Falência moral precoce

Todos que têm boa saúde mental evitaram votar no capitão porque já sabiam de sua incompetência e inépcia de 28 anos como parlamentar e suspeitavam como seria seu (des)governo. Então, com 70 dias da Nova Era transcorrendo no Brasil, não apenas pudemos conferir novamente aquela certeza, como ir um pouco mais além: acrescentar a fata de discernimento moral e a incúria. Para quem tiver boa memória, o período entre 1° e 8 de março ficará grudado como aquele que revelou a completa incapacidade do (des)governante atuar no cargo sem a tutela da junta militar instalada no 3° e 4° andares do Palácio do Planalto. Senão, vejamos:

– no dia 1°, a edição de medida provisória que acaba com a contribuição sindical descontada diretamente no salário do sindicalizado e o pagamento da taxa apenas por boleto;

– no dia 4, a divulgação, em sua conta pessoal do Twitter, de cena gravada no carnaval de São Paulo em que dois participantes do BloCU praticam atos divulgados como obscenos/pornográficos, entre eles a golden shower (também conhecida como chuva dourada);

– no dia 6, a inesperada pergunta também sua conta no Twitter: O que é golden shower?;

– no dia 7, em cerimônia pelos 211 anos dos Fuzileiros Navais, mais uma frase polêmica (considerada mal-interpretada pelo seu vice-general): democracia e liberdade só existem “quando a sua [do país] respectiva Força Armada assim o quer”;

– ainda no dia 7, em uma live ao lado de dois generais (Augusto Heleno e Otávio Rêgo Barros), o capitão ameaçou retirar de circulação uma caderneta de saúde dirigida a adolescentes, com informações sobre o uso de preservativo e de métodos contraceptivos;

– no dia 8, um verdadeiro escárnio: disse que as duas mulheres com cargo de ministra em sua equipe valem, cada uma, por 10 homens, o que deixaria seu ministério equilibrado pelo critério de composição por gênero.

E assim vamos acompanhando, fala a fala, tuíte a tuíte, a falta de decoro do sujeito eleito presidente. Internamente e externamente o país foi alvo de deboche, riso, ironia, dúvida sobre sua seriedade (ah, De Gaule, pelo menos isso você já havia dito), consternação, constrangimento… Seus apoiadores alegam ser pouco tempo para avaliar a performance presidencial. Se depender de mais tempo, aonde chegaremos?

Concomitante a tudo isso, a PEC da Reforma da Previdência começa a patinar por ausência de organização e acompanhamento da base parlamentar na Câmara de Deputados. O capitão já liberou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a negociar cargos e emendas a favor da aprovação.

Por outro lado, pequenas defecções já começam a ser percebidas e comentadas: o pseudofilósofo e boquirroto Olavo de Carvalho já abriu guerra contra Hamilton Mourão e, na última semana, contra Ricardo Vélez. O ministro da Educação exonerou quatro assessores ex-alunos de Carvalho, com carta branca do capitão.

No âmbito estadual, dois governadores eleitos começam a se afastar estrategicamente do capitão: João Dória e Wilson Witzel (ambos procuraram apoio de Bolsonaro na campanha entreturnos, em outubro) já sinalizam um afastamento lento e gradual, ambos interessados em consolidar posição autônoma para postular a candidatura presidencial em 2022.

O diligente Janio de Freitas chamou a atenção para o seguinte: em 42 dias úteis de governo, o Ministério da Agricultura já concedeu 74 novas licenças de agrotóxicos – ou seja, uma licença a cada 4 horas de expediente!

Fica uma certeza cada vez mais transparente: boa coisa não nos aguarda ao longo de 2019!

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