O diálogo em tempos de Voldemort

Outro dia, na borracharia do meu pai, um moço (branco, de classe média e defensor da família tradicional brasileira) defendia o inominável entoando a seguinte pérola: “Eu não sei se ele será bom ou não presidente, mas só de acabar com essa coisa de não poder zoar preto. Se você chama um viado de ‘viado’ é um mi-mi-mi, processo, calúnia.”

Calma, leitor, respire!

Como defensor das liberdades coletivas e individuais, eu deveria ter me oposto à sua fala, usado fatos presentes em diferentes níveis da discussão acerca da tolerância, pluralidade de ideias, o direito ao respeito, o dever de respeitar. Poderia ter feito um textão verbal, um lacre. Mas respirei e segui. Nada mais.

Sempre que alguém argumenta algo a favor da não pluralidade de ideias, eu faço todo um movimento mental em busca de argumentos para manter minha sanidade mental e não entrar em um embate direto (talvez, algumas ‘provocações’ à la Abujamra). Entretanto, agora que todos nós nos descobrimos sujeitos pensantes, que têm noção da realidade (ainda que distorcida), pessoas capazes de intervir criticamente em qualquer assunto (inclusive os que desconhecemos), venho pensando sobre o papel do uso do diálogo como meio de sensibilizar o outro quanto a lutas que ele desconhece. Afinal, a fala desregrada de limites de alguns gera consequências às quais todos nós estamos à mercê.

Desconheço a origem do fenômeno que permite às pessoas defenderem seus preconceitos sob o rótulo de opiniões e acredito que isso seja uma resposta a críticas sobre intolerância e discriminação. O problema é que essa postura inviabiliza a possibilidade de conversa, discussão sadia, a oposição, porque mais do que nunca é fácil agir como crianças de sete anos no Ensino Fundamental: se você é confrontado por qualquer coisa que seja, e não tem uma resposta à altura, basta tapar o ouvido e gritar orgulhosamente: “Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe!”. E a raiva tem sido (mais vezes do que o ‘habitual’) traduzida em violência de diversas naturezas – inclusive física (culminando em óbitos).

Recordando uma aula de História no Ensino Fundamental, lembro-me de uma frase atribuída a Voltaire que o autor do livro didático destacou no box lateral: “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Mas, e quando essa fala insinua querer corromper o meu direito à fala? E nem só fala, pois muitas vezes o que se corrompe é o direito à integridade, à existência.

Eu deveria ter feito uma intervenção com aquele homem, afinal, no ápice dos seus privilégios de existência, afirmados e reafirmados pela sua condição social, sexo e cor de pele, ele desconhece a luta dos demais. Entretanto, como a gente conversa com quem acha demais termos direito à fala? Como a gente explica algo que demanda mais de três orações para ser dito a alguém que quer apenas ter o poder de menosprezar outras pessoas sem ser penalizado por isso?

Meu silêncio, assim como o silêncio que tomou conta de muita gente próxima a mim desde a eleição, é o silêncio oriundo da descrença, é o silêncio oriundo do ‘não adianta mais’. Tem hora que só parece não valer a pena.

Eu gostaria que os efeitos dos dizeres de Martin Luther King Jr. na ilustre frase “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons” tivesse um efeito positivo, mas a atemporalidade dessa afirmação vem me fazendo acreditar que já é a 25ª hora e os coelhos brancos estão todos mortos.

Daniel Lucas é professor de Matemática em escola pública, pós-graduando em Educação Inclusiva e colaborador do Resista!

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