Reivindicar a transição de gênero como um trabalho: esse corpo que não é o meu?

Pesquisadora independente em estudos trans e queer, militante queer marxista, neste artigo Lou Hanna tenta estabelecer uma ligação entre a transição de gênero e o trabalho. Partindo de uma análise marxista da expropriação de nossos corpos e de nossas vidas pelo capitalismo neoliberal, trata-se de traçar uma continuidade entre a performance de gênero e o trabalho do gênero. Este artigo propõe assim uma concepção das transidentidades em ruptura com um discurso hegemônico liberal que tende a despolitizar as conquistas das lutas decorrentes do ativismo trans, cada vez mais voltado para uma política dos direitos em detrimento de uma real política revolucionária.

Em nossa reflexão, estamos falando de transição de gênero e de trabalho, de dissecar o que implica a transição de gênero no modelo econômico neoliberal francês e de propor modos de saída. É na continuidade das obras do feminismo italiano dos anos 1970 que eu me situo, a fim de visibilizar o que é constantemente dissimulado: nossa parcela de trabalho não reconhecida, mas bem real, e, portanto, expropriada enquanto pessoas trans.

Mas enquanto militante trans e queer, trata-se também de colocar a questão trans* no interior de um postulado revolucionário e de marcar uma nítida oposição ao que o ativista trans Nat Raha chama “o transliberalismo”, quer dizer, o fato de acreditar que os direitos trans são A solução para os problemas que as pessoas trans* enfrentam: “essa forma de política trans que podemos descrever como transliberal tem como postulado central que os direitos das pessoas trans* são a solução para os problemas que as pessoas trans* enfrentam”.[i]

A transição de gênero como trabalho biológico

A transição de gênero é um trabalho biológico no sentido forte do termo, quer dizer, implica diretamente o próprio corpo do sujeito trans. O percurso “oficial” de transição implica a hormonoterapia, seja para as pessoas transfemininas através do uso de estrogênio e de antiandrógenos para bloquear a produção de testosterona ou as pessoas transmasculinas através da aplicação de testosteronas. O uso de hormônios modifica nosso corpo, como também nossa relação com o espaço e o mundo público exterior.

Não se trata de essencializar os hormônios, mas a ingestão de hormônios também perturba nosso cotidiano. Podemos ficar tomadxs pelo cansaço, pela incapacidade de nos mover. Para as mulheres trans que tomam Androcur, por exemplo, um antiandrógeno potente, os efeitos secundários podem nos colocar em estados depressivos (e na maior parte do tempo tomamos antidepressivos como complemento). Essa situação nos leva a fazer um trabalho emocional por nós mesmos e/ou entre nós, quer dizer, no seio de nossa comunidade.

Por que não reivindicar uma compensação, em vez de acabar cuidando uns/umas dos outrxs em um contexto em que vivemos na maior parte das situações em grande precariedade, em que a carga de trabalho emocional é desproporcional e em que nos tornamos enfermeirxs do “meio”? Por que não reivindicar uma compensação a fim de poder ajudar as pessoas trans que não têm o privilégio de poder sair do armário por razões de classe e de raça? Essa impotência gerada por medicamentos que são necessários para alguns/algumas, juntamente com a carga de trabalho emocional, é um dos fatores que nos impedem de nos organizar.

No início, transicionar é “performar” o gênero ao qual desejamos corresponder. O vestuário, como o exprime Sam Bourcier em sua crítica endereçada a Butler em Queer zone 3, não está separado do corpo[ii]. O vestuário co-age com o corpo e, dependendo do que usamos, nossas posturas serão mais identificadas como “masculinas” ou “femininas”. O vestuário é uma extensão de si mesmo que influencia nossos movimentos, nossos passos, a maneira como “produzimos” nosso gênero. O vestuário nos serve também para “passar” como mulher ou como homem. O vestuário é uma ferramenta de produção do gênero: vestidos para mulheres trans, meia-calças para esconder os pelos, calcinhas apertadas para esconder a mala[iii], calças, shorts para homens trans, camisas, boné, binder, que serve para achatar os seios e dar a impressão de um torso.

O vestuário e os hormônios são ao mesmo tempo ferramentas e extensões do corpo, eles participam de uma tecnologia do gênero. Se somos produtoras e produtores, também produzimos valor. Ao modo de Teresa De Lauretis, trata-se de “pensar o gênero como o produto e o processo de certo número de tecnologias sociais ou dispositivos biomédicos”[iv].

Pensar o gênero como produção é pensá-lo como valor

Pensando no produto e no processo, questionamos o valor de produção. Esse valor, através da transição de gênero, circula em uma rede de fluxos de troca de bens que passa diretamente por nosso corpo.

É o que Paul Preciado escreve em Testo Junky: quando você toma hormônios, não toma apenas hormônios, não administra apenas hormônios, mas o conceito de hormônios, quer dizer, simultaneamente, os signos, os textos, os símbolos que giram em torno dos hormônios, como também todo o processo de produção dos hormônios; você se administra uma ideologia, incorpora uma relação com o poder[v]. Quando se sabe que a testosterona injetável Androthardyl provém do laboratório Bayer ou que uma das marcas de estradiol sob a forma de gel, Estreva, é fabricada pelo laboratório Teva, situado nos territórios ocupados/colonizados da Palestina, não podemos negar a implicação de nosso corpo com as relações de poder biogeopolítico no seio da economia neoliberal. Nossa experiência direta com hormônios torna possível visualizar aquilo que a empresa farmacêutica faz trabalhar nos corpos.

A transição de gênero é um trabalho enquanto produtora de valor cultural. Tudo o que precisamos fazer é ver o interesse que nesse momento as produções culturais tradicionais têm sobre as pessoas trans*, começando pela França com a droga do filme Si j’étais un homme, de Audrey Dana, de 2017, no qual uma mulher heterossexual acorda com um pênis, filme “cômico” que se presta novamente a rir da temática “mulher com pênis”, ou a série televisiva do canal TF1 Louise, interpretada por Claire Nebout, uma mulher cisgênera, que nos diz em uma entrevista do canal Télé Z (temos o jornal que merecemos) que ela conhece bem os transexuais* porque ela frequentemente vai a Pigalle[vi].

Ainda pensamos no atual Lola Pater, de Nadir Moknèche, no qual Fanny Ardant (também uma mulher cisgênera) interpreta Lola, uma mulher trans que encontra seu filho, Zino, que vivia na Argélia e é confrontado com essa “novidade” do tipo “choque de civilizações” – como se não existissem mulheres trans na Argélia! Ainda nesse momento, podemos ver, nas plataformas do metrô, cartazes da nova comédia L’un dans l’autre, de Bruno Chiche, cuja história gira aparentemente em torno de uma inversão de gênero em um casal heterossexual – o pesadelo!

Internacionalmente, as produções americanas atuais não são isentas de interesse sobre o corpo trans* com a conhecida Sense8, série televisiva cuja protagonista é uma mulher trans branca de classe média, ou ainda Transparent, que coloca em cena uma mulher trans mais velha, de classe média, e seu relacionamento com a família e amigos, cuja segunda temporada se desenrola em Israel. A personagem Sophia Burset na série Orange is the new black, interpretada por Laverne Cox, também não é o que há de mais “poderoso”: ela se encontra durante uma temporada inteira no isolamento e, na 5ª temporada, assume o papel de enfermeira enquanto as outras prisioneiras administram a rebelião na prisão.

Quando há representação de pessoas trans na grande mídia, é apenas para impor certo modelo de pessoas trans*, a saber: branca, classe média, cuja trajetória permanece “clássica” e corresponde às normas de feminilidade e de masculinidade hegemônicas.

Bem entendido, não falo aqui em valor como valor positivo, mas valor expropriado, que se apropria de nossos corpos, ou como escreveu Sam Bourcier em seu último livro, trata-se da “extração da mais-valia do capital sobre nossos corpos”[vii]. Está claro que todas essas criações culturais não são feitas para nós, mas para um horizonte de expectativa de um público cis hetero e, a partir de nosso postulado revolucionário que trazemos desde o começo, é uma questão de dizer que não queremos esse valor. Não queremos esse valor e ainda assim participamos dele, ao menos nossa transição de gênero participa em certo sentido dessa expropriação, pois, enquanto pessoas trans*, em pleno capitalismo patriarcal, estamos sujeitxs a uma ideologia binária na qual se trata de ser um homem ou uma mulher.

Em outras palavras, produzimos valor como um valor de gênero e esse valor é uma grande ajuda para a manutenção de certa forma de opressão de mulheres ou pessoas que não estão alinhadas* às expectativas das feminilidades e masculinidades hegemônicas.

O retorno do essencialismo nos discursos trans

Há algo de podre no atual ativismo trans. Continuamos vendo vídeos no YouTube de pessoas trans* sobre o fato de sempre ter sido uma mulher ou de ter sempre sido um homem. Essas observações são, na minha opinião, contrarrevolucionárias porque re-essencializam o gênero. É claro que podemos e somos obrigadxs a imitar essa postura para alcançar a mudança de registro civil diante do corpo psicológico: “sempre fui uma mulher, sempre quis não ter pênis” ou diante do corpo jurídico face ao qual devemos provar que fazemos parte do grupo masculino ou feminino.

Tudo isso, no entanto, não isenta em nada que tenhamos expectativas essencializadoras. Minha hipótese é que participamos dessas expectativas essencializadoras porque não há muitos discursos trans, pelo menos na França, para reivindicar que a transição de gênero é um trabalho que participa de uma economia de produção do capitalismo patriarcal. Certamente, a contribuição que diremos “positiva” da economia neoliberal é que podemos formar identidades, outras subjetividades, mas não devemos esquecer que essas subjetividades são válidas e toleradas apenas se não ultrapassam a linha de demarcação operada pelo capitalismo patriarcal: um homem deve ser um homem e uma mulher deve ser uma mulher – o neoliberalismo restringe a produção de subjetividades e dá a ilusão de sua necessidade de “liberdade de si”.

Essa essencialização das relações de gênero é também inscrita em um novo discurso sobre as pessoas trans* feito por pessoas interessadas*. Quando Julia Serano publica Whipping girl em 2007, ela fala de uma “inclinação subconsciente”[viii] dos gêneros para as crianças, ou seja, diz que as pessoas trans* já eram meninos ou meninas trans* antes de se conscientizar disso. Ela inscreve as identidades trans em uma ideologia essencializante e finalmente nos diz que o gênero masculino e o gênero feminino pré-existem no subconsciente da criança. Ela nega o caráter construído da identidade de gênero e não é coincidência que no mesmo livro (traduzido parcialmente na França com o título “Manifeste d’une femme trans”[ix]) ela refute o gênero como performance ao modo de Butler em Problemas de gênero para desvalorizar, em seguida, a experiência de pessoas que se travestem em relação à experiência de mulheres trans – como se estar em práticas transgêneras (termo que tomo emprestado de Sam Bourcier em Queer Zone 1[x]) fosse menos importante que ser uma ‘verdadeira’ pessoa trans.

Qual perspectiva para nossas lutas, para uma convergência queer? Quais perspectivas para as pessoas trans* no armário que performam o gênero a custo e se veem rejeitadas nos espaços trans* porque não têm passabilidade? Claro, esse discurso não vem do nada e a finalidade não é dizer que Julia Serano é a causa de todos os nossos males atuais. Nesse contexto, o fato de julgar quem é uma verdadeira pessoa trans*, quem sofre de um “transexualismo primário”, se nossa categorização é válida cabe ao corpo jurídico, médico/endócrino e psiquiátrico (Quem merece o falo do pai Lacan entre os transmasculinos*? Quem merece a castração entre os transfemininos*?), mas penso que é importante também ampliar a conscientização tanto dessa relação psi, que integramos por força de inação política, quanto por nossa responsabilidade nesse processo.

Somos corpos expropriados, mas também corpos observados: através do que veiculamos, as estatísticas são estabelecidas e nos encontramos finalmente em uma situação em que nosso ativismo pode se juntar ao corpo psiquiátrico e servir para manter a ideologia do capitalismo patriarcal. Em outras palavras: adotar e afirmar um gênero por essência é estabelecer o poder que a economia neoliberal se arroga sobre todos os corpos. Devemos questionar todos os benefícios que o nosso trabalho gera. Chego, assim, ao meu próximo ponto, que vai tratar da mais-valia que a economia liberal gera sobre nosso corpo.

Qual o benefício sobre nossos corpos?

Para as pessoas trans* que seguem um percurso oficial com terapia hormonal, seria interessante tomar nota dos dados gerados pelas análises endócrinas. Se nossos corpos produzem saber científico tomando hormônios, por que não somos remuneradxs com os resultados obtidos? Não podemos dizer que a endocrinologia seja uma ciência exata na medida em que os efeitos dos hormônios diferem de acordo com as pessoas: para que serve então esse acompanhamento infantilizador dos endocrinologistas sobre nossas taxas hormonais senão para implementar um dispositivo de controle e de saber sobre o efeito dos hormônios? A única compensação para esse trabalho gratuito que podemos ter na França é ter acesso à ALD (condição de longo prazo, em tradução livre[xi]), indenizando-nos em 100% sobre todos os tratamentos ligados à transição de gênero; caso contrário, nós pagamos.

Aliás, deve ser questionado também qual tratamento ou operação é considerado relacionado a uma transição de gênero e, portanto, pode ser acessado pela ALD, ou como tendo um objetivo estético, como nos diz claramente a SOFECT (Sociedade Francesa para Estudo e Gestão do Transexualismo, em tradução livre) e, portanto, não pode se beneficiar do tratamento. Uma operação facial é estética, mas uma vaginoplastia, um aumento da mama, uma faloplastia, uma mastectomia são operações ligadas à transição de gênero, ou seja, segundo a SOFECT, um menino é um pênis e um torso sem peito; uma menina são seios e uma vagina[xii].

Apesar da indenização de 100% de cobertura da ALD, não é preciso ser adivinhx para dizer que a empresa farmacêutica gera muito lucro pela produção de hormônios e que isso não compensa em nada a carga de trabalho emocional devida à nossa transição, nem as consequências da transfobia cotidiana sobre nossa saúde mental. Deveria ser o mínimo que os hormônios fossem gratuitos! Mas considerando que não há a possibilidade, para o momento, de estabelecer uma “verdade” dos hormônios (felizmente!), testamos também medicamentos gratuitamente e é aí que uma questão para a qual não tenho resposta surge: quais benefícios a empresa farmacêutica gera sobre os resultados da análise de nossa ingestão de hormônios? Quais saberes elas obtêm?

Para além disso, trata-se ainda de criticar e questionar essa dependência do corpo médico e psiquiátrico, pois para se beneficiar da ALD, devemos ser reconhecidxs como doentes, sofrendo de um transexualismo primário (eu me beneficio pessoalmente da ALD), mas também de questionar: quem pode se beneficiar disso? Se você é uma pessoa trans idosa e/ou portadora de HIV e/ou racializada, seu acesso à ALD será muito mais difícil e o fato de ser reconhecida como uma pessoa trans* será, em qualquer caso, mais complicado. No final, o que acontece aqui é que a definição de nossa identidade repousa sobre uma patologização extrema que dissimula, através de uma fraude essencializante, a parte de trabalho invisível que geramos enquanto sujeitos precários.

É necessário nos darmos conta da humilhação que sofremos para poder passar e entrar nas pequenas caixas do corpo psiquiátrico (que parece ser contra as identidades e as categorias, mas que não hesita em criar categorias para fazer frutificar seu capital sobre o corpo dos psiquiatrizadxs em geral).

Estratégias e perspectivas: o rendimento garantido para recusar o trabalho

Quais são então as perspectivas? Se nos ativermos apenas a essas conclusões, temos a impressão de falta de margem de manobra. Entretanto, reivindicar a transição de gênero como um trabalho, mesmo que apenas para as nossas comunidades, é também revirar um regime de vulnerabilidade e de dependência de força revolucionária potencial, pois o trabalho implica as relações de força, uma organização, uma comunização de saberes e experiências, uma agência.

Trata-se, então, de reivindicar uma autonomia em nosso trabalho, de reivindicar a necessidade política de não mais depender do corpo psiquiátrico, médico, judiciário. Consequentemente, como escreve muito bem Sam Bourcier em Homo Inc.Orporated, essa reivindicação deveria ser o ponto de partida para “recusar o trabalho e neutralizar as divisões inerentes à organização capitalista do trabalho”[xiii]; fazer a greve do gênero e experimentar uma outra relação com o gênero enquanto construção e, a longo prazo, mirar seu desaparecimento.

Temos o direito de nos questionarmos sobre a validade de um discurso hegemônico da abolição do gênero quando se toma como base a binaridade de gênero segundo a qual existem mulheres cisgêneras oprimidas pelo patriarcado e, consequentemente, as pessoas transfemininas, tendo sido homens, não podem ser mulheres, não podem entrar no banheiro feminino (cf. o discurso de Megan Murphy, “L’identité de genre invisibilise le patriarcat”, de 10 de maio de 2017, contra o projeto de lei C16, a legislação sobre identidade de gênero no Canadá traduzido no site da OLF[xiv]) e, para justificar essa exclusão, re-essencializa-se as mulheres.

Trata-se, então, de reivindicar uma não-binaridade de gênero enquanto crítica do gênero como essência, multiplicar as identidades de gênero enquanto construções para colocar em crise o capitalismo patriarcal e recusar toda assimilação, utilização possível de nossas identidades, estar em uma perspectiva verdadeiramente queer incluindo todxs as pessoas marginalizadxs e não basear nossa reivindicação no fato de transicionar como uma verdadeira mulher ou um verdadeiro homem e que não devemos ser enganados com essa história de direitos, pois esses direitos podem ser violados, revisados a qualquer momento, evidenciados pela supressão pelo Conselho Constitucional da pena obrigatória de inelegibilidade aplicável a certos crimes de imprensa, tais como aqueles sujeitos à discriminação ou crimes cometidos com base na orientação sexual em 8 de setembro de 2017.

Esses direitos não farão a transfobia desaparecer. Trata-se de estar em uma perspectiva queer e revolucionária e abandonar qualquer discurso do direito assimilacionista. Mesmo que ter documentos, ter acesso à ALD, sejam também estratégias face a um modo de sobrevivência ao qual estamos ligadxs, não devemos esquecer que essa questão de direito a documentos, por exemplo, também atua como operador de divisão entre aquelxs que podem acessar esses direitos (uma maioria de pessoas trans brancas) e xs outrxs, a saber: as pessoas trans não brancas mas também xs sem documentos* – a mudança de registro civil e de nome deveria estar acessível a todxs, sem distinção de raça, classe ou nacionalidade!

Reivindicar a transição de gênero como um trabalho também faz parte do debate em torno da questão da renda garantida, colocando esta como uma perspectiva estratégica de possíveis NÓS e outras perspectivas psiquiatrizadEs. Se você é trans* e tem 2000 euros, por exemplo – sonhemos um pouco! –, sem precisar trabalhar e ter tempo para pensar, construir um discurso, beijar, brincar, empenhar-se, se descobrir, viajar etc., você será sempre esse sujeito sofredor, patologizado, vulnerável como sempre é reconhecido? Essa questão merece ser colocada e pode ter um interesse estratégico global de colocar em crise divisões geradas pelo capitalismo patriarcal.

Reivindicamos, portanto, nossa parte da renda do trabalho em nossas transições, gender hackfuckons, não vamos nos contentar com migalhas de piedade e de escuta dos psiquiatras, vamos pedir contas, não esperemos que a agenda neoliberal se amolde às nossas reivindicações! Vamos inventar, vamos produzir fora das expectativas do mercado, vamos quebrar os psi, romper as injunções para a autogestão de nossos corpos, quebrar as masculinidades e as feminilidades hegemônicas, romper com a binaridade de gênero!

Artigo de Lou Hanna publicado em 27 de novembro de 2017, em Contretemps – Revue de Critique Communiste. Disponível em: <https://www.contretemps.eu/revendiquer-la-transition-de-genre/&gt;.

Tradução: Luiz Morando.


[i] Cf. <https://www.versobooks.com/blogs/2245-the-limits-of-trans-liberalism-by-nat-raha&gt;.

[ii] BOURCIER, Sam. Queer Zone 3: identités, cultures et politiques. Paris: Éditions Amsterdam, 2011. p. 234.

[iii] Esconder a mala é uma prática corrente empregada pelas drag queens mas também por certas mulheres trans* para dissimular, esconder seu pênis, colocando-o no canal inguinal para dar a ilusão de não ter um pênis.

[iv] DE LAURETIS, Teresa. Technologies of Gender. Indiana University Press, 1987. p. 3.

[v] PRECIADO, Paul. Texto Junkie. Paris: Éditions J’ai lu, 2014. p. 129.

[vi] Cf. http://www.telez.fr/2017/03/06/itw-claire-nebout-pour-louise-nicole/

[vii] BOURCIER, Sam. Homo Inc.Orporated: le triangle et la licorne qui pète. Paris: Cambourakis, 2017. p. 177.

[viii] Inspiro-me no ótimo artigo de Jules Joann Gleeson, “Transition and abolition, notes on marxism and trans politics”, e em sua análise do discurso de Julia Serano: https://www.viewpointmag.com/2017/07/19/transition-and-abolition-notes-on-marxism-and-trans-politics/

[ix] SERRANO, Julia. Manifeste d’une femme trans et autres textes. Lyon: Éditions Tahin party, 2014.

[x] BOURCIER, Sam. Queer zones 1. Paris: Balland, 2001.

[xi] N.T.: A sigla ALD se refere a um dispositivo criado pelas autoridades de saúde francesa para o gerenciamento de doenças que exigem tratamento prolongado e dispendioso. É uma espécie de seguro social que torna possível o direito à exoneração do copagamento. Quando há uma isenção, o Seguro-saúde paga 100% dos custos com o tratamento.

[xii] http://www.sofect.fr/informations/aspects-chirurgicaux.html

[xiii] BOURCIER, Sam. Homo Inc.Orporate: le triangle et la licorne qui pète. Paris: Kambourakis, 2017. p. 122.

[xiv] https://feministoclic.olf.site/lidentite-de-genre-invisibilise-patriarcat-meghan-murphy/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s