Arquivos = vida – A pulsação do arquivo bate em nós

Sam Bourcier, sociólogo, professor na Universidade de Lille,
membro do coletivo Archives LGBTQI

Um filme que pulsa sobre a Act-Up. 120 batimentos por minuto. E boom. De repente, todos acham legítimas essas histórias de arquivos. Isso é esquecer que as primeiras pessoas envolvidas pensavam sobre isso muito fortemente nos anos 1980 e que a febre dos arquivos conheceu um forte impulso em 2002-2003 com o projeto Le Bitoux[i], o episódio Delanoë[ii] e a mobilização de VigiTrans, LoppataQ e ArchiLesb[iii]. O que mudou desde então, o que ocorre em 2018, é que as instituições, os arquivos nacionais, os arquivos públicos manifestam um interesse pelos GL na condição de que eles tenham um líder de movimento social. Quanto ao interesse de políticos, a sinceridade de seu investimento pelo tema se avizinha de muitas outras coisas: o pink washing, o gerenciamento da diversidade, o calendário eleitoral municipal e uma obsessão pelo controle universalista das minorias sexuais e de gênero apoiado pelo Partido Socialista (PS), a esquerda que não se reconstrói e já plantou o projeto.

Portanto, nada é cor-de-rosa. Há preto sobre o rosa. Paradoxalmente, num momento em que fazer arquivos mobiliza, a questão da violência arquivística, da desapropriação é central. Por que isso está acontecendo em um momento em que todos parecem concordar em reduzir os silêncios e as invisibilizações que estão no cerne das culturas LGBTQI+? Porque todas as formas de visibilidade não são iguais. Porque tudo depende da forma de presença que vamos tomar. Porque o arquivo não é sinônimo de memória, de se voltar para o passado. Porque quem diz visibilidade diz seleção, interpretação, autoridade. Porque tudo depende do modelo de arquivo que se escolhe: há alguns que te trazem de volta ao armário ou ao túmulo, enquanto há alguns que fortalecem e projetam você no futuro. Isso permite contrariar as censuras produtivas, como diz Foucault, das quais as pessoas LGBT foram objeto no século XIX, mas também antecipar as censuras que nos preparam. Os arquivos que são a vida, são a volta ao futuro; caso contrário, é a morte com seus agentes funerários e câmeras frias.

Para compreender os desafios que um centro de arquivos LGBTQI+ coloca hoje, a violência arquivística, epistêmica, administrativa que isso desencadeia, é necessário voltar aos três modelos, as três filosofias de arquivo: os modelos arqueológico, administrativo e produtivo.

O modelo arqueológico é o mais conhecido, o mais clássico, o mais imposto. Isso é evidente. O arquivo representa um acesso ao passado e permitirá reconstituir a história, factualmente, cientificamente. Com esse modelo, é o tempo linear da existência, biológico, “natural” que aciona o arquivo, torna-o possível, legitima-o. Colocamos a questão dos arquivos post-mortem, preocupamo-nos com as rupturas de transmissão dos arquivos. Essa concepção está muito ligada à morte (é seu lado necrófilo) e valoriza o passado produzindo uma injunção, uma moralidade, em vez de um prazer: isso reflete muito bem a noção de “dever de memória”. É o arquivo do papai.

O modelo administrativo é próximo do arqueológico. Trata-se de valorizar o passado, “nossa memória comum” numa lógica patrimonial. Esse modelo afeta a forma de gerir os acervos, que se tornam imediatamente de doadores em vida ou post-mortem. Ele regula as operações de coleta e triagem. É o modelo dos arquivos institucionais verticalizantes. É também o arquivo do papai, do papaitrimônio. Ele coloca o presente como uma obrigação, com uma codificação jurídica e histórias de propriedade, às vezes envolvendo dinheiro. Ele favorece a doação/delegação e desapropriação da parte dos doadores. Ao dar seus arquivos como deveria, obedecemos aos arcontes, aos especialistas oficiais de arquivo. Delegamos ao Estado seu poder arquivístico, pessoal e político.

O terceiro modelo é o do arquivo vivo, vivente, produtivo. Ele gera uma promessa arquivística muito diferente e de acervos nitidamente menos passivos. Com esse modelo, quando falamos arquivo, falamos futuro porque a promessa é intervir no recorte do arquivo agora, imediatamente, em função de nossas necessidades e de nosso passado. De acordo com o que sabemos das invisibilizações e das visibilizações a que estamos sujeitos: todo o século XIX e uma boa parte do XX visibilizou os/as invertidos/as e os/as homossexuais, os/as racializados/as por meio do discurso médico e do discurso jurídico patologizantes e criminalizantes. São esses materiais que se beneficiam de uma supervisibilização nos arquivos e raras exposições institucionais parisienses. E que tornam vivos os agentes funerários que podem também ser os historiadores e os arquivos institucionais a fortiori quando eles são heterossexuais. Eles nos dizem: mas do que vocês reclamam? Temos tudo de que precisamos nos arquivos nacionais. A isso devemos responder: vocês falam unicamente da história da violência. Há mais a ser feito do que apenas rastrear os vestígios da violência e as histórias escondidas nos arquivos da polícia, da justiça, da psiquiatria, dos arquivos do Estado que têm por objetivo nos vigiar, produzir nossas identidades e saberes sobre nós. Muito obrigado.

São os mesmos que ignoram as especificidades dos arquivos LGBTQI+ ou que não assumiram a virada patrimonial e arquivística dos últimos anos. Então, é claro, é difícil arquivar os buracos, os silêncios. E esse é todo o problema dos arquivos das minorias e dos sem-vozes, dos subalternos. É preciso se descolar dos arquivos oficiais, “nobres”, e se recolocar a questão do que constitui arquivos e de quem faz o arquivo. Pois a simples identificação do arquivo constitui imediatamente um de-fora do arquivo com seu cortejo de oposições discriminantes: importante/secundário, antigo/recente, elitista/popular, documento/objeto, impresso/oral, monumento/documento, fato/testemunho, famoso/anônimo. E colocar novas questões: como arquivar as sexualidades, o afeto…

O arquivo é sempre incompleto: que não nos acusem de irritação por não compreender como crianças mimadas que não podemos manter tudo… Mas essa incompletude nos pertence. As operações a que o arquivo deve se submeter para existir e que desenha o seu e o nosso futuro são mascaradas ou confiscadas pelos arcontes, os especialistas do arquivo, os sábios que nos desprezam. Mas podemos nos associar totalmente a isso e associar outros atores. Nós. Nós somos os arquivos. Nós somos centros de arquivos. Nós somos as fontes diversas e variadas das temáticas de arquivos que desejamos fazer emergir. Nós todos somos possivelmente arquivistas arquivados. Arquiviventes! E isso também é o que queremos despossuir. Basta ter feito um workshop de arquivo com um arquivista profissional para se dar conta do empoderamento proporcionado por nossa vontade e nosso saber arquivísticos.

Nós sabemos como indexar. Melhor. Não achamos que seja uma boa ideia ou respeitosa enviar arquivistas heterossexuais em nossas casas ou à Académie Gaie et Lesbienne para escolher três caixas dignas de interesse nacional. Levar a Act-Up Paris sem os objetos, mas não a Act-Up Alsácia. Os arquivos são também corpos vivos e não simplesmente autorizações de depósito ou acordos de doação para que os arquivos acabem em uma caixa onde ninguém possa praticá-los. É o fato de desencadear arquivos escritos, visuais, sonoros, filmados, gravados para colocá-los em ampla circulação. Não é simplesmente para fazer história oral como complemento. É para reduzir as zonas de silêncio que vêm, previsíveis e que já nos são infligidas pelos arquivos institucionais e heterossexuais. Não é se deixar despossuir de nossos arquivos e da maneira de fazê-los. É arquivar nossas comunidades, nossas culturas e nossas formas de vida. É admitir que a inversão de conhecimento que as minorias sexuais, de gênero, de raça impõem, como na Act-Up, como na produção de saberes, inclusive universitários, se produz também para os arquivos LGBTQI+. Nossa filosofia do arquivo, nossa temporalidade, nossa epistemologia, não é a que valoriza o arquivo e os corpos mortos. Act-Up também fez outra coisa da doença e da morte.

Isso é o arquivo vivo. Aquilo que leva em conta o ponto de vista dos doadores. Aquilo que não produz, como é o caso atualmente, uma subjetividade do arquivado, desapropriando as pessoas e as associações LGBTQI+ das emoções, da criatividade, dos saberes que são deles para produzir nossos arquivos no mesmo momento em que eles são reconhecidos. Com uma moral do pobre e triste arquivo, com a inoculação de um novo dever que consiste em abandonar seus arquivos com luvas brancas de arquivistas, como se, daí por diante, olhar para eles fosse destruí-los ou desintegrá-los com nossas patas sujas ou como se guardá-los fosse pecado… O arquivo vivo é uma outra coisa. É decidir coletivamente o recorte de nossos arquivos. Autorizar-nos a investir na incompletude específica dos arquivos LGBTQI+. Dizer: arquivos = vida.

Para criar, organizar e animar o espaço para produzir juntos os arquivos de que precisamos. Após o quem, o como, o onde? Dizem-nos que os lugares já existem e somos informados dos cadafalsos onde reinam a temperatura ideal e de pesquisadores inseridos. Uma caixa que custa 16.000 euros foi alugada pela prefeitura de Paris para “salvar” “com urgência” alguns arquivos escolhidos a dedo. É a alegoria exata da morte de nossos arquivos e da filosofia desapropriada, heterossexual, mortífera, naftalinesca, subterrânea, congelada que vai com isso. Em Mal d’archive, o pequeno livro rosa e negro do arquivo para os LGBTQI+, para descrever a instalação do dispositivo da violência arquivística, Derrida fala de “ilusão de um começo e da chegada do comando” e de uma “atribuição permanente, de um domicílio, da residência de magistrados superiores, os arcontes gregos que comandam e exercem seu poder de consignação”. São os mesmos que colocam os arquivos de volta ao armário com a caixa trancada, com as barras de ouro dos arquivos institucionais destinados aos pesquisadores e que recusam que os acervos sejam recolhidos pelo coletivo de arquivos LGBTQI. Nós não nos deixaremos consignar. Nenhuma urgência sem a nossa febre dos arquivos, não a febre-doença, mas a febre-desejo coletiva e recorrente. A pulsação do arquivo bate em nós

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Artigo de Sam Bourcier publicado em 5 de maio de 2018, em Friction Magazine. Disponível em: https://friction-magazine.fr/archives-vie-le-pouls-de-larchive-cest-en-nous-quil-bat/

Tradução: Luiz Morando.

O ativista transgênero e sociólogo Sam Bourcier aborda a importância de coletivos LGBTQIA+ resgatarem e construírem arquivos com a nossa memória.

[i] Jean Le Bitoux (1948-2010), jornalista e historiador, foi um ativista no movimento homossexual francês, cofundador do jornal Le Gai Pied e também ativista na luta contra o HIV/AIDS.

[ii] Bertrand Delanoë, nascido em 1950, foi prefeito de Paris entre 2001 e 2014. Político assumidamente gay, desenvolveu uma administração de esquerda. Em 2002, foi esfaqueado. Seu agressor alegou à polícia que “não gostava de políticos e em especial não gostava de homossexuais”.

[iii] VigiTrans, LoppataQ e ArchiLesb são coletivos franceses formados respectivamente por pessoas transgêneras, queers e lésbicas. Eles estão envolvidos na formação do Centre d’Archives et de Documentation Homossexuelles de Paris (CADHP)

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