Coletes nus

Como faz apenas alguns meses que me mudei de Atenas para Paris, no sábado passado levantei ainda confuso e, ao abrir a janela parisiense e ver várias lixeiras queimando, acreditei por um momento estar nas ruas que levam à praça Sintagma. Com a manifestação dos coletes amarelos assistimos à helenização do conflito francês ou, para inverter o sentido da metáfora, à europeização do conflito grego. O que está ocorrendo é o deslocamento das formas de opressão, mas também de resistência e contestação, das periferias da Europa ao centro. Este transbordamento se repete no perímetro nacional deslocando-se dos recantos das províncias para as avenidas da capital. A onda expansiva da crise das instituições democráticas europeias que sacudiu os países designados como PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) em 2011 e que irrompeu na Grécia, em junho de 2015 (quando a comunidade europeia se negou a aceitar as consequências políticas do resultado do referendo sobre o resgate financeiro e a imposição de medidas de austeridade), não pôde ser contida nas margens e alcançou progressivamente o centro, estendendo-se durante os últimos anos à França.

O colapso do parlamento grego – que França e Alemanha (que poderíamos chamar, por oposição ao PIGS, lobos da Europa) propiciaram e aplaudiram do seu trono colonial – foi apenas a primeira detonação de uma explosão programada de todas as instituições democráticas europeias. As brutais políticas aplicadas na Grécia foram se estendendo pouco a pouco de Atenas até Paris: a mesma neoliberalização do mercado de trabalho; semelhante estrangulação fiscal das classes médias; similar desmantelamento das instituições públicas; idêntica precarização extrema dos trabalhadores pobres; idêntico recrudescimento das políticas migratórias; a mesma ênfase das linguagens institucionais racistas como único modo de dar coesão nacional a um tecido social fraturado.

Se as revoltas se manifestaram assim na França, não é apenas devido à generalização do ataque neoliberal contra os Estados de bem-estar, mas também porque a França se converteu em outro porco em relação ao colosso alemão. As desigualdades do Euro acentuadas pelas desigualdades de classe fazem com que as classes populares francesas sejam tratadas aqui como o “populacho” grego o é na Europa: como o sul da nação. “Que apodreçam”, parecem afirmar em uníssono multinacionais, acionistas e dirigentes, sem compreender que a podridão do lúmpen logo será a sua. Ninguém nesse extremo da Europa se importou se a Exárchia[i] queimava: o que arde agora são os Champs Elysées.

Com o passar da crise e a contestação da periferia ao centro, mudam-se os contrastes e os planos de fundo e forma: a Europa ocultou a crise da democracia representativa na Grécia sob a aparência do que chamou de dupla crise da dívida e dos refugiados. Foi dito dos gregos, chamando-os negros e otomanos da Europa, que eram preguiçosos e incapazes de pagar impostos. O corpo do imigrante, identificado como ameaça para os limites (raciais, sexuais) da nação, foi atacado em benefício da reconstrução de uma imagem nacional (branca, ocidental, viril) forte. Na França, o deslocamento do problema se repete: a crise da democracia representativa se converte em uma resposta para a perda de poder aquisitivo das classes trabalhadoras brancas e em um conflito pela gestão da migração de que a extrema-direita francesa – como a Ordem Hermética da Aurora Dourada fez na Grécia – se alimenta em um banquete que devora pobreza e desenraiza e vomita linguagens e símbolos coloniais e patriarcais. A suástica come a energia transformadora dos coletes amarelos. Estamos, por assim dizer, com Pasolini –  diante do processo pelo qual uma subcultura da cólera absorve uma subcultura da oposição.

Essa transformação alquímica da potência da revolta em neonacionalismo é o que leva a enfrentar o colete amarelo e a bandeira verde, o colete amarelo e o boné rosa. Tudo parece afirmar que devemos escolher entre revolta de classe e a ecologia, entre a crítica do neoliberalismo e a revolução transfeminista.

As ideias patriarcocoloniais de representação política, de Estado-nação, de família e de cidadania sofreram uma erosão sem precedentes nos últimos cinquenta anos. Desde então, essas noções têm sido postas em questão pelas minorias (entendidas não em termos de número, mas em termos de opressão e potencial revolucionário) de gênero, sexuais e raciais que denunciam o funcionamento dessas instituições da modernidade como tecnologias de opressão. Os processos de descolonização e de despatriarcalização iniciados nos anos cinquenta e sessenta alcançam hoje uma dimensão planetária e reclamam a invenção de novas instituições e contratos sociais. Por outro lado, e de forma simultânea, ainda que inversa, os processos de financeirização da economia e robotização do trabalho esvaziaram de conteúdo e poder os centros de decisão nacional do antigo regime e obscureceram as formas de ação e reação que davam coesão à revolta da classe operária. Endividada e com trabalhos precários externos à fábrica, a nova massa de e-proletários carece de consciência de e-classe e desconhece suas possíveis alianças transfeministas e anticoloniais.

É preciso desmascarar a falácia que se esconde sob o dilema entre lutas de classe e lutas transfeministas e anticoloniais. Estamos diante de um único processo de revolução planetária, de mudança de paradigma no qual uma multiplicidade de vetores novos se opõem à velha cultura necropolítica patriarco-colonial-capitalista. Esse novo movimento ecotransfeminista só pode ser revolucionário, posto que exige ao mesmo tempo uma mudança total (do corpo ao território, da instituição à imaginação) dos modos de produzir e de reproduzir a vida sobre o planeta. É contra essa revolução planetária que eles se elevam, utilizando parte da energia das revoltas dos precarizados como combustível alquímico, um processo também planetário de contrarrevolução nos Estados Unidos, Brasil, Turquia, Andaluzia, Grécia ou França.

A deriva helênica do conflito francês exige a europeização urgente da luta. Somente a partir desse horizonte europeu (inclusive, caberia dizer planetário), a partir da internacionalização ecologista, anticolonial e transfeminista do conflito e da luta, é possível enfrentar a crise da democracia representativa e o final do regime do carbono-patriarcado-capitalismo.

A questão não é mais levar ou não um colete amarelo, mas abaixar os calções do lutador viril. Afirmemos nossa condição de corpo vulnerável frente ao capitalismo patriarcocolonial. Devolvamos a sensualidade e a poesia à luta: que cada colete amarelo beije o outro, cada dia uma boca diferente, sem identidade e sem papéis. Coloquemos esperma soropositivo na raiva e purpurina na cólera para que a extrema-direita não possa se alimentar deles. Que a luta seja louca e viada. Falemos com violência do poder: que sejam as palavras e não os corpos que se desgarrem. E sejamos poderosos ao abraçar as ruas. Que na luta caibam as mãos trêmulas e as pernas fracas. Que a única coisa a ser imolada seja o nome de todos os caudilhos, passados e por vir.

Texto de Paul Preciado publicado em 26 de janeiro de 2019 no jornal El País. Disponível em: https://elpais.com/elpais/2019/01/25/opinion/1548414649_175774.amp.html?id_externo_rsoc=TW_CC&__twitter_impression=true&fbclid=IwAR3O7vTsPp7ua_2Xn8P3elLeFkFLWHnJa4QKFFNrmzZBCZA8dSY_FWj7CDU

Tradução: Luiz Morando.


[i] Exárchia é um bairro central da cidade de Atenas próximo ao edifício histórico da Universidade Politécnica Nacional de Atenas. A região é famosa por ser ponto de encontro de militantes de esquerda. Seu nome é uma referência ao mercador Éxarchos que fundou um grande comércio no local. (Wikipedia)

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