A teoria neoliberal de gênero de Judith Butler

O feminismo de Judith Butler substitui o gênero pela luta de classes e a opressão pela exploração. Ele pede lugar para o indivíduo em nome da recusa do consenso.

Como qualquer discurso militante, o discurso social e ideológico sobre as “mulheres” muitas vezes escapa à regulação dos afetos e das emoções. A questão feminina suscita assim tanto mais problemas quanto ela é frequentemente agregada e mesmo assimilada a outras lutas militantes que a englobam, mas cujos objetivos podem desviar-se radicalmente dos objetivos feministas, embora esses problemas acabem atrapalhando a reflexão também.

O incômodo provocado pelas reivindicações ditas “feministas” foi, sem dúvida, acentuado uma vez que tais reivindicações se tornaram a base para a teoria de gênero estabelecida por Judith Butler, dissociando o “gênero feminino” – ou “masculino” – de qualquer pertencimento a uma natureza sexuada. Problemas de gênero, que a tornou famosa na França, tenta fundar essa distinção. Filiando-se aos trabalhos de Michel Foucault e Louis Althusser, ela desenvolve uma crítica bastante radical da autonomia do sujeito, sob a dependência de um contexto político e social impossível de mudar.

Isso a levará a valorizar a luta pelo reconhecimento e deixar de lado as análises de certas consequências econômicas da luta feminista. Como escreve Céline Spector, “a crítica feminista do salário família, outrora peça central de uma crítica radical do androcentrismo capitalista, permite agora legitimar um modo de acumulação do capital que depende do trabalho remunerado das mulheres. A dinâmica é particularmente forte no mundo anglófono, em que o imaginário social, fundado no sucesso individual, coloniza alguns movimentos feministas.”

Após Marx

A obra política de Marx tem sido referida por seu fracasso pelos autores da “Teoria francesa”, à qual Judith Butler é muito ligada por focar suas reflexões nas questões próprias à linguagem abordadas notadamente por Althusser. Assim, ela está interessada pela questão do reconhecimento pelos outros, através da noção de interpelação no sentido que Althusser propõe, isto é, no sentido de que não posso me defender de ser o que o outro diz de mim. É o caso do policial que te interpela e, como resultado, te faz voltar atrás, produzindo por essa interpelação reconhecimento e performatividade enquanto as palavras proferidas eram inicialmente externas a si mesmo. Em Butler, há uma clara rejeição da análise marxista que privilegia os conceitos de luta de classes, de exploração e de alienação. Ela os substitui por gênero, autoprivação e violência da opressão. Ela invalida a posição de Marx por não levar em conta o contexto social e histórico das normas morais. As lutas pela redistribuição econômica se encontram eclipsadas pelas lutas por reconhecimento que constroem o sujeito. Butler pratica assim um grande desvio com relação a Marx, a quem ela quase nunca cita, preferindo a corrente crítica dos anos 1970.

Ao deixar de lado os conceitos marxistas, especialmente a questão da luta de classes, ela valorizará as análises em que prevalece o “eu”, evitando qualquer ilusão de autonomia da vontade de qualquer sujeito.

Uma superação do Marx neoliberal

Citar Judith Butler sobre a questão do feminismo é necessário porque, se ela é desacreditada perante o grande público, o mesmo não ocorre na esfera universitária, onde se estabeleceu um longo consenso sobre ela. A partir daí, permanecem marginais as análises que fazem parte de outra problemática. De fato, para dar razão a algumas minorias, a esfera universitária tornou incontornável o filtro do “gênero”, isto é, a denúncia do confinamento nas categorias determinantes do feminino e do masculino. É a Foucault que Butler deve o desdobramento de suas análises. Em 2014, foi publicado Critiquer Foucault: les années 1980 et la tentation néolibérale que o editor apresentava assim: “Foucault teria sido seduzido pelo neoliberalismo? Essa questão, longe de encarnar simplesmente as evoluções de um intelectual, interroga mais amplamente as mutações de certa esquerda do pós-maio 68, as desilusões com o futuro e as profundas transformações do campo intelectual francês ao longo dos últimos trinta anos. Compreender os anos 1980 e o triunfo neoliberal é igualmente explorar os recantos mais ambíguos da esquerda intelectual através de uma de suas figuras mais importantes.

Respondendo a uma entrevista à revista on-line Ballast, Daniel Zamora dizia: “Assim, tanto à esquerda quanto à direita, gostamos que os “provisórios” sejam o problema, substituindo assim as velhas ideias ultrapassadas e dogmáticas que faziam da exploração o cerne da crítica social. Tanto a esquerda como a direita, gostamos de opor duas facções do proletariado que, com as evoluções econômicas neoliberais, entraram em uma competição destrutiva.” Como a filósofa marxista Isabelle Garo muito bem descreveu, essa transição contribuirá para “substituir a exploração e sua crítica pelo recentramento sobre a vítima da negação de direito, prisioneiro, dissidente homossexual, refugiado etc.” Em seu livro Deleuze, Althusser & Marx (2011), Garo lembra o anticomunismo virulento de Foucault, após sua saída do Partido Comunista em 1952, mas também sua participação ativa na reforma dos programas da universidade em 1963, a pedido de De Gaulle – uma das explicações para o maio de 1968 –, ou ainda seu apoio, ao lado de Roland Barthes e Maurice Clavel, aos “novos filósofos” Bernard-Henri Lévy e André Glucksmann em 1977. Marx não era mais uma questão para ele.

Butler: a questão da individuação

O que é notável na abordagem de Butler é a escolha de suas referências, que, nos casos de Genet e Althusser, são uma recusa clara para ler diretamente Marx e valorizar as reflexões que favorecem posições individualistas. Se ela se interessa por Althusser, é antes de tudo por seu conceito linguístico de interpelação, abandonando de fato o conceito de exploração no coração da teoria marxista. Em outras palavras, os trabalhos de Butler levam a uma solução individual: cabe a cada um encontrar seu caminho, toda solução coletiva está votada ao fracasso. Se o outro me designa me interpelando, ele procede a uma individuação que se situa fora de mim, mas que integro.

Essa solução, que reúne o individualismo liberal, não tem nada a ver com a questão da individuação enunciada pela primeira vez por Duns Scot no século XIII. Individuar-se é manter sua ínfima diferença no seio do grupo, não renegar esse pertencimento. Procurando provar que pode existir uma pluralidade de anjos em uma mesma espécie angélica, Duns Scot, na Idade Média, se pergunta o que faz de um indivíduo o que ele é. Nada explica a singularidade, exceto a causa segundo a qual toda natureza comum é individuada em última instância: o indivíduo tem precedência sobre a espécie, mas o individualismo não se sustenta, o indivíduo não existe fora da espécie. Com Butler, há apenas ínfimas diferenças. A respeito disso, o que Daniel Bensaïd escrevia em La discordance des temps é muito esclarecedor: “Para cada conflito, suas especificidades. Levados a cabo no turbilhão dos interesses fragmentários, os próprios indivíduos são condenados a uma solidão desolada de mônadas sem janelas. Essa fragmentação generalizada é o último avatar do fetiche da mercadoria. Resta, ao final do processo, apenas o autismo social do único sem qualidade e as singularidades abstratas de um individualismo sem individuação. O discurso pós-moderno renuncia assim a todo pensamento crítico do social e dissolve o capital em uma rede plural, indiferenciada, de relações e de instituições. Podemos, entretanto, imaginar que uma sociedade democrática reconhece todos os tipos de diferenças (culturais e sexuais) sem se resignar às relações de opressão e dominação. Por outro lado, apenas podemos imaginar que essa sociedade repousa sobre relações de classe sem aceitar ao mesmo tempo a relação de exploração que lhe é inerente: as relações de classe não poderiam ser consideradas mutuamente benéficas da mesma forma que as diferenças sexuais, culturais ou linguísticas. Enquanto a igualdade racial e a igualdade sexual não são incompatíveis por princípio com o capital (embora ela retire vantagens decisivas disso), a exploração lhe é consubstancial. A exploração de classe tem um estatuto distinto da opressão, ‘uma função estratégica no coração do capitalismo’ que a pluralização dos conflitos não esgota: ‘uma democracia fundada na diferença de classe é uma contradição em termos’”. Abandonar os conceitos de exploração e de luta de classes abre a porta a um neoliberalismo individualista.

O cidadão desaparecido

Judith Butler retoma de Genet suas análises e seus textos literários sobre a humilhação. Nunca, no entanto, ela inclui a questão da exploração no cerne de seu pensamento. A humilhação é uma consequência da exploração. Mas ela não produz nenhuma consciência de pertencimento comum a uma classe social. A humilhação é uma resposta pessoal a uma interpelação: é montada uma cena social na qual um sujeito é saudado, depois se vira e aceita os termos pelos quais ele/a foi chamado/a. Sentindo-se pessoalmente designado, identificando-se com aquele que transgride a lei, o transeunte se vira. Esse volteio é interpretado como a constituição de um sujeito. A existência social do sujeito se estabelece através de sua adesão à lei e o endosso de uma culpa que o faz se virar. Além disso, a eficácia da injunção punitiva da lei pressupõe uma atitude anterior do transeunte de se virar, uma atitude em relação à lei que Butler liga à busca do indivíduo por reconhecimento. Segundo Butler, a submissão do sujeito pode ser vista como o efeito de um apego narcísico à perpetuação de sua própria existência que passa por um apego à lei. A resposta permanece individual. Responder com um discurso insurrecional, dando lugar à revolta, é a resposta de Judith Butler à cidadania desaparecida.

Daniel Bensaïd pode ajudar a compreender a consequência disso: “Não há mais harmonia pré-estabelecida entre mulheres senão a da solidariedade natural de classe. E os ‘feminismos’ são tão plurais quanto os ‘marxismos’”. O discurso insurrecional da revolta individual substitui o projeto revolucionário. Saia do coletivo cujo consenso se funda sobre o saber do especialista. Sandra Laugier e Albert Ogien, em Pourquoi désobéir en démocratie?, revelam o significado e as consequências desse discurso. Tomar a palavra é me dar a autoridade para falar por nós e fundar assim uma autoconfiança. Isso é um ato político que libera cada um do peso do especialista. Eles qualificam esse ato discursivo de “radicalidade individualista”. Dessa maneira, os autores fazem referência a Emerson e ao republicanismo. Entretanto, e isso será uma conclusão provisória, quem é esse indivíduo que não para de reaparecer como um leitmotiv? Como alcançar um interesse comum que não prive um em benefício do outro? A pesquisa está dada.

Texto de Maryse Emel publicado em 9 de junho de 2018 no site nonfiction.fr. Disponível em: <ttps://www.nonfiction.fr/article-9427-la-theorie-neo-liberale-du-genre-de-judith-butler.htm>

Tradução: Luiz Morando.

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