Adrian de la Vega: “Uma má visibilidade das pessoas trans não leva a nada.”

Filmando em Lyon até meados de julho para a segunda temporada da série Les Engagés, o ativista trans Adrian de la Vega é conhecido pelos vídeos de seu canal no YouTube. Inspirado em particular por Giovanna Rincon e Karine Espineira, ele fala de transidentidade com pedagogia e convicção. Eleito “personalidade LGBT de 2017”, durante a primeira cerimônia do Out d’Or do ano passado, Adrian de la Vega foi ainda o padrinho da Marcha do Orgulho de 2018 de Arras e participou da de Lyon dia 16 de junho passado.

Há alguns dias, soubemos que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retiraria o termo“transexualidade” dos distúrbios mentais referenciados na Classificação Internacional de Doenças, substituindo-a pela expressão “inconsistência de gênero”, classificada entre as “Condições relativas à saúde sexual”. Isso é um avanço real para você?

É uma reclassificação estranha, um pouco como o que foi feito na França em 2014 [a reclassificação da transidentidade enquanto Condição de longa duração (CLD): de CLD 23 (condição psiquiátrica de longa duração) a CLD 31 (fora da lista)]. A França deve parar de se orgulhar disso porque isso não deu em nada, os protocolos oficiais não mudaram. Se a terminologia tem importância, acima de tudo são as práticas que me interessam. É um primeiro passo, mas é verdade que nunca é rápido o suficiente quando se está diretamente envolvidx. É urgente, as práticas também devem mudar.

O que você reprova no sistema de transição francês?

Na França, se você quer fazer uma transição com acompanhamento médico, você tem duas possibilidades: você tem a SoFECT [Sociedade Francesa de Estudo e Gestão da Transidentidade], que é uma equipe de especialistas auto proclamadxs oficiais e que desenvolvem uma abordagem muito psiquiatrizante, à moda antiga; e você tem os outros médicos,que chamamos “o caminho particular”. No segundo caso, você não tem certeza de ser reembolsadx pela Previdência Social, mas são mais respeitosos com você. Há também iniciativas como o Espaço de Saúde Trans, em Paris, onde médicos transou aliadxs recebem todo o mundo, sem julgamento. Há dois anos, trabalhei com elas e eles em protocolos vindos do Canadá, mais respeitosos.

O problema é que há muitos médicos-consultores que se recusam a cuidar de você se não estiver estabelecido um diagnóstico psiquiátrico ou se você não for acompanhadx pela SoFECT. É uma violação do direito de escolher seus médicos [reconhecido pela lei de 4 de março de 2002, artigo L. 1110-8 do Código de Saúde Pública]. É por isso que as associações trans não discutem mais com a SoFECT e a boicotam há vários anos.

Como ativista, também é essa luta que você lidera?

No momento, trabalho com a midiatização das pessoas trans, com a ajuda dos escritos de Karine Espineira, uma socióloga trans especialista na questão e cujo livro eu aconselho ler – La Transyclopédie: tout savoir sur les transidentités [Transciclopédia: tudo sobre as transidentidades (tradução livre)]. Meu outro cavalo de batalha é a mudança de registro civil livre e gratuito. Apesar da [lei de 18 de novembro de 2016, de modernização da justiça do século XXI, que permite] a mudança de nome livre e gratuito na prefeitura, observamos que depende da boa vontade das prefeituras. Algumas até inventam seus próprios formulários, como em alguns distritos de Paris.

Pessoalmente, ainda não mudei meu registro civil porque isso ainda ocorre no Tribunal de Grande Instância[i] (TGI) e, politicamente, recuso-me a isso. Mesmo que, desde 2016, você não precise mais pagar um/a advogadx ou apresentar “provas” médicas de sua transidentidade para obter essa mudança, você deve reunir depoimentos de seus parentes que afirmem que você vive bem, o que é particularmente humilhante e penoso, mental e fisicamente. Isso não é normal. Mais uma vez os legisladorxs dizem que não somos mais psiquiatrizadxs, mas ao mesmo tempo elas e eles não confiam em nós.

Face a isso, conheci o Defensor público Jacques Toubon, da Prefeitura de Paris. Ele não estava muito ciente do que estava acontecendo e foi vago sobre a questão. Mas é complicado, porque nada é claro, hoje. A única coisa que é precisa na lei é que você não pode discriminar alguém em função de sua identidade de gênero. Xs legisladorxs são muito covardes e cometem imprecisões a tal ponto que nosso tratamento depende da apreciação de cada um/a delxs, como é comum. Ser uma pessoa trans é um pouco isso: ser apreciado por todo mundo.

No YouTube, os escândalos de conteúdo não impulsionados por razões frequentemente obscuras se sucedem. Isso significa que a plataforma escolhe tornar certos vídeos inelegíveis para a publicidade. Seus/suas criadorxs não receberão nenhum valor e esses vídeos não serão mais “recomendados”. Você conhece esse fenômeno?

Isso acontece comigo o tempo todo, quer o conteúdo seja educativo ou não, quer eu diga ou não um palavrão. Desde que haja a palavra “trans”, tenho que pedir uma verificação manual ao YouTube. Mas meus vídeos mal são impulsionados: dez vezes menos que os outros vídeos. Não são os anunciantes que escolheram fazer isso, mas o YouTube de maneira drástica. Há muitos anunciantes que estariam dispostos a fazer pinkwashing. O YouTube, e mesmo o Google, são LGBTfóbicos.

Todos os meus vídeos, exceto dois ou três, estão no modo restrito (portanto, acessíveis unicamente às pessoas conectadas ao YouTube). O que quer dizer que o conteúdo é filtrado. Isso é feito supostamente para proteger as crianças, mas é uma falsa desculpa porque já existe uma versão do YouTube “família” e não vejo o que há de chocante para as crianças no fato de verem pessoas trans, gays, bi… É uma escolha muito política do Google.

Em um de seus vídeos, você denuncia o discurso sobre pessoas trans veiculado pelo documentário Être fille ougarçon, le dilemme des transgenres transmitido no programa Zone Interdite (no M6). Qual impacto esses programas, que se querem “progressistas”, podem ter sobre a imagem de pessoas trans?

Era quase vergonhoso, arrogante, desonesto. A jornalista optoude liberadamente por apagar uma parte inteira da comunidade trans enquanto afirmava “retratar a realidade”. Foi omissão de informação, não jornalismo. Ela dizia querer apresentar sua visão das pessoas trans, exceto que o que importa não é sua visão, mas uma informação objetiva. Reagi em um vídeo e as pessoas me apoiaram. Não tenho nada contra as pessoas trans que participaram desse programa, ainda que, quando vemos sempre os mesmos rostos nos documentários sobre transidentidade, é preciso questionar. Para mim, o menos pior é o documentário Trans, c’est mon genre transmitido no programa Infrarouge (no France2), que contém apenas depoimentos diante da câmera, com muitos perfis diferentes e sem comentários.

Uma má visibilidade não leva a nada, as pessoas já sabem que as pessoas trans existem. Olhe as mulheres trans: podemos dizer que elas são mais visíveis que os homens trans, mas é uma má visibilidade, que não é nem escolhida, nem inteligente e são as que mais sofrem com isso.

Digo isso também aos homens trans: basta de transmisoginia. É transfóbico dizer que um homem trans é necessariamente feminista porque teria sofrido discriminações sexistas. É como dizer que as mulheres trans têm privilégios masculinos, o que não é verdade. É importante educar e sensibilizarem todos os lugares, especialmente quanto às questões trans. Faço muitas conferências para pessoas que não conhecem nada, mas também nas associações LGBT. Nessa de Arras, a maioria das pessoas era homens brancos, gays e, entretanto, se esforçavam por compreender. Assim, é possível, basta querer.

Em um de seus vídeos, você denuncia uma “fetichização” das pessoas trans. Você pode nos contar sobre isso?

É uma das facetas da transfobia. É principalmente as mulheres trans que sofrem disso, sobretudo porque “mulher trans” é uma categoria em sites pornôs. Idem para os intersexuais. Os cis [pessoas não-transgêneras] têm uma relação muito pouco saudável com as partes genitais dos trans. Eles desumanizam completamente as pessoas trans, que se tornam apenas corpos bizarros. As pessoas se permitem então fazer perguntas muito depreciativas como “o que você tem entre as pernas?” quando todos nós temos corpos diferentes. Isso é insuportável.

Nesses casos, você tem que abordá-los profundamente. A gentileza nunca deu direitos a ninguém. É preciso ser educativo, mas você não pode abrir uma porta que não tenha fechadura e chave. Por vezes, isso é inútil, você precisa estragar tudo. Quando as pessoas me fazem uma pergunta indiscreta, se estou cansado ou de mau humor, mando-as caminhar. E é preciso que os outros aceitem a raiva de algumas pessoas trans em vez de expulsá-las. É necessário compreendê-la. Há raivas que são saudáveis, como diria Ségolène Royal…

Como YouTuber, você parece ter relações estreitas com as associações…

Eu criei meu canal porque faltavam informações sobre os problemas das pessoas trans em francês. Muitas pessoas me contactavam e perguntavam: “Oi, eu sou trans, como faço para transicionar?”. Isso não é normal. Faço então a intermediação com os associados, que são profissionais. Eu acredito nas associações, considero-as maravilhosas e fazem um trabalho formidável. Tenho listas de contato de associações, números de várias cidades. Não estou aqui para julgar a vida de cada um/a, mas para dar informações, como faço com as pessoas cis através de meus vídeos, nos quais proponho educação pública inteligível.

Se ficarmos no emocional, como no documentário do M6, isso não levará a nada. As pessoas vão sentir empatia no momento, mas elas e eles têm necessidade de informações verdadeiras. Se adaptarmos os diferentes discursos a cada público, cada um/a se dará conta disso. Mas as associações não têm tempo para isso. Elas são substitutas do Estado tanto nas questões de acesso quanto nos cuidados e apoios psicológico, por isso não conseguem fazer aquele trabalho. Nós nos completamos, precisamos de tudo e é importante que ninguém seja depreciadx ou que haja questões de hegemonia entre uns/umas e outrxs.

Você foi eleito “personalidade LGBT do ano” na primeira edição do Out d’Or, em 2017. O que isso representa para você?

A cerimônia do Out d’Or é criticável (por exemplo, parece-me que insistir no coming out não seja particularmente pertinente). Mas estou muito interessado nisso devido aos esforços e ao progresso que ela representa. Por exemplo, as apresentadoras eram todas mulheres. É um projeto que precisamos incentivar, sobretudo porque xs organizadorxs sabem escutar as críticas que fazemos. É apenas a segunda edição e elas e eles têm poucos meios! Pessoalmente, os Out d’Or me dão visibilidade. Pouco a pouco, isso poderia tornar-se como os Glad Awards, que têm agora uma influência enorme nos Estados Unidos.

Não sou favorável a uma categoria especial “ator transgênero” ou “atriz transgênera” nos festivais. Ao contrário, amo a ideia de categorias não generificadas. Mas acho que devemos dar mais prêmios às mulheres. Elas recebem menos prêmios, são menos bem pagas no cinema, quando não são enquadradas em papéis estereotipados. Seria necessário que os júris mudassem, é um problema do patriarcado. É uma loucura criar festivais especiais,mesmo que seja útil, porque os júris não são nem um pouco neutros.

Pessoalmente, sou um ator, sou trans e escolhi me tornar visível. Mas um/uma ator/atriz trans pode fazer uma escolha contrária. Cada pessoa decide ficar visível quando ela quiser, se ela quiser, com quem ela quiser. Devemos ter tempo para fazer caso a caso, isso nos humanizaria um pouco mais. Não somos apenas um tema; não podemos falar dxs “trans” como se falássemos de “futebol”.

Em seu discurso durante o Out d’Or, você evocou figuras que te inspiraram. Você se considera um modelo?

Penso que na França temos um grande problema com as associações: não midiatizamos os/as ativistas. Está começando a acontecer, mas enquanto personalidade política e militante, penso que sou o único e não falo isso para me gabar! Algumas pessoas trans são conhecidas, mas são mais como vloggers, como Laura Badler, uma de minhas amigas. Mas sou o único em uma abordagem militante assumida no YouTube. Aliás, vejo que, quando convidamos YouTubers LGBT, sou apresentado como sendo “o engajado, o militante”… É verdade que no YouTube não falo de mim, não documento minha transição, mas falo mais sobre a vida cotidiana (um pragmatismo que me foi inspirado por Giovanna Rincon e as ativistas de base).

Apesar de tudo, devo confessar que as pessoas me tornam muito popular, que elas e eles me enaltecem. É um pouco o que se passa nos Estados Unidos: nunca houve tantas figuras trans, nem tantas agressões a minorias e a grupos mais precarizados. E não faço parte dos mais precarizados, tudo está indo bem para mim e percebo que tenho muita sorte. Falo bem em público, minha cara vai bem na tela, eu sei disso… Pretendo aproveitar essa oportunidade para fazer ouvir todas as nossas vozes, não apenas as dos “transglamours”, do qual faço parte. Não devemos esquecer que a popularização das pessoas trans não ajuda as pessoas trans todos os dias.

Você estará justamente entre os integrantes do cartaz da segunda temporada de Les Engagés, uma websérie de ficção sobre a vida militante e das associaçõesLGBT de Lyon. Como você se juntou a esse projeto?

Amei o roteiro que me deram. Esclareço que minha participação em Les Engagés não é um ato militante em si. Simplesmente, tenho o direito, como todo mundo, de ter sonhos e desejos. Mas penso que não há nenhuma série no mundo, a não ser a websérie Brothers, realizada por homenstrans, com um personagem trans como o meu.

O papel de Jonas Ben Ahmed em Plus belle la vie é um papel educativo. Ele está lá para ser “o trans”. Não é o caso do meu personagem. É importante que a transidentidade não seja central na história. Ao contrário, a transfobia no meio LGBT é. Meu personagem não está questionando isso. O desconforto vem de outros personagens que sabem o que é uma pessoa trans, mas quando isso os afeta diretamente, reagem como muitas pessoas: “Eu não tenho problemas com os trans desde que elas e eles fiquem longe de mim”.

No cinema, temos que lutar para que os papéis trans sejam interpretados por atores/atrizes trans ou para que estes/estas possam interpretar não importa qual papel, incluindo os papéis cis?

Os dois. Laverne Cox [a atriz transgênera que atua nasérie Orange is the new black] disse em um de seus discursos: é preciso começar a fazer interpretar personagens trans por atores/atrizes trans. Efetivamente, penso que, em seguida, é importante que elas e eles possam interpretar outros papéis que não apenas trans.

Você foi padrinho da Marcha do Orgulho de Arras e participou da de Lyon no sábado, 16 de junho. O que você achou disso?

Em Lyon, falamos da PMA[ii] mas não de pessoas trans, que também são afetadas pela PMA e a conservação de gametas. Fui eu que lancei o slogan “Direito dos trans, agora”, mas xs organizadorxs não pensaram nisso espontaneamente. É verdade que em seus discursos, eu teria amado ouvir ao menos uma palavra sobre a reforma do registro civil que não avança, mas é sempre assim, você sabe.

Você viu o slogan de Paris? [“Discriminação, no tapete. No esporte, como em nossas vidas!”] São os Jogos Olímpicos. Achei um pouco leve, ao contrário do de Arras, onde o tema era mais geral (“Juntos, vamos longe”) e permitia abordar todos os tópicos: AIDS,migrantes, trans, PMA. Assim, podemos ter tudo.

Entrevista cedida a Cypriane El-Chami, publicada em 14 de julho de 2018, no site da revista Hétéroclite. Disponível em: http://www.heteroclite.org/2018/07/adrian-de-la-vega-transidentite-52794.

Tradução: Luiz Morando.


[i] Corte equivalente ao nosso Superior Tribunal de Justiça.

[ii] N.T.: no original, procréation médicalement assistée (PMA). A procriação medicamente assistida (PMA) é um conjunto de práticas clínicas e biológicas em que a medicina intervém mais ou menos diretamente na procriação.

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