Dançar de quatro é obsceno, capitão!

Ao falar a uma plateia de supostos investidores na segunda-feira (18), o ministro da Economia, Paulo Guedes, usou a metáfora da dança para se referir aos parceiros comerciais do Brasil. Ele se dirigiu de maneira aparentemente humorada a Trump para esclarecer que o Brasil não recusa parceiros com quem dançar, seja à direita, seja à esquerda. Nesse sentido, assegurava que as relações comerciais entre Brasil e China, assim como Brasil e Estados Unidos se pautam por questões econômico-financeiras, e não ideológicas.

A primeira viagem aos Estados Unidos do capitão Bolsonaro após sua posse tentou (as)segurar alguns benefícios para trazer no colo, no regresso de avião. Se o capitão assentou-se com as pernas fechadas, as migalhas recolhidas na Casa Branca serão apresentadas aos visitantes do Palácio do Planalto. Se ele abriu as pernas (e tudo leva a crer que sim), as migalhas devem estar sendo procuradas por agentes da CIA, nos recantos do avião, até o momento em que você lê este texto.

A dança diplomática do primeiro giro de Biroliro foi executada com o capitão de quatro, posição pouco aconselhável a um Chefe de Estado. Se não, vejamos:

– a terça-feira foi reservada para um contato mais próximo com Donald Trump: entrevista coletiva, pronunciamento conjunto no jardim da Casa Branca, assinatura de propostas de acordo, encontro reservado de vinte minutos. Nas três primeiras ações, o capitão pareceu criança abobalhada em parque, com várias opções, sem saber a qual se dirigir primeiro: desejando mostrar segurança, sorriso forçado, discurso atrapalhado e vazio. A repetição mecânica de frases e passagens decoradas de discursos gastos deixa clara a incapacidade de dominar um retórica minimamente compatível para momentos solenes, que exigem cuidado com as palavras e habilidade para expressar-se com clareza (mesmo que não queira revelar o que realmente precisa ser dito). É constrangedor ver a repetição pela milésima vez dos clichês da campanha eleitoral, esfarrapados e deslocados de seu precário contexto original;

– o encontro reservado de vinte minutos foi acompanhado do mascote da família na comitiva: o filho deputado federal e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados. Estiveram ausentes os ministros das Relações Exteriores e da Justiça, que integram a comitiva presidencial. Ernesto Araújo, já é mais do que sabido, deixou de apitar no ministério sob seu comando, passando a ser elemento figurativo em detrimento da proeminência que Eduardo Bolsonaro vem tomando para si. Um Estado oligárquico vai se desenhando aos nossos olhos, neste caso com o destaque de um filho xenófobo que guia o pai.

– a postura de quatro do capitão ao dançar é demonstrada ao ser ‘convencido’ a abrir mão de benefícios na Organização Mundial de Comércio (OMC), atualmente dirigida por um brasileiro, para receber o apoio dos Estados Unidos para a possibilidade de ingresso do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o que acarretará adaptações fiscais do país que podem ser prejudiciais à economia.

– por fim, o tal alinhamento ideológico, expressão que passou a significar a submissão e dependência a valores neo/ultraliberais, em um discurso populista e nacionalista, com uma pauta conservadora de costumes, uma defesa intransigente e irracional de valores cristãos, rompendo o compromisso laico do Estado e a negação de responsabilidades com a agenda de direitos humanos.

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