Duas cartas de amor

A emocionante carta de amor de uma freira da Idade Média para sua amada

Suas mensagens mais românticas parecerão bem sem graça após você ler a carta dessa freira do século XII.

Você lamentará não estudar na Universidade de Bonn. Doutorando na faculdade alemã, Erik Wade postou no Twitter um texto estudado em sala de aula: uma carta de amor dirigida por uma freira a sua amada (também freira).

A tradução desse manuscrito foi publicada pela primeira vez em 1968, em uma obra de Peter Dronke sobre a poesia amorosa na Europa medieval. Sua publicação nas redes sociais encantou diversos internautas.

“Não encontrei nada à altura do seu amor”

Têtu traduziu o conteúdo da carta a partir de uma tradução do inglês antigo:

«Para C. – mais doce que o mel e seus raios – envio a seu amor todo o amor que existe. Você, que é única e especial, por que demora tanto, tão distante de mim? Por que você quer que seu único amor morra, eu que, como você sabe, te amo de corpo e alma, que suspiro a cada hora, a cada instante, sua ausência, como um passarinho faminto.

A partir do momento em que devo ficar sem sua doce presença, não desejo mais ver nem ouvir qualquer ser humano, mas como a pomba do bosque que perdeu seu parceiro e se empolera para sempre em um pequeno galho ressecado, eu lamento sem fim, até que possa gozar de novo de sua confiança. Olho em volta e não encontro meu amor – ela não me conforta com a menor palavra. De fato, quando penso no encanto de suas palavras e dos personagens mais felizes, fico profundamente deprimida, não encontro nada à altura do seu amor, mais doce que o mel e seus raios, face ao qual o brilho do ouro e da prata parece sem graça.

O que mais?

Tudo em você é apenas bondade, perfeição e meu espírito definha constantemente em sua ausência. Você é desprovida do fel da infidelidade, você é mais doce que o leite e o mel, não existe ninguém parecida com você, eu te amo mais que a qualquer pessoa. Apenas você é meu amor e meu desejo, a doce frescura do meu espírito; não há nenhuma alegria para mim onde você não está. Tudo o que foi excelente com você é cansativo e pesado sem você.

Quero, então, sinceramente te dizer, se eu pudesse redimir sua vida com a minha, que eu o faria neste instante, pois você é a única mulher a quem escolhi para conceder meu coração.

Portanto, imploro a Deus que uma morte amarga não me sobrevenha até que eu tenha a alegria, que desejo mortalmente, de pôr novamente os olhos sobre você.

Adeus. Receba de mim toda a confiança e o amor possíveis. Aceite o escrito que te envio e com ele meus constantes pensamentos para você.”

Reportagem de Alexis Patri, publicada em 6 de dezembro de 2018 na revista Têtu. Disponível em: https://tetu.com/2018/12/06/lemouvante-lettre-damour-dune-nonne-du-moyen-age-a-sa-bien-aimee/?utm_source=Direct

Tradução: Luiz Morando.

A correspondência amorosa rara entre dois soldados durante a guerra

Estas cartas acompanham a correspondência entre Gordon e Gilbert, dois soldados britânicos amantes durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto o Código Penal e a Corte marcial o proibiam.

Tudo se inicia com um curador curioso, Mark Hignett, responsável pelo museu de Oswestry, que teve o desejo de recolher material de arquivo dessa pequena cidade de arquitetura medieval ao lado do País de Gales. No eBay, o homem de 62 anos se depara com uma correspondência que cobre o período de 1939-1945, descoberta em uma casa em Brighton e vendida para um serviço especializado em correspondência militar. Mark Hignett compra primeiro três preciosas cartas, depois várias centenas, por um total de 1.000 £; estas falam da vida conjugal e evocam um futuro melhor sob o sol da Califórnia. O curador já imagina uma noiva escrevendo com tinta azul as centenas de cartas escritas sobre papel branco, às vezes com a logomarca “Grand Hotel Bristol”, e endereçadas a certo Gilbert Bradley. Mas, ao final das páginas, ele e sua equipe descobrem que o signatário é, na realidade, um homem: Gordon Bowsher.

“Essas cartas são extremamente raras porque são incriminadoras. Àquela época, homens homossexuais arriscavam-se a anos de prisão, e até mesmo a trabalhos forçados. E os soldados gays podiam até ser fuzilados”, analisa Mark Hignett, que elogia esse arquivo historicamente “inestimável”. Reconstituindo as peças desse quebra-cabeça epistolar, a equipe do museu de Oswestry retraçou o amor dos dois homens guardado secretamente sob a ameaça de sanções militares e da desaprovação social; a BBC reuniu essas informações.

Amor e projetos em meio a ofensivas

Gilbert Bradley e Gordon Bowsher estavam ambos engajados sob as bandeiras britânicas. O primeiro teria tentado escapar do uniforme simulando epilepsia, mas foi finalmente fixado em Oswestry para ser treinado como artilheiro antiaéreo. Gordon Bowsher, originário de uma família proprietária de uma companhia marítima e de plantação de chá, teria sido enviado como soldado de infantaria por todo o país.

Os dois homens teriam se conhecido no início do conflito mundial, em 1938, enquanto gozavam de férias em um barco no rio Devon e Gordon tinha um relacionamento com o sobrinho de Gilbert.

Em 24 de janeiro de 1939, uma vez declarada a guerra, Gordon escreve para Gilbert:

Meu querido,

Fico acordado a noite inteira para esperar o carteiro passar no início da manhã. E quando ele não traz nada de você, sou apenas um feixe de nervos…

Todo o meu amor para sempre,

G.

Um ano depois:

12 de fevereiro de 1940

Meu amado,

Não há nada que desejo mais na vida do que estar constantemente ao seu lado.

Já vejo, ou já imagino, como tua mãe e teu pai reagiriam… O resto do mundo não tem ideia sequer do que seja o nosso amor – eles não sabem o que é amor.

Em uma dessas cartas, Gordon exorta seu amante a destruir seus escritos com medo de que seu caso seja descoberto, mas a sequência da história prova que Gilbert não cumpriu esse pedido.

1° de fevereiro de 1941

Meu querido,

Por anos, tenho lutado com a ideia de que o amor possa durar toda uma vida… Quero mergulhar em teu espírito e ver aí o futuro. Imagine que a guerra acabou e que podemos viver juntos. (…)

Teu G.

“O mundo inteiro poderia ver o quanto nos amamos”

Revelando a vida cotidiana de um casal apaixonado, apesar da homofobia do Estado, essa correspondência abre uma parte inédita da história da homossexualidade antes de sua descriminalização (em 1967, na Inglaterra), afastada de escândalos e de processos que a abalam. Gilbert e Gordon atravessaram o conflito mundial e continuaram suas vidas: um na Inglaterra e o outro treinando cavalos na Califórnia; sua correspondência é interrompida no fim do conflito, em 1945. Lacunar, a correspondência não levanta, entretanto, o véu sobre a razão de sua ruptura…

Hoje exposta no museu da cidade de Oswestry, ao lado de um retrato de Gilbert encontrado em um envelope, a correspondência servirá como moldura para Mark Hignett redigir uma obra sobre a história dos dois homens, como o cumprimento de uma profecia enunciada 70 anos antes:

Não seria maravilhoso se todas as nossas cartas pudessem ser publicadas no futuro, em tempos mais esclarecidos? Então, o mundo inteiro poderia ver o quanto nos amamos.

Teu G.

Reportagem de Julie Baret publicada em 28 de fevereiro de 2017, na revista Têtu. Disponível em: https://tetu.com/2017/02/28/correspondance-amoureuse-rare-soldats-guerre/

Tradução: Luiz Morando.

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