconteceu em Arrêt sur images – e, vamos deixar claro, longe de mim a ideia debater nele – o que não seria necessário é que esse caso concentre as questões de gênero e, de repente, destacamos as questões trans, porque ele, por exemplo,não viveu como uma trans, não viveu a transfobia que pode viver uma pessoa trans quando ela faz sua transição, que é de uma violência incrível no espaço público, sem contar o espaço familiar. Então, a luta não-binária não pode também se reapropriar desse percurso trans, e penso que é isso que as pessoas trans que estão um pouco em tensão com esse movimento receiam: de realmente caricaturar, que uma pessoa não-binária diga “eu sou uma pessoa trans” em algum lugar. As pessoas trans se dizem então: você vai trabalhar, você vai viver sua vida, nós vamos te tratar por “Senhor” ainda que você não se defina como homem, mas isso não é tão violento quanto a transfobia. Portanto, não é necessário que o discurso não-binário, fluido, esconda a violência das relações sociais que as pessoas trans podem experimentar.

Entrevista a Amélie Quentel, publicada em 8 de julho de 2018 no site Les Inrockuptibles. Disponível em: https://www.lesinrocks.com/2018/07/08/actualite/quest-ce-que-la-non-binarite-entretien-avec-la-sociologue-karine-espineira-111102310/.

Tradução: Luiz Morando.



[i] Na língua francesa, o pronome pessoal do caso reto, 3ª pessoa do singular masculino é ‘il’ e feminino é ‘elle’. Uma opção da linguagem inclusiva nesse idioma seria reunir os dois pronomes em um apenas, formando ‘ille’.

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