Prólogo à edição espanhola de Historia de lo Trans, por R. LUCAS PLATERO

Quando e como foi criado o termo transexual? Quem lutou no contexto norte-americano na hora de conquistar direitos para as pessoas que fogem às normas de gênero foram travestis, transexuais ou não-binárias? Como é feita a memória das pessoas trans*? Quais líderes impulsionaram outras maneiras de entender as transgressões de gênero? Como é possível que tenhamos tantos personagens trans* nas séries atuais de sucesso na TV? Hoje há mais pessoas trans* e não-binárias que há um século? Que desafios sociais surgem graças às vivências das pessoas trans* e seu ativismo? Estas são apenas algumas perguntas colocadas em Historia de lo trans, um livro magnífico que apareceu no final de 2017 com uma edição revista e atualizada em espanhol pela Editora Continta Me Tienes (e em inglês pela Editora Seal), quase dez anos depois de sua primeira edição.

Temos a oportunidade de abordar o trabalho histórico e político de Susan Stryker, que ainda não é muito conhecida em nosso contexto, provavelmente porque até o momento não contávamos com traduções de seus trabalhos. A exceção foi seu primeiro artigo acadêmico, “Mis palabras a Víctor Frankenstein desde el Pueblo de Chamonix: Performando la Ira Transgénero”, traduzido en Políticas trans: una antología de textos desde los estudios trans norteamericanos[i]. Também é relevante que Stryker esteve recentemente em Barcelona, dando a conferência “Coged aire: Las políticas de vida trans actuales” (2016), em um ciclo de conferências organizado por Cultura Trans, por conhecer as mudanças pelas quais passaram as pessoas trans* no Estado espanhol. Mas, quem é Susan Stryker? Esta mulher trans* norte-americana é doutora em História dos Estados Unidos, pela Universidade da Califórnia, e também uma conhecida ativista, autora de vários livros entre os quais podemos destacar The Transgender Studies Reader (Routledge, 2006) e o que está escrevendo atualmente, Cross-Dressing for Empire: Gender and Performance at the Bohemian Grove. Ela dirigiu documentários, como o premiado Screaming Queens: The Riot at Compton’s Cafeteria (2005). Na atualidade, Stryker é professora na Universidade de Arizona, diretora do Instituto de Estudos LGBT e coeditora de TSQ: Transgender Studies Quarterly, a primeira revista acadêmica sobre questões trans* sem enfoque médico.

Historia de lo trans começa contextualizando Susan Stryker frente a seu objeto de estudo, a história das pessoas trans*, para sublinhar que escreve a partir dos Estados Unidos e de uma geração muito determinada. Pensemos que sua impressionante biografia evidencia uma luta intensa por superar barreiras que penalizaram sua saída do armário como mulher, sabendo que conseguir um emprego na universidade não é algo que se esperasse de uma mulher trans*, para quem parece que se encaixava melhor em outras expectativas sociais. Após essa introdução, Stryker situa o marco da investigação que realiza e introduz a terminologia que utiliza ao longo da história nos Estados Unidos para falar das pessoas que transgridem o sexo atribuído no nascimento. Vocábulos como transexual, travesti, transgênero, trans, trans*, hermafrodita, intersexual, entre outros, surgem em momentos históricos determinados, com diferentes visões de mundo que dão sentido às rupturas com o sexo atribuído no nascimento, a expressão, corporalidade ou identidade de uma pessoa. Uma história e terminologia que temos de entender com a distância e a necessidade de reconhecer que elas não têm a mesma trajetória e enraizamento em locais de língua espanhola.

Por exemplo, se tomamos a palavra travesti, na Argentina atual é um termo autorreclamado por suas protagonistas para a luta política e social[ii], enquanto na Espanha seu uso foi mais frequente antes dos anos 1980, e agora foi relegado a uma atividade ligada ao crossdresser. O mesmo ocorre com transexual e transgênero, que têm um uso radicalmente distinto em inglês e em espanhol; o termo aglutinador ou guarda-chuva de uso amplo e que tem tentado ser inclusivo nos Estados Unidos foi, desde os anos 1990, transgênero (transgender), enquanto em castelhano foi transexual (transsexual), e mais tarde trans (e também trans* com asterisco), sem fazer muitas distinções entre quem faz modificações corporais e quem não faz[iii]. Em inglês, transexual tem sido reservando para indicar aquelas pessoas que fizeram modificações corporais, face a transgender, que não necessariamente se identifica com tais modificações ou com uma transição medicalizada. O termo transgênero em espanhol tem sido menos usado, embora talvez tenha sido feito com uso mais politizado.

Caberia perguntar-se o porquê desse frenesi linguístico, questão que se complica ainda mais com as vivências não-binárias e o desejo de torná-las patentes na linguagem (com o uso de palavras que terminam em “e”, por exemplo, frente a outras propostas de linguagem inclusiva que se servem do termo pessoa, termos unissex, o uso do @, x ou *). De um lado, isso demonstra que seus protagonistas não se sentem confortáveis com palavras que a medicina ou a lei elegeram para elas, denominações que frequentemente são pejorativas, com o que se supõe reivindicar-se em primeira pessoa. Não apenas isso, mas os protagonistas desses debates e experiências são por sua vez muito críticos com a linguagem que se utiliza sobre eles, pessoas que por sua vez vivem sob um intenso escrutínio social. Isso mostra que, embora possa parecer que o debate está no terreno da linguagem (por suas conotações, seus efeitos não desejados, suas características e se elas “dão jogo” ou não), é também muito relevante como usamos essas palavras para excluir algumas pessoas[iv]. Assim, esse dinamismo da linguagem reflete um constante movimento de significados emergentes que requerem novas expressões, por exemplo, associadas à visibilidade da infância trans* ou a pessoas não-binárias. De fato, cada vez que parece que conseguimos mapear quais palavras existem, de quais gostamos ou quais são úteis e quais não são, está se criando o sentido que necessitará de uma palavra para poder ser concebida. Outra realidade que se revela é que constantemente surge a necessidade de uma terminologia inclusiva (transgênero, trans, trans*…) frente ao olhar restritivo de que se utilizam os marcos médicos ou legais, assim como da cooptação de vocabulário que transforma seu sentido.

Além de dar um sentido histórico à gramática trans*, Stryker nos mostra os eventos e pessoas-chave para entender a visibilidade das questões trans* hoje em dia, realizando um exercício de genealogia que é necessário. Nomeie, por exemplo, as leis municipais que proibiam aos homens vestir como mulheres (1863); aqueles que serviram no lado confederado da guerra se passando por homens, como Harry Buford; inclua passagens de cartas recolhidas por Magnus Hirschfeld (1909); nomeie ativistas pioneiras como Louise Lawrence, Virginia Prince, Sylvia Rivera, Martha Johnson, Reed Erickson, Suzy Cooke, Leslie Feinberg ou Angela K. Douglas, entre outras. Isso nos lembra que antes das chamadas revoltas de Stonewall Inn teve outras na cafeteria Compton’s (1966) ou que a homossexualidade poderia ter sido um termo aglutinador que incluía o que agora entendemos como transexualidade, pondo no mapa nomes de organizações, pessoas e fatos-chave.

É necessário enfatizar que Stryker narra a história da transexualidade e de das pessoas trans* nos Estados Unidos que, apesar de sua influência global, não é a mesma história que tem sido vivida em outros lugares, como na Espanha ou na América Latina. Se tomarmos como exemplo a Espanha, não é nos anos 50 do século passado que se ativa o termo transexual[v] (Vázquez García, 2011), de maneira que as pessoas transexuais como sujeitos políticos não emergem até um momento político de transição democrática, ligada à liberação homossexual e à luta contra a lei de periculosidade e reabilitação social, junto com outros movimentos sociais. Seria uma história do trans* distinta também pelas relações que estabeleceram os diferentes movimentos sociais entre si, como são os movimentos feministas, o dos direitos sexuais e reprodutivos, as liberdades sexuais e o ativismo trans*, entre outros[vi].

Para dar um exemplo concreto, a persistência e o impacto de um feminismo dedicado a excluir as mulheres trans* (TERF) não têm a mesma trajetória na Espanha ou na América Latina que a dos Estados Unidos (Osborne, 2017). Parte dessa diferença tem a ver com compartilhar uma trajetória de luta que deu valor à contribuição feminista que as profissionais do sexo trans* deram, o papel destacado de alguns feminismos lésbicos na hora de vincular-se com as mulheres transexuais nos anos 1990 e, mais tarde, a inclusão de homens trans* em debates feministas, assim como o contexto dinâmico de mudanças em que está inserido, torna o movimento TERF na Espanha bem menos relevante.

Susan Stryker utiliza uma linguagem simples e acessível, que consegue transmitir com grande clareza que os estudos sobre as pessoas trans* têm uma importância que vai além de ser uma minoria social, para situá-los em um contexto mais amplo de lutas nos movimentos sociais, e do feminismo em particular. De fato, ela defende um olhar transfeminista e interseccional, que leva em conta outros contextos, como o da diversidade funcional, a racialização, a procedência nacional, a classe social ou as crenças religiosas, entre outras identidades sociais das pessoas trans*. Ela também enfatiza que a história das pessoas trans* nos Estados Unidos reflete necessariamente o futuro histórico, político e social do país, uma espécie de montagem que permite a visibilidade e presença pública que a transexualidade tem nos dias atuais, inclusive quando a crise econômica de 2008 significou um corte maior de direitos e recursos.

Outra questão de suma importância é que este livro sobre as pessoas trans* foi escrito por uma de suas protagonistas. Algo que não é muito frequente se levarmos em conta que habitualmente a produção do conhecimento geralmente está nas mãos das pessoas que concebem a transexualidade como uma doença ou um problema legal, uma curiosidade antropológica ou uma novidade. Poder ter um olhar tão globalizador e compreensivo sobre os fatores históricos e sociológicos que constroem as vidas das pessoas trans* na América do Norte só é possível a partir dessa situação privilegiada de protagonista, ativista e pesquisadora. Essa questão sobre a agência das pessoas trans* na criação do conhecimento, assim como sua representação pública, seja na ficção ou na vida real, está presente ao longo de todo o livro. Em especial, quando se refere às artes ou aos meios de comunicação, onde é muito frequente, por exemplo, a produção de filmes para um público que não é trans*, mas sobre uma temática trans*.

Historia de lo trans é um livro valioso que contribui para transformar o olhar que temos sobre gênero, as pessoas que transgridem os papéis dados com a atribuição de um sexo no nascimento, assim como das relações entre movimentos sociais. O livro é dirigido a muitos públicos e mostra-se relevante para pesquisadores e estudantes de Ciências Sociais e Humanidades; para o ativismo e os movimentos sociais; para profissionais que atuam com intervenção social; é significativo para historiadores e historiadoras, e, em suma, para todas aquelas pessoas que queiram dar rigor histórico e sociológico ao conhecimento sobre as pessoas trans*. Este trabalho também evidencia a carência de um estudo de profundidade similar sobre o trans* e as pessoas trans* na Espanha, como também é importante assinalar que existem trabalhos relevantes de autores trans* como Miquel Missé, Juana Ramos, Pol Galofre, Norma Mejía, Amets Suess, Ian Bermúdez, Mar C. Llop ou Lucas Platero, entre outros.

Para terminar, gostaria de destacar o momento em que emerge a narrativa da história de pessoas trans*, o que ocorre em meio a uma recessão conservadora que está causando impacto em muitos estados-nação, não só nos Estados Unidos. Esse giro conservador questiona a linearidade da narrativa que representa a conquista de direitos como um avanço unidirecional e no qual o progresso está associado ao Ocidente ou à modernidade. A partir de uma visão crítica e decolonial, os direitos e as oportunidades vitais das pessoas trans* estão sempre reunidos e entrelaçados à produção social da racialização, classe social, passabilidade e cisaparência, diversidade funcional, migração e outras experiências de importância estrutural.

Prólogo publicado no site Parole de queer, disponível em: http://paroledequeer.blogspot.com/2019/02/prologo-historia-de-lo-trans.html

Tradução: Luiz Morando.


[i] STRYKER, Susan. (1994) Mis palabras a Víctor Frankenstein desde el Pueblo de Chamonix: Performando la Ira Transgénero. In: Políticas trans. Una antología de textos desde los estudios trans norteamericanos. Traducido por Lucas Platero, ed. Pol Galofre y Miquel Missé (Ed.). Barcelona, Madrid: Egales, 2015. p. 135-162.

[ii] BERKINS, Lohana. Un itinerario político del travestismo. In: MAFFÍA, Diana (Comp.). Sexualidades migrantes. Género y transgênero. Buenos Aires: Edhasa, 2003. p. 127-137.

[iii] PLATERO, R. Lucas. Trans*exualidades. Acompañamientos, factores de salud y recursos educativos. Barcelona: Bellaterra, 2014.

GALOFRE, Pol; MISSÉ, Miquel (Eds.). Introducción. In: Políticas Trans. Una antología de textos desde los estudios trans norteamericanos. Barcelona, Madrid: Egales, 2015. p. 19-28.

[iv] SERANO, Julia. Regarding Trans* and Transgenderism. Whipping Girl, 27 de agosto 2015. Accesible en http://bit.ly/2yNis9z (consultado el 08/11/2017).

[v] VÁZQUEZ GARCÍA, Francisco. ¿Por qué en la edad moderna no podía haber transexuales? Cuatro casos de transmutación sexual en España (siglos XVI-xx). Ubi Sunt?, n.26, p. 49-58, 2011.

[vi] PLATERO, R. Lucas; ORTEGA, Esther Arjonilla. Building Coalitions: The Interconnections between Feminism and Trans* Activism in Spain. Journal of Lesbian Studies, v. 20, n. 1, p. 46-64, 2016.

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