Num mato com hienas

O choque de realidade que os primeiros dias de janeiro de 2019 produziram ficará na memória (pelo menos daqueles que gostam de preservar esse recurso e ainda não tenham sido tomados pelo Alzheimer)! Estamos testemunhando ações de desmonte de um Estado que caminhava para estabelecer um patamar mais humano de distribuição de renda, de equilíbrio de direitos sociais, civis (inclusive, religiosos), de atendimento a questões ligadas às populações com identidades vulneráveis.

Em menos de quatro dias, vamos acompanhando um rolo com(o)pressor de alterações nos marcos legais que dão estrutura aos órgãos governamentais, ao mesmo tempo em que ministros vomitam opiniões, impressões, desejos, pontos de vista, crenças que causam arrepios, sustos, taquicardia, secura na boca, olhos esbugalhados nos indivíduos de boa vontade.

“Marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “viés ideológico”, “direito de propriedade e da legítima defesa”, “inversão de valores”, “destruição de valores, tradições e da família”, “restabelecer padrões éticos e morais”, revisão de demarcação de terras indígenas, de assinaturas em acordos internacionais, de índice de ajuste de salário mínimo… Enfim, é uma vertiginosa onda de informações, decisões, medidas provisórias, projetos de lei que dá a impressão de fraqueza para reagir.

Por outro lado, o perfil ‘cidadão médio’ (@manotelli) do Twitter desenvolve um argumento razoável para tentar entender a estratégia desenvolvida pelo novo governo federal no campo político: seus integrantes usam cortinas de fumaça para esconder os movimentos que desejam. Ele dá como exemplo a fala demenciada de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, sobre as cores de roupas atribuídas a meninas e meninos ao mesmo tempo em que foram encerradas as fiscalizações e a ação do próprio Ministério do Trabalho. Ou seja, o olhar é desviado para algo que suscite uma polêmica batida (aos olhos do governo) e deixem passar despercebidas questões mais graves no calor do momento. Veja bem: não é o caso de desmerecer o conteúdo dos posicionamentos da circense ministra, mas de perceber que o momento em que suas falas são produzidas se prestam a funções que vão além da esfera de seu ministério.

‘Cidadão médio’ se refere ainda à lógica do caos programado, cuja criação é atribuída a Vladimir Putin: “várias coisas absurdas são propostas em diferentes esferas para fazer a oposição se bater”, enquanto o campo governamental vai tomando medidas conservadoras, retrógradas, que atendam a seus interesses e aos daqueles que o apoiam. A mesma lógica é utilizada por Donald Trump desde sua posse. E certamente não é cedo para dizer que o capitão brasileiro e seu entourage seguem a mesma dinâmica.

Naomi Klein, no vídeo “Como resistir à doutrina do choque de Donald Trump” (https://www.youtube.com/watch?v=9xp772YRENc – nov. 2016, sete minutos), dá mais detalhes sobre isso: após um episódio chocante, o governo explora a desorientação pública para implementar políticas radicais, pró-empresariado e conservadoras nos costumes. Nesse sentido, a crise recém-gerada no Brasil em meio às denúncias de corrupção no campo político, de desvio de dinheiro público, de processos contra políticos e empresários envolvidos naquelas denúncias, produziu um estado de espírito inconformado e aberto a abraçar salvadores da pátria que apontam o socialismo, o comunismo, a “ideologia de gênero”, entre outros, como ameaças catastróficas à nação. A ordem é dividir, ameaçar, semear o pânico moral.

No entanto, sempre é possível (e necessário) resistir a essas táticas. Por natureza, elas são executadas de maneira espetacular, com o objetivo de causar endosso imediato de apoiadores. Se observarmos bem, são medidas simultâneas em diversas áreas: agricultura, meio ambiente, saúde, educação, costumes, cidadania, direitos humanos. Mas as medidas econômicas são as que ficam por último, são aquelas encaminhadas no subterrâneo, são aquelas que vão sendo tateadas e formatadas aos poucos, e que serão formalmente apresentadas de um golpe, provavelmente com o retorno do exercício do Congresso.

A resistência é necessária, e acredito que por meio de três formas:

– pela pedagogia do cotidiano, que é a que exige mais paciência, pois é baseada na repetição – falou que rosa é para menina e azul é para menino, vamos informar que não é assim, que não existem cores predeterminadas para sexo e/ou gênero, que as construções culturais são frágeis e artificiais etc. Essa pedagogia é um exercício árduo e diário de educação, de esclarecimento, de convencimento. Bem lembrado, praticamos ela há pouco tempo, quando tentamos converter votos de eleitores do Coiso;

– pelo ludismo, que é o desmonte das informações retrógradas e conservadoras pelo humor, pela ironia, pelo escárnio, pelo deboche. Isso ajuda não apenas para desopilar o ambiente, mas também para fazer refletir, para reforçar a crítica. É certo que cada um daqueles recursos tem graus diferentes de exposição do outro ao riso (quando o próprio outro não o faz por conta própria, o que já facilita muito nosso trabalho) e de depreciação das ideias do outro. Mas são mecanismos inteligentes para reverter e surpreender o outro e seus seguidores, expondo suas fragilidades e seus pés de barro;

– pelo (re)organização de movimentos sociais, que é a mais demorada, a mais custosa (em todos os sentidos), a mais exigente de esforços e de negociação entre pares. Mas é pela (re)organização de movimentos sociais que teremos a sensação e o sentimento de unidade, de força conjunta, de ativismo (já explicitamente ameaçado pelo capitão), como também de condições para apresentar programas que restabeleçam pontos de justiça social, econômica e de gênero entre nós.

De certo modo, a impressão de estar num mato sem cachorro foi substituída pela de estar num mato com hienas: hienas hilariantes e carniceiras, como já vêm se demonstrando. As redes sociais favorecem muito aquelas três formas de resistência, mas não são o único meio para dar existência a elas. Já fomos envolvidos pela lógica do caos programado, que também leva muito em conta a ajuda das redes sociais. Agora é hora de reativarmos a mobilização física, presencial, contínua.

Em poucos dias de janeiro, algumas formas de compreender o que se passa e de construir resistências.

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