Transidentidade: a coragem de se expor

Elxs se chamam Swan, Chris, Joana ou Jenni. Elxs são de origens, cantões e idades diferentes, mas todxs vivem essa particularidade de ter nascido em um sexo que não é aquele ao qual se sentem pertencer. Com coragem, emoção e franqueza, elxs testemunham a situação de pessoas transgêneras na Suíça.

“Eu me sinto como um adolescente em relação a homens com a minha idade.”

Swan, 25 anos, comerciário, Genebra

Quando você começou a sentir que era um rapaz nascido no corpo de uma garota?

Por volta de 20 anos. Antes, eu não tinha nenhuma ideia do que era a transidentidade, ainda que sempre me sentisse diferente. Durante minha adolescência, naveguei um pouco entre feminino e masculino. Dos 13 aos 20 anos, passei no meio homossexual como lésbica. Depois, fui morar em Berlim e aproveitei para explorar um pouco mais minha personalidade. Descobri que meus seios me incomodavam verdadeiramente; comecei a usar binder, a procurar outro nome. Depois, um dia, me deparei com uma página na internet que falava de transidentidade. As coisas fizeram sentido imediatamente.

Como você viveu o fato de não ter nascido no corpo certo?

De fato, não sofri muito por isso. Ou melhor, sofria de alguma coisa sem saber o que era.

Quais foram as consequências de sua disforia de gênero em sua vida?

A instabilidade. Antes de minha transição, não terminei nenhuma formação. Vivia um eterno questionamento. Minha transição, decidida em 2014, chegou como uma fruta madura. Comecei a alterar meus documentos em janeiro e, em julho, tinha meu primeiro encontro com um psi. O processo estava lançado!

Como você sabe que foi a decisão certa?

Eu discuto mais com os outros. Sou menos retraído, mais próximo das pessoas. Antes, falava pouco, me contentava em observar. Sinto-me muito melhor socialmente, e os outros me falam que percebem isso.

Sua transição terminou?

Ela nunca terminará. Considero-me um pouco como um adolescente, fora de sintonia com homens da minha idade. Fisicamente, sou menor, tenho menos pelos. Essa diferença ainda me causa complexos. Estou no meio da mudança de registro civil e meu empregador não sabe disso. Ele nunca me pediu identidade, e eu já tinha mudado o nome quando ele me contratou. Até aqui, vai tudo bem, mas trabalho há pouco tempo para esse empregador e não sei o que fazer a seguir. Mas digo a mim mesmo que isso não lhe diz respeito.

O que você diria para as pessoas que têm medo de pessoas transgêneras?

O medo é irracional. As pessoas com quem cruzo na rua, que não sabem de mim, não fazem a diferença, a prova de que isso não muda nada.

“Às vezes, pensava em acabar com a minha vida.”

Jenni, 50 anos, videomaker independente, Genebra

Quando você começou a sentir que era uma menina nascida no corpo de um menino?

Tive uma revelação aos 6 anos quando vi garotas na televisão: eu não era uma menina, mas me sentia como elas. Compreendi naquele momento que alguma coisa estava errada. Atravessei os anos seguintes em um estado de estupor e tristeza.

Como você se sentiu por não ter nascido no corpo certo?

Sinceramente, não sofri por isso, mas ficava, sobretudo, embaraçada com minha diferença, tentando o máximo possível me encaixar no molde. Secretamente, eu me vestia como menina, o que me incomodava muito. Na escola, fui muito assediada pelos meus colegas, que me achavam efeminada.

Quais foram as consequências de sua disforia de gênero em sua vida?

É difícil responder. Em um nível social e profissional, obtive tudo o que podia sonhar, mas falhei enquanto homem no plano emocional, simplesmente porque não me sinto como homem. O ideal, obviamente, teria sido nascer em um corpo de menina.

Como você soube que era a hora certa para fazer sua transição?

Não escolhemos o momento. Por muito tempo, não consegui explicar o que havia de errado comigo. Sentia-me atraído por mulheres enquanto me sentia mulher, isso não fazia sentido! Eu me via como alguém bizarro, até mesmo pervertido, às vezes pensava em acabar com minha vida. Precisei de muito tempo para compreender que eu era mulher e lésbica. No último verão, passei uma semana vestida como mulher, uma experiência maravilhosa. Comecei minha transição no início desse ano.

O que faz você dizer que foi a decisão certa?

A impressão de ter encontrado a mim mesma, enfim, de ter deixado minha alma se exprimir. É uma sensação estranha também, porque durante todos esses anos fiquei literalmente aterrorizada com a ideia de mostrar quem eu era. Eu antecipava a rejeição. Mas foi o contrário que aconteceu: minhas relações com as pessoas são melhores, sou melhor aceita. Francamente, eu não esperava isso, eu acreditava ser uma pessoa horrível e nojenta.

O que você diria para as pessoas que têm medo de pessoas transgêneras?

Apenas que sou um ser humano, a pessoa que desejo ser, assim como eles são. Não podemos detestar alguém por isso. Sou simpática, não faço nada de mal. Não paquero na rua, não me visto de maneira provocante ou ridícula. Enfim, tenho esperança!

“Desde pequeno, eu sabia que não era uma menina.”

Chris, 24 anos, enfermeiro, Valais

Quando você começou a sentir que era um menino nascido no corpo de uma menina?

Desde sempre. Quando comecei a falar, disse a meus pais que não era uma menina. Imediatamente, eles me encaminharam a um psiquiatra infantil, que confirmou que eu tinha um comportamento de menino e que isso não era trivial. Ele aconselhou meus pais a mudar meu nome, mas eles se recusaram porque pensavam que isso seria passageiro.

Como você fez para viver em um corpo errado?

Rapidamente, afirmei minhas escolhas, anunciando, desde a escola infantil, que mais tarde eu seria um menino. Com 4 ou 5 anos, eu dizia a todo mundo que me faria operar para ter um piupiu. Minha mãe tentou me fazer usar vestidos, mas logo fui capaz de me vestir e pentear como um menino. Na escola primária, foi mais complicado. No futebol, era rejeitado pelos meninos com o pretexto de que eu era menina, e as meninas achavam que eu me parecia com um garoto. Felizmente, tive grandes amizades no ciclo de orientação que me ajudaram a superar a fase difícil da puberdade. Eu teria amado fazer uma redução mamária porque meu peito me incomodava, mas o ginecologista se recusou. Meus pais rejeitaram igualmente qualquer tratamento hormonal enquanto eu fosse menor.

Quando você decidiu fazer sua transição?

Após minha maioridade. Eu já havia consultado um psiquiatra antes, isso facilitou o procedimento.

Quais foram as consequências de sua disforia de gênero em sua vida?

Ela nunca mascarou minha personalidade. Aliás, não me considero uma pessoa trans, na medida em que nunca tive dúvida sobre minha identidade de gênero. Ao contrário, ela me fez sofrer muito em minha vida sentimental. Na escola primária, a menina que eu amava me rejeitou dizendo que ela não era lésbica. As meninas que me interessavam não viam em mim o “bom colega”. Hoje, felizmente, tudo mudou: vou me casar com minha companheira após oito anos de vida conjunta.

Sua transição está terminada?

Sim, pareço-me um homem e sou reconhecido e aceito como tal pela sociedade. Agora, para sê-lo completamente, eu deveria fazer uma faloplastia (construção do pênis), mas, como sou hemofílico, o cirurgião não pode me garantir que a operação seja sem risco para minha vida. Isso está em stand-by.

O que você diria para as pessoas que têm medo de pessoas transgêneras?

É estúpido: nós as tocamos cotidianamente sem que elas saibam.

“Comecei minha transição depois da morte de minha mãe.”

Joana, 49 anos, cuidadora de pessoas com mobilidade reduzida, Genebra

Quando você começou a sentir que era uma menina nascida no corpo de um menino?

Com 11 ou 12 anos, sem ser capaz de identificar o problema. Por volta de 15 anos, vi um documentário na TV que falava de disforia de gênero e de uma operação possível, mas não entendi, pensando que fosse uma doação recíproca de órgãos. Eu pensei que também deveria encontrar alguém que fizesse o caminho contrário. (risos)

Como você fez para viver em um corpo errado?

Fiz muitas besteiras na minha juventude, inclusive desrespeitando alguns valores morais, que podem ser vistas retrospectivamente como sintomas de meu mal-estar. Eu mudava o estilo de roupas o tempo todo, usava roupas íntimas femininas embaixo de minhas roupas de menino. Como eu já era a ovelha negra da família, não podia falar disso e acrescentar outro problema. Meu pai não teria aceitado. Ao contrário, penso que minha mãe, que morreu quando eu tinha 30 anos, certamente teria me apoiado e acompanhado em meu processo. Mas comecei minha transição após sua morte, para que ela não tivesse que sofrer as reações de minha família.

Como você viveu a operação?

Ela foi muito dolorosa. Foi necessário um tempo para que eu me assentasse sem me sentir mal. Era como uma agulha presa em minha virilha, isso me machucava (careta). Em retrospecto, acho que esse período foi, todavia, o mais intenso de minha transformação. As dores do pós-operatório tiveram um significado simbólico particular… quase como um parto.

Quais foram as consequências de sua disforia de gênero em sua vida?

É difícil dizer. Se fui oprimida em minha família, foi sobretudo por causa de déficit de atenção. As consequências desse distúrbio, na minha opinião, causaram problemas mais importantes que minha disforia de gênero.

Sua transição está terminada hoje?

Ainda tenho problemas com minha voz, sempre muito baixa, e tenho ódio, por isso, de começar sessões com um foniatra. Sinto o olhar dos outros quando começo a falar e isso me incomoda muito. O médico me assegurou ser possível ter uma voz mais aguda.

O que você diria para as pessoas que têm medo de pessoas transgêneras?

Não posso falar por todas as pessoas transgêneras, mas acho que se as pessoas têm medo de nós, é porque nossa sociedade tem tendência a colocar etiquetas.

Entrevistas feitas por Francesca Sacco e publicadas em 15 de dezembro de 2018 em L’Illustré. Disponível em: http://www.illustre.ch/magazine/transidentite-courage-sexposer

Tradução: Luiz Morando

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