“Nossos corpos trans são um ato de dissidência do sistema sexo-gênero.”

Desde 2013, o filósofo – Beatriz tornado Paul B. – mantém, por meio de suas crônicas no Libération, o diário de sua transição sexual e de gênero. Um ato político contra as normas identitárias, assim como contra a potência do poder patriarcal e do capitalismo. Uma travessia vertiginosa reunida hoje em um livro.

Esta é uma falha em seu computador, uma pasta chamada “Forno”, um forno onde se mantém aquecido quando as turbulências do mundo o tomam de assalto. É aí que o filósofo Paul B. Preciado registra as crônicas que escreve desde setembro de 2013 para a página Idéias do jornal Libération antes de enviá-las ao jornal. São textos redigidos nos interstícios do mundo – aeroporto, avião, quartos de hotéis, zonas de transição para um autor em transição. Beirute, Barcelona, Londres, Lesbos, Paris, Berlim, Paul B. Preciado não parou de viajar durante a redação de suas crônicas, filósofo sem bagagem nem endereço, enviado especial permanente às convulsões do mundo, nunca dormindo mais de dez dias seguidos na mesma cama: crise grega, crise migratória, crise da representação democrática, tudo é gravado, registrado, analisado. Setembro de 2015: ele se encontra em Atenas enquanto o país é dilacerado pelas exigências orçamentárias europeias, agitado pela chegada de migrantes fugindo da guerra e da pobreza. País em transição como o próprio autor. “Politicamente, ele diz, eu me construí fora do binarismo sexual e dentro do exílio.”

No início da colaboração com o Libé, ele ainda se chamava Beatriz Preciado, filósofa lésbica queer que trabalhava com arte contemporânea, aprovada em uma universidade americana, especializada em questões de gênero, marcada pelo ensino de Jacques Derrida. Dezembro de 2014: telefonema para a redação: “Vou me tornar Paul.” Sob o efeito de doses de testosterona, a voz já não é mais a mesma.

Realizado em Nova York, em uma das poucas clínicas administradas por ativistas trans, o protocolo médico-psiquiátrico de mudança de sexo se torna objeto público, assunto político. As crônicas mudam de autor: em janeiro de 2015, Beatriz é substituída por Paul, mais precisamente Paul B., a segunda letra do alfabeto guardando preciosamente o passado feminino e feminista do filósofo. Central, irrigando cada texto redigido na urgência dos horários e das vertigens existenciais, a transição de B para P é a coluna vertebral dos textos enviados ao Libération. Uma incrível travessia humana sem terra à vista, nem porto de origem. Com momentos épicos, como o confronto no outono de 2015 com um jovem guarda de fronteira ucraniano que não compreende esse corpo masculino dotado de voz grave, portador de um passaporte ainda feminino. Um ano depois, será o “renascimento”, uma impressionante crônica de novembro de 2016 onde a “ficção legal Beatriz Preciado Ruiz” é destruída para dar lugar a “Paul Beatriz Preciado”, novo nome inscrito no Diário Oficial de Nascimentos da Espanha. Ele conta no Libé: “Eu mesmo assinei a autorização para a destruição de minha certidão de nascimento, bem como o pedido para a emissão de uma nova certidão. Como um monstro que aprendeu a falar, sento-me no centro da máquina administrativa barroca que produz a verdade do sexo e pressiono todas as suas teclas de uma vez, até que o sistema entre em blecaute. Sinto certa vertigem.”

Hoje, as crônicas para o Libération tornaram-se um livro, Un appartement sur Uranus [Um apartamento em Urano, em tradução livre][i], publicado pela Grasset. E prefaciado por Virginie Despentes, que compartilhou dez anos da vida de Beatriz Preciado. “Não interessa a você ficar preso”, escreve ela. “Você quer o estatuto de clandestino permanente. Você muda seu nome nos documentos de identidade e assim que seu nome é Paul para cruzar as fronteiras, você escreve no Libé que não tem nenhuma intenção de adotar a masculinidade como novo gênero – você quer um gênero utópico.” Nem feminino, nem masculino, mas para além disso, em um futuro a construir. À sua maneira, a autora de Vernon Subutex ainda faz parte das crônicas publicadas no Libération: a cada quinzena, ela relê cada texto antes do envio ao jornal. Para suavizar a linguagem de um intelectual que pensa e escreve em inglês, francês, espanhol, simultaneamente. Uma maneira também de conservar um indefectível laço. Sobre Paul B. Preciado, Virginie Despentes escreve, admirada: “Você não tem tempo para a hostilidade, nem caráter para a cólera – você desdobra mundos que surgem das margens, e o que é surpreendente em você é essa capacidade de continuar a imaginar outra coisa.”

Quem é você, Paul B. Preciado?

A questão da identidade não me interessa. Não me sinto nem espanhol, nem francês, nem católico, nem homem… O que me interessa é a crítica às normas sexuais, de gênero, raciais, patrióticas. O mais urgente não é defender o que somos, homem ou mulher, heterossexual ou homossexual, mas rejeitá-lo, desidentificar-se da coerção política que nos força a desejar a norma e a reproduzi-la. Como o gênero, a nação não existe fora das práticas coletivas, que a imaginam e a constroem. O que vejo hoje não são identidades, mas relações de poder que constroem o sexo, a sexualidade, a raça, a classe, o corpo válido. Vamos parar de focar nas identidades e falar mais sobre as tecnologias de poder, questionar a arquitetura política e jurídica do colonialismo patriarcal, da diferença dos sexos e da hierarquia racial, da família e do Estado-nação.

Seu corpo trans participa dessa contestação?

Não sou um homem, mas um homem trans. Como homem trans, desidentifico-me da masculinidade dominante e de sua definição normativa. Eu sou um contrabandista, minha história e minha consciência estão fora de sintonia com a ficção política masculina que é a minha hoje. Ao menos uma vez por dia, lembro na conversa com um interlocutor ou uma interlocutora que eu sou um homem trans, uma maneira de dizer sobre meu confronto com o sistema sexo-gênero. Nossos corpos trans são um ato de dissidência. Para mim, um homem trans faz parte da minoria das mulheres, porque, para mim, as mulheres não são uma natureza, mas uma minoria política. Minha cultura permanece a das mulheres, fui criada e educada na feminilidade. Eu sou um feminista. Não me esqueço disso. A cada vez que alguém me chama Paul, é um ato de cooperação que se torna um ato de resistência política. De certo modo, estou em uma recuperação ativa do que me foi radicalmente roubado: a alegria da infância. Desejo que cada um invente um novo manual para seu corpo, que saia da norma, que não se reconheça no espelho.

Como sua própria transição entrou em ressonância com a crise grega, financeira e migratória?

Sem rosto masculino ou feminino, sem nome fixo e com um passaporte incerto, instalei-me em Atenas em setembro de 2015 como curador da Documenta[ii]. Tive amor à primeira vista por essa cidade e me apaixonei por ela. Atenas era na cidade o que eu vivi em meu próprio corpo. Um lugar de transição, entre Oriente e Ocidente, na Europa e nos limites da Europa. Impressionada com a economia da dívida e as políticas de austeridade, confrontada com a gestão do afluxo de milhares de migrantes e refugiados que atravessavam as margens do Mediterrâneo para escapar às guerras pós-coloniais, a capital grega era um lugar de crise, no sentido positivo do termo, onde as mutações do mundo se cristalizam. Como eu, Atenas estava em transição. O planeta também. A cidade era um observatório único para compreender os processos de destruição neoliberal da Europa, de controle social pelo viés da economia da dívida e da reconstrução do Estado-nação como enclave da soberania racial. Em Atenas, meu corpo era como um sismógrafo que registrava as mutações do mundo. Crise do capitalismo, da representação democrática, crise do Estado-nação, com esse corpo em transição, eu tinha a impressão de estar à beira do abismo e inclinar-me à beira da civilização: a transformação está ocorrendo, ela está em operação, mas não se sabe o que vai acontecer.

Essa mutação planetária é o que você chama de “luta dos corpos vivos”?

É preciso ultrapassar a lógica da política das identidades para ir em direção a uma luta transversal planetária dos corpos vivos. Por meio das redes sociais e da internet, os movimentos transfeministas, queers, o movimento de jovens tornaram-se planetários. Argélia, Líbano, Argentina, Europa, América: estamos todos ultraconectados, partilhamos uma utopia comum. Uma linguagem comum está sendo construída. Uma linguagem mais que democrática também. Vivemos um momento de crise do paradigma científico da diferença dos sexos. O regime heterossexual está em mutação desde a pílula contraceptiva e as biotecnologias de reprodução. É uma revolução tão importante quanto a que ocorreu com a derrubada da representação científica do mundo no momento da revolução copernicana no Renascimento. Não se trata de uma cosmologia, mas da criação de uma outra sociedade, de um outro regime de reprodução da vida. Essa energia da transformação se manifesta pela luta dos corpos. Ela participa dessa grande transformação planetária que estamos vivendo, esse movimento de transição para novas representações mais democráticas. O perigo sobrevém quando esses movimentos se cristalizam nas questões identitárias. Seria preciso um Parlamento planetário, considerar as pessoas como corpos vivos, não como cidadãos dos Estados-nação.

O que é um “corpo vivo” para você?

Imagine os corpos como objetos anatômicos: esta é a visão que a medicina nos legou desde o século XVI. Mas essa é apenas uma das representações normativas do corpo. O corpo é uma potência de vida. É um arquivo político vivo fabricado não apenas pelo patriarcado ou pela medicina, mas também pelas representações artísticas, audiovisuais, pelas instituições, pelo mercado… Sexo, gênero, sexualidade, raça, saúde, deficiência, sua condição de corpo vivo é definida politicamente por essas categorias. Há hoje uma contestação dessas categorias que são também tecnologias de poder. É preciso estabelecer uma aliança transversal e universal dos corpos vivos que querem fugir a essas normas. E essa aliança pode ser mais ampla, incluir os animais, mas também as máquinas, que são nossos filhos, porque somos nós que as fabricamos. Falo de luta somatopolítica para nomear essa nova revolta dos corpos vivos: eles não querem mais que sua potência de vida seja explorada pelo dispositivo necropolítico capitalista-patriarcal. Em vez disso, o novo sujeito político não é mais um homem viril dotado de razão, mas um corpo vivo, vulnerável à doença, ao envelhecimento, à destruição ecológica. Isso é o que em toda sexta-feira, com as manifestações Fridays for Future[iii], os jovens do planeta querem dizer aos dirigentes do mundo. Eles dizem: “Somos corpos vivos e defendemos nossa conexão com a vida.” Hoje, isso é impedido pelo patriarcado, o capitalismo, a colonização, o manejo não ecológico do planeta.

Você é espanhol, fixado em Paris, tendo morado em Barcelona, Atenas, viajando sem parar pelo território europeu e no mundo. Qual é sua relação com a Europa?

Estou terrivelmente decepcionado e triste. Devido a sua política migratória europeia, penso que a Europa está morta. A realidade política da Europa é a Frontex[iv] e a hecatombe em torno do Mediterrâneo. Seria preciso uma mudança radical, mas os partidos políticos atuais são incapazes de realizá-la. Face a esse período de transição democrática, oscilo entre momentos de entusiasmo e de profundo abatimento. Eu raramente voto, mas participarei das próximas eleições europeias. Temo a chegada massiva de movimentos de extrema-direita.

Por que você manteve Beatriz em seu nome?

Para obter minha nova identidade administrativa, meus novos documentos, passei como que por uma entrevista de emprego da masculinidade diante de um juiz espanhol. Ele me perguntou: “Você se sente bem? Você está mesmo decidido, pois não poderá voltar atrás…” Ele me disse também: “Você é muito bem-sucedido!” Com um tapinha nas costas, ele concluiu: “Meu rapaz, muito bem!” Fui recebido! Mas durante essa audiência, meu advogado pediu que eu mantivesse Beatriz. Ah não, disse o juiz, seria um nome muito ambíguo sexualmente. Nós apelamos e vencemos. Em espanhol, como em francês, o gênero, em um prenome composto, é dado pelo primeiro nome. Existe Jean-Marie Le Pen; agora existe Paul Beatriz Preciado! Beatriz deixa um traço dessa dissidência. Senão, eu estaria morto, minha dissidência trans apagada. Essa mutação foi uma das mais belas coisas que vivi. Ser trans é aceitar que se chegue a ser você mesmo graças à mudança, à mutação, à mestiçagem. É fazer a revolução dentro de si mesmo.

PAUL B. PRECIADO. Un appartement sur Uranus. Grasset, 336p. (21,50 €)

Entrevista de Paul Preciado a Cécile Daumas, publicada no jornal Libération em 19 de março de 2019. Disponível em: https://www.liberation.fr/debats/2019/03/19/paul-b-preciado-nos-corps-trans-sont-un-acte-de-dissidence-du-systeme-sexe-genre_1716157?fbclid=IwAR2Lx5MDvyu7FvM6stL3sZW-IycWH_g1y0ybQXxBhLL-AmHR44OG08GLmwI.

Tradução: Luiz Morando. Agradeço ao Fabrício Vilela a indicação

A mais recente entrevista dada por Paul B. Preciado face à publicação de seu mais novo livro, que reúne suas crônicas no jornal francês Libération. Preciado aproveita para tratar do que chama de “luta transversal planetária dos corpos vivos”.



[i] A crônica que deu origem ao título do livro foi publicada no jornal Libération em 1° de junho de 2018 e está traduzida no blog do Resista! Cf.: https://resistaorp.blog/2018/07/05/um-apartamento-em-urano/.

[ii] A grande exposição de arte contemporânea ocorre habitualmente de cinco em cinco anos em Cassel (Alemanha). Uma edição especial em Atenas aconteceu em 2017.

[iii] Movimento criado pela adolescente sueca Greta Thunberg para discutir e chamar a atenção sobre o impacto das mudanças climáticas para a vida dos seres vivos. Greta passou a faltar às aulas todas as sextas-feiras, desde agosto de 2018, para sentar-se em uma praça em frente ao Parlamento sueco e protestar por medidas concretas dos políticos contra as mudanças climáticas.

[iv] A Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas (Frontex) é um órgão da União Europeia com o objetivo “de prestar assistência aos países da EU na correta aplicação de normas comunitárias em matéria de controle nas fronteiras externas e de reenvio de imigrantes ilegais a seus países de origem”. Cf. mais informações em https://pt.wikipedia.org/wiki/Frontex.

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