Formas do gozo queer

Miquel Bassols responde sobre o feminino. O psicanalista catalão distingue dois modos de abordar a questão: em sua diferença com o masculino e como o Outro para si mesmo. Gozos torcidos em relação à norma fálica.

Miquel Bassols é psicanalista de Barcelona, integrante da Escola Lacaniana de Psicanálise e presidente, durante 2016-2018, da Associação Mundial de Psicanálise. Nesta entrevista, ele responde a três perguntas sobre o feminino. Suas respostas, das quais se reproduz um fragmento, foram publicadas no livro Feminismos, variaciones y controversias, publicado pela Editora Gramma.

Como você bem esclarece em seu livro Lo femenino, entre centro y ausencia, o feminino como alteridade radical, como Outro gozo que não seria o fálico, não é apenas assunto de mulheres. O feminino é sem gênero. Você descreve o feminino como o próprio umbigo do ser que fala, lugar do real irrepresentável que marca o exílio interior. Por que você crê que insiste em nosso dizer uma associação entre esse Outro gozo e as mulheres?

Se partimos da hipótese freudiana segundo a qual no inconsciente não há uma representação, uma inscrição da diferença entre os sexos, então é necessário perguntar-se como o inconsciente trata a diferença que estabelecemos entre o masculino e o feminino. A resposta freudiana formalizada por Lacan na primeira parte de seu ensino é simples. A diferença é: ou falo ou castração. É uma diferença binária, inerente à própria estrutura da linguagem. Dessa perspectiva, orientada pela própria lógica do significante, a diferença é um fato de discurso. Então, pode haver mulheres que sustentam uma posição fálica, do lado masculino da sexuação, e pode haver homens que sustentam uma posição não fálica, do lado feminino da sexuação. Nessa conjuntura, e ao contrário do que o próprio Freud poderia sustentar num momento, a anatomia não é o destino. Lacan corrige Freud neste ponto: não há outro destino senão aquele que cada sujeito constrói na linguagem, a partir de sua relação com o inconsciente estruturado como uma linguagem. Pareceria um mundo muito bem ordenado pelo significante, pela lógica binária fundada na diferença: os que estão de um lado e os que estão do outro. O outro seria outro para o um, e o um seria outro para o outro. Reduplicaríamos assim a diferença anatômica homem / mulher em uma diferença fundada no discurso, masculino / feminino, seguindo uma reciprocidade que não precisa ser simétrica.

Em “Análise terminável e interminável” (1937), Freud desenvolve o conceito de repúdio da feminilidade, que você retoma em seu livro. É isso que está em jogo para o homem que exerce violência contra uma mulher?

Essa é a hipótese. A alteridade do gozo feminino, alteridade também para cada mulher, é o que, para Freud, é rejeitado em cada ser falante, e é o que significa para ele o famoso complexo de castração no final da análise. O termo freudiano Ablehnung, repúdio, tem sido traduzido também por “desautorização”. Cada sujeito desautorizaria assim sua parte feminina, a parte feminina do gozo que insiste para além da lógica do falo e da castração. Até o ponto de rejeitá-la com a segregação e a violência. Esse é também o “não quero saber nada disso” que insiste em cada ser falante e nas diversas formas de segregação que existem em nosso mundo.

Na seção intitulada “Alteridade radical do Um-sozinho”, você indica dois modos de abordar o feminino. Duas lógicas para pensar o feminino.

Existem feminismos diversos. Poderíamos distingui-los seguindo esses dois modos de abordar o feminino. Ou tomando o feminino em sua diferença com o masculino, como Outro para o Um, ou tomando o feminino como Outro para si mesmo. Tomemos o paradoxo de Aquiles e a tartaruga, evocado por Lacan no início de seu seminário Mais, ainda a propósito do gozo feminino. Da perspectiva de Aquiles, que se move seguindo a lógica fálica, um passo após o outro, em um espaço ordenado de modo binário, a tartaruga se mostra inalcançável, só se encontrará com ela no infinito. É também o paradoxo de Zenon, é a impossibilidade de dar conta do real do gozo no espaço ordenado, contabilizado por números naturais: 1, 2, 3,… n. Acontece que entre 1 e 2 já existem vários intervalos, uma infinidade de números reais impossível de recobrir com os números chamados naturais. O infinito em que Aquiles poderia se encontrar com a tartaruga Briseida já está de fato em cada passo que Aquiles dá, entre um passo e outro, em cada intervalo do espaço que percorre. E isso apesar de ser uma perna fraca. Deste lado, o lado fálico, de fato, a cada passo que avançamos nos afastamos mais da alteridade do gozo feminino. É o paradoxo que encontramos em muitos desenvolvimentos da teoria dos gêneros fundados na diferença. Mas Lacan indica algo mais: a tartaruga Briseida é também tartaruga para si mesma, é também Outra para si mesma. É aí que se abre a possibilidade de outra lógica para abordar o feminino, mais além da lógica fálica. A lógica da diferença já não funciona no espaço que a tartaruga Briseida percorre. É o espaço do Um-sozinho, sem Outro. Em vez de diferença, podemos nos basear em outros conceitos, outros termos. Em francês se usa o termo écart, que o filósofo Philippe Julien tem enfatizado recentemente. Um écart é um desvio, algo que se torce, ao estilo queer, e que não funciona pela diferença com outro termo. O gozo do Um-sozinho é queer por definição. Cada forma de gozo tomada em sua singularidade é, de fato, um gozo queer, torcido em relação à norma fálica. E não por sua diferença significante, mas por sua mesma singularidade. Estudar essas formas de gozo queer é o desafio que cada estudo singular do feminino deve enfrentar.

A entrevista de Miquel Bassols foi publicada inicialmente no blog Desescrits, em 8 de dezembro de 2018. Esta tradução foi feita a partir de sua reprodução no jornal Página 12, em 13 de dezembro de 2018. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/161738-formas-del-goce-queer

Tradução: Luiz Morando.

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