Assistimos a uma versão piorada de Nelson Rodrigues

Na última semana, Jair Bolsonaro e seu clã deram a impressão definitiva de que saltaram de uma versão Z dos dramas escritos por Nelson Rodrigues, especialmente Os sete gatinhos. Se existia alguma dúvida, ela deixou de existir: estamos entrando em uma forma oligárquica de governo, em que o pai e os filhos do primeiro casamento (Flávio, Carlos e Eduardo, na ordem de aparecimento no mundo) dão a condução do que pretendem impor.

Em quase 50 dias de desgoverno, o pai já se mostrou confuso, desinformado, despreparado, inepto e incapaz de definir ações e agenda. Com certeza consciente desses ‘méritos’, desde novembro começou a construir a sustentação de sua administração (?) em um tripé formado por militares (espalhados em diversos setores estruturais do governo, além de funcionarem como sirenes que dão o alerta de desacordos e brigas internas); políticos conservadores e de direita (grande parte, oriundos do campo religioso cristão evangélico, convivendo quase em simbiose com os militares); técnicos (ultra)liberais para desenvolver uma serie de iniciativas de abertura ao capital estrangeiro, aliados a técnicos de carreira antiglobalistas e pró-EUA.

Dos ‘garotos’ – Flávio (37 anos), Carlos (36 anos) e Eduardo (34 anos) –, cada um vai deixando sua marca tratorista: o primeiro é senador, com a suspeita cada vez mais robusta de aliança com milicianos do Rio de Janeiro e práticas nada ortodoxas de se beneficiar dos salários (dinheiro público) de seus assessores. O segundo (apelidado ‘pit bull’ pelo pai) é o controlador das mídias sociais do pai (de fato, seu ghost writer) e vereador no Rio. O terceiro é deputado federal e adora entrar de sola naqueles que faz alvo: já previu o fechamento do STF com um cabo e um soldado; há pouco tempo sugeriu impedir as escolas de ensinar sobre o movimento feminista e ontem chamou os defensores de Gustavo Bebianno de jumentos.

Então, o ministro da Secretaria Geral de governo, Gustavo Bebianno se tornou o centro da primeira crise do governo oligarca em fase de instauração. Aparentemente, o declínio de Bebianno começou com as reportagens que a Folha de S.Paulo começou a publicar no final de janeiro sobre candidatura fantasmas de mulheres nos diretórios do PSL em Minas Gerais, Brasília e Pernambuco, durante o período de campanha eleitoral, quando Bebianno era presidente do PSL e principal articulador da candidatura do pai do clã.

Mas outras fontes mencionam que Bolsonaro pai não gostou da iniciativa do seu ministro de agendar um encontro com alto representante da Rede Globo, tomando o fato como traição, dada a maior proximidade que o governo acordou com Record e SBT. Nesta versão, o pai insatisfeito açulou o filho pit bull contra seu ministro, prestes a ser defenestrado da equipe de governo e a ser substituído por mais um militar, como já anunciado.

Enfim, independente de causas, motivos, bastidores, disputas, acirramento de ânimos, xingamentos – o fato é que o governo demonstra não ter (ou não querer ter) um mínimo de capacidade de negociação, de discernimento, de comunicação interna.

Gustavo Bebianno já começou a atirar contra o recente aliado, dizendo ser um louco e incapaz, e dando a entender que possui diversos segredos de campanha. Um tímido movimento ‘Fala, Bebianno!’ já começou. O jornal Estado de S.Paulo anunciou negociações lideradas por Carlos e Eduardo Bolsonaro para criar um partido de centro-direita e abrigar o pai e seus seguidores. Seria o 75° partido na fila, em fase de criação e aprovação pelo TSE…

Este drama rodriguiano de baixa categoria ainda promete muito!

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