Na face do medo, Resista!

As coisas não andam bem do lado de cá da linha do Equador. Elegemos um capitão para governar o país, e, antes mesmo da posse, aos poucos, isso se revelou uma péssima escolha. Esse fato é apenas reflexo da atual conjuntura social que o país enfrenta: um momento em que os discursos conservadores voltaram a todo vapor, quando se chega a confundir o artigo quinto da Constituição Federal com falas de comunistas. A coisa anda tal que a futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, relata ter visto, aos 10 anos, Jesus na goiabeira.

Eu não sei como quem lê essas linhas retas por formatação do computador, mas tortas por seu conteúdo assombroso, vem lidando com as coisas desde o fatídico 28 de outubro.

Talvez você seja do clã dos que digitaram 17 e esteja feliz esperando que Jesus volte e salve o país (fazendo alusão ao Messias). Eu também quero que Jesus volte, mas se eu fosse ele não voltaria num país em que criam e cultivam a cultura do ódio em seu nome. Convido vocês a, por um instante, distanciar-se das falas com as quais você se cerca, olhar em volta das pessoas que você segue na política, analisar quem está por perto dessas pessoas e os interesses que essas pessoas defendem. Nesse movimento, você perceberá se os interesses são ou não os mesmos que os seus (e, a menos que você seja proprietário de uma indústria bélica, duvido que algo como desarmamento seja de seu real interesse).

Talvez você seja do clã dos que teclaram 17 meio ressabiado e hoje esteja arrependido. Então, peço que você faça o seguinte exercício: pegue um bloco de papel (ou o bloco de notas do celular) e anote tudo que está sentindo nesse momento, deixe bem claro o seu sentimento de arrependimento, de indignação. Quando a poeira abaixar, quando a ferida cicatrizar, e você por ventura for defender o capitão ou um dos seus, faça doses diárias de leitura para lembrar as violações que o seu voto sofreu.

Se você votou em branco, nulo ou não votou, creio que deve achar que a) está tudo bem, a culpa não é minha, eu não votei em ninguém; ou b) temos que sabotar esse sistema, o voto não pode ser obrigatório. Digo a vocês: quem se cala concorda com a maioria. Ponto. Sem mais.

Se você esteve um pouco mais atento e, mesmo sem ter lido Como as democracias morrem, prestou atenção ao risco político e social que ameaçava o nosso país (hoje o risco se instalou), porque provas documentais (livros, documentários, filmes, gravações, inquéritos brasileiros e internacionais) mostram que as coisas estão literalmente se repetindo, ou porque você é sensato mesmo e entende que entre os anos 2002 e 2014 vivenciamos os melhores momentos da economia em nosso país (e desde então somos atordoados por pessoas levianas que querem causar um verdadeiro desmonte do bem-estar social que vigorou por tão pouco tempo), venho falar com você.

2019 é sim um ano para ser temido. Ações como o Casamentaço, que ocorreu em muitos locais do país em dezembro passado, revelam o temor das pessoas diante de tanto retrocesso escancarado. Entretanto, mais do que temer, o verbo que merece destaque em nossa vida é resistir. Resistência de todas as naturezas: resistir enquanto trabalhador, buscando compreender as nuances das modificações de leis trabalhistas, sobretudo, investigar o verdadeiro desmonte dos sindicatos; resistir enquanto cidadão, fazendo valer o seu direito, estando ao lado de outras pessoas em luta por uma sociedade menos injusta (ainda que naquele momento a luta não seja essencialmente sua), percebendo que toda a luta é uma luta de todos nós; resistir enquanto sujeito crítico, buscando minimizar o efeito de ações mal-intencionadas como fake news e vídeos que são virais por seu conteúdo de ódio e desinformação; resistir enquanto sujeito humano, estando atento se alguém próximo a você está enfrentando risco social de qualquer natureza (econômico, moral), sobretudo violência doméstica (para mulheres), LGBTfobia e a mais maldita de todas as mazelas, a fome (com tanto retrocesso, não é pouco o número de pessoas que estão desempregadas ou trabalhando em condições sub-humanas e a resistência precisa alcançar o cuidado essencial com o outro). Sobretudo, é preciso resistir em espírito: agora que o ódio assumiu um papel central em nosso meio, temos de encará-lo de frente e não permitir que ele faça morada em nós – é preciso descansar bem o corpo, manter-se hidratado, ler (ouvir, ver, visitar) mais, consolidar relações, estar próximos de pessoas que tenham lutas próximas às suas para que vocês dividam o fardo dos dias. É preciso estar consciente de que por mais difícil que sejam os dias, antes de ir pra batalha, precisamos estar aptos a ir para a batalha e a resistência é a forma de estarmos prontos para quando o dever nos chamar.

Herbert Daniel, ex-guerrilheiro e defensor de causas sociais, como a liberdade sexual e o meio ambiente, ao descobrir ser soropositivo no final da década de 1980, mostrou-se vivido quanto àquilo que ainda podia fazer em vida: ele se revelou, no texto “Antes, a vida”, extremamente animado quanto ao rumo que daria aos seus dias. Podemos tomar isso como a nossa resistência: a saúde social não está boa; entretanto, a nossa vida não precisa ser um retrato puro e fiel disso.

“Tenho falado em vida, sem parar. Com um infundado otimismo. Afinal, diz meu bem fundado pessimismo, a vida não presta, não tem prestado. É difícil imaginar que valha a pena um dia sem terror atômico, sem exploração de classe, sem assassinato de florestas, rios e homens, sem medo, sem culpa, sem vergonha, sem vergonhamente apenas vida. Mas não há outra maneira de gozar; então, é preciso não apenas suportar, é preciso sustentar a vida. E fazer dela um hino, um tino, um sino de chamada.” (Herbert Daniel em ‘Antes, a vida’)

Daniel Lucas é graduado em Matemática.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s