Karo Moret: “Não acho que exista um feminismo global.”

“Como emigrante, você só tem um caminho e esse caminho está à frente porque você abandonou sua Ítaca e quer chegar a outro lugar. Essa viagem tem apenas uma direção.” Karo Moret, de origem cubana, é afrodescendente e há 23 anos fez essa viagem de Cuba à Espanha. Agora ensina História na Universidade Pompeu Fabra de Barcelona e é, sem pretender, uma exceção. Não só pela escassa presença de mulheres racializadas no corpo docente, mas também pelo tema que desenvolve em seu doutorado: a influência das diásporas africanas na cultura ocidental. Construir uma nova história da Espanha, que incorpore as “outras vozes”, é uma questão de justiça e, sobretudo, de sobrevivência para Moret.

Ultimamente, parece que está se desmantelando, pouco a pouco, o mito da unidade racial da Espanha e que as comunidades racializadas começam a se tornar visíveis depois de muito trabalho. Você acha que isso é uma realidade?

Sim, acho que as diferentes comunidades estão ganhando visibilidade, mas ainda falta muito. Estou aqui há 23 anos e há bem pouco tempo, três ou quatro anos, que começo a tomar consciência do “eu” com perspectiva. Creio que o que estamos vivendo agora é apenas o começo.

Uma das manifestações desse reconhecimento se mostra no crescente interesse pela chamada arte africana contemporânea, ainda que a grande maioria desses artistas pertença a uma elite de ascendência africana formada nos Estados Unidos. É realmente uma mostra da arte que está sendo feita na África? O rótulo é adequado?

Acho que o rótulo de arte africana poderia ser utilizado agora, nessa época do contemporâneo, mas o que entendemos por arte africana na Antiguidade não existia como tal, é o Ocidente que lhe dá a categoria de arte. Na África, eram objetos que tinham uma função e um uso: por exemplo, as máscaras que são tão utilizadas na arte ocidental tanto por Man Ray, Picasso ou Magritte, na realidade têm uma função ritualística dentro da sociedade africana. Se o que você me pergunta é o que está sendo feito agora, em grande parte e sobretudo como apoio, ela responde ao ocidental porque as obras não têm a dimensão de objeto e ferramenta que tinham na Antiguidade.

Então, como tem acontecido com a moda e todo o debate da apropriação cultural, você acha que na arte o “afro” é mais um rótulo comercial?

A primeira coisa sobre a qual temos que ser muito claros é o que significa a apropriação cultural e sobretudo o que significa o uso desses objetos por parte da sociedade ocidental. Eu nem sequer acho que seja algo que se tome emprestado de outras sociedades. Tem mais a ver com o fato de arrancá-la do significado original e não dar crédito à origem.

No livro Inapropiados e inapropiables, Silvia Albert Sopale diz: “A nova dramaturgia que queremos impulsionar neste país parte de um princípio muito simples: nossas histórias são contadas por nós”. Você concorda? Como conseguir isso?

Certamente, você está ciente do que aconteceu no Teatro Lliure. O fato de contarmos nossas histórias é o ideal, é assim que deve ser. Até agora as vozes fora do mainstream não ocidental não foram coletadas, não interessavam e sempre houve versões de todas essas culturas. Creio que a questão é que pelo menos agora existe a possibilidade de incorporar esses outros e essas outras catalãs para que contem essas outras histórias de seu ponto de vista, especialmente incorporando as pessoas que vivem essas histórias. É aí por onde tudo deve mudar.

Sobre a polêmica do Lliure[i], talvez o mais sintomático seja a desculpa do diretor: embora tivesse procurado atores negros para o papel, não os encontrara porque não estão em igualdade de oportunidades.

Acho que ele mesmo se qualifica com isso, e para arrematar acrescenta: “Tenho uma filha negra adotada, não sou racista”. Isso não te leva ao paraíso. Também o mais forte é que o Lliure tem atores negros apenas o suficiente para abrir a porta da sala de ensaio.

É habitual que se exija às e aos artistas racializados que suas obras tenham um componente político, que sejam ativistas. Isso também é uma forma de racismo, contribui para estereotipar o sentido das obras?

Acho que sim: o problema é que para que isso não aconteça teríamos que estar vivendo em uma utopia. E como essa utopia não chegou, é necessário que esse tipo de caminho seja forçado, que onde quer que não haja uma mulher, em uma obra, em uma exposição, ou um pintor de origem não europeia, seja reivindicada sua presença. Eu mesma sou favorável a buscar a excelência, mas para que todo mundo possa chegar a essa excelência, a primeira coisa é que todos tenham acesso. Nesse sentido, esse componente político é necessário agora, tanto da parte das mulheres, como de pessoas racializadas e outras minorias. Talvez se esse diretor de teatro [David Selvas] tivesse sido multado com um valor mínimo, ele não teria escolha a não ser sair à rua para procurar atores negros.

Não consegui encontrar dados sobre o número de mulheres racializadas nas universidades espanholas. Qual é sua experiência como pesquisadora? 

Acho que essa será a segunda parte de minha tese de doutorado: minha experiência como pesquisadora racializada em uma universidade europeia. É necessário mais presença, embora seja evidente que não posso reivindicar uma cota de paridade sendo minoria. O que eu exigiria imediatamente é a questão dos conteúdos. Isso é muito importante, porque não só se ignora pessoas de outras origens dentro das universidades, como também são ignoradas e invalidadas referências bibliográficas não ocidentais. O que é estudado, as pessoas que continuam sendo citadas e demandadas nas aulas continuam sendo homens brancos mortos norte-americanos ou europeus. E quase diria exclusivamente, porque os próprios professores nem sequer são conscientes disso, não dão aos alunos ferramentas para buscar outras referências bibliográficas que complementem as que são usadas.

Você nota que pelo menos agora há mais interesse para que isso ocorra?

Não, a questão é que nem sequer há esse interesse. É meu desejo, mas muito utópico. Agora estamos lutando para que os alunos peçam mais e sejam capazes de exigir que os professores ampliem a bibliografia e perguntem sobre o que ocorre no resto do mundo, porque isso não é estudado.

Seu trabalho de pesquisa se baseia em um estudo sobre a influência das diásporas africanas na cultura ocidental, especialmente na europeia. Por que é importante esse reconhecimento para as novas gerações racializadas?

Acho que é uma questão de recuperar as vozes e o crédito das culturas originárias, de dar a César o que é de César. Durante muito tempo a cultura ocidental tem sido a origem de tudo e a fonte de tudo, nem sequer tem havido um interesse por pensar que não pode ser casual que haja tantas mudanças na mesma cultura. É necessário recuperar esses momentos dos quais a cultura ocidental se apropriou e imitou de outras culturas, porque na maioria dos casos isso acontece empregando o terror.

Você acha que faltam mais referências próprias para as gerações de afrodescendentes que existem na Espanha?

É evidente que sim, porque a história espanhola não é a história dos Estados Unidos. Necessitamos de uma história própria, já é hora de essas referências serem incorporadas e fazerem parte dessa nova história espanhola.

Ocorre algo parecido dentro dos afrofeminismos?

Está claro que a parte norte-americana foi a que mais promoveu a questão dos  afrofeminismos, que facilitou que todas as lutas da população negra nos Estados Unidos, e sobretudo o pensamento sobre essas lutas, se refletissem nos livros e nas pesquisas. A desvantagem disso é que muitos afrodescendentes do mundo, na falta dessas mesmas pesquisas em seus países, tomaram quase exclusivamente como referência a luta dos negros nos Estados Unidos, esquecendo-nos de todas as referências que temos em suas próprias culturas. Já é hora de inverter isso e nos dedicarmos a buscar nossas próprias referências. É uma questão de sobrevivência, porque nem minha vida nem a de meus antepassados é igual à dos negros nos Estados Unidos. Temos muitas coisas em comum, mas também muitas coisas que pouco têm a ver. Acho que é hora de procurá-las em Cuba, no Caribe e também na diáspora, porque é aí onde nos encontramos em maioria.

Onde podem ser encontradas essas referências?

Há muita gente fazendo muitas coisas na Espanha, sobretudo muitas mulheres. Muito do interesse que vemos agora foi gerado depois das visitas de Chimamanda [Ngozi Adichie] e de Angela Davis, que foi o ápice de tudo. Serviu inclusive para falar novamente da conexão entre a África e o Caribe, com o tema do afrofuturismo ou através da chamada filosofia africana. É uma filosofia que se estabelece quase de forma comunitária, não é fixa.

Algumas ideias para começar…

Recomendo livros, as referências que todos procuram. Acho que a gente tem de fazer sua própria tarefa e começar a identificar o racismo moral, institucional e estrutural. Aí vão alguns: Ser mujer negra en España, de Desirée Bela-Lobedde; El ocaso del liderazgo sacerdotal femenino en el Xangô de Recife: la ciudad de las mujeres que no será, de Aida Bueno Sarduy; On son les dones negres?: Feminisme africà i la representació de les dones africanes a la premsa catalana, de Duodu; Las que se atrevieron, de Lucía Mbomío; No hay sexo sin racialización, Las mujeres hablan mucho y mal ou Mujeres africanas, de Remei Sipi.

Seu trabalho fala da importância de os sujeitos racializados, tenham nascidos aqui ou não, terem provas de seu processo diaspórico. O que pode ser usado?

Não é algo que você escolhe. Acredito que isso seja a favor dos sujeitos que migram em relação aos sujeitos que nascem no território. Estes geralmente costumam esquecer a viagem que seus pais fizeram, mas percebem que a sociedade exige algo deles, porque a Espanha não os reconhece como seus. Posso falar como migrante: essa viagem obriga você a se situar em cada um dos momentos em que você está, e você tem isso superclaro, é fácil porque você não tem outra. Você só tem um caminho e esse caminho está à frente porque você abandonou sua Ítaca e quer chegar a outro lugar, essa viagem tem apenas uma direção.

Através do conceito de interseccionalidade, você explica que existem tantas formas de viver e identificar-se como existem indivíduos. Mas ao mesmo tempo, reconhecer que há opressões comuns pode ajudar a levar a cabo uma luta conjunta mais efetiva. Como se conjugam essas duas ideias?

Estamos nisso, não tenho nem ideia. É algo que se está fazendo. Acho que é importante a ideia de que não somos uma só coisa: você não pode dizer como é alguém, porque essa pessoa é tão complexa como o pode ser você. Tem que começar por reconhecer todas essas variantes dentro de um mesmo grupo, mas não tenho uma receita de como se pode conseguir isso. Acho que é algo que surgiu a partir dos dois ou três últimos 8 de março. Esse momento em que as feministas catalãs brancas, poderosas, aquelas que já têm domínio da luta e sobretudo são muito acadêmicas, constataram que as mulheres emigrantes que trabalhavam em suas casas também queriam ir ao 8 de março. Todas querem lutar pela mesma coisa, talvez, mas essa tensão existe e o feminismo não conseguiu resolvê-la ainda. Não lhe interessa conhecer o outro, acredita-se que a simplificação funciona para todos, mas não acredito que haja um feminismo global. É muito complicado dar especificidade a cada uma das mulheres, porque, acima de tudo, elas precisam sentar e ouvir.

Para isso, primeiro é importante criar espaços negros não mistos?

Acho que é importante porque hoje continuamos ocupando essas posições da sociedade que não nos dão acesso para falar livremente, a ter esse poder sobre nossos atos e sobre nossas palavras. Necessitamos de lugares seguros, mas ao mesmo tempo precisamos de lugares onde possamos dizer um ao outro o que nos acontece, porque, se não, tudo permanecerá entre nós. Fazem falta espaços onde se possa reduzir ao mínimo essas violências verbais e físicas, e estabelecer processos de verdadeiro diálogo, dando-lhe a oportunidade de entender e conhecer o outro.

Existem esses espaços?

Em alguns momentos, isso acontece nos cursos que dou, por isso estou tão interessada nas pessoas que vêm da rua, porque afinal a universidade não deixa de ser um gueto; e as pessoas vêm, especialmente muitas nascidas aqui que não conhecem suas raízes.

Você tem uma menina. Você acha que ela viverá em uma Espanha menos racista?

Eu gostaria, eu ficaria feliz, mas na vida real acho que minha filha inclusive terá mais dificuldade porque ela é mestiça, e essa sociedade continua despreparada. Continua assim para nós e os outros, imagine com os mestiços, a meio caminho entre uma coisa e outra!

Gosto muito da frase com que você termina um artigo publicado no portal do CCCB: “Vamos nos aproximar de outras alteridades não apenas com a raiva e a dúvida pela reivindicação de nosso espaço para ser. O convite não é da sua periferia, mas do seu centro.” O que significa isso?

Significa o que eu te disse: dê-nos a oportunidade de conhecermos e entender que a periferia nunca é formada por um grupo específico, e que apenas o centro não é seu centro. Para isso, o principal é a generosidade. Recentemente, me perguntaram se eu concordava com as reivindicações, acho que apostaria em outro tipo de demandas, pelo fato de que o reconhecimento é dado, então daríamos um passo mais direto para construir o futuro, e não esperando que esse país me dê o dinheiro que eu acho que me deve, porque a partir daí é difícil construir qualquer outra coisa.

Tem que se construir algo novo.

Sim.

Entrevista de Karo Moret dada a Berta Gómez Santo Tomáz, publicada em Pikara online magazine em 13 de março de 2019. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2019/03/karo-moret-no-creo-que-exista/.

Tradução: Luiz Morando.


[i] Em outubro de 2018, o Teatro Lliure, de Barcelona, se viu envolvido em uma polêmica: ao encenar a peça estadunidense Angels in America, um personagem negro doente de AIDS foi interpretado por um ator branco. O fato gerou críticas de diversos atores negros catalães. A esse respeito, leia mais em https://www.dondiario.com/actores-negros-acusan-de-racismo-al-teatre-lliure.

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