Transfobia, tudo o que dói

Jessica Marjane e Lía García, fundadoras da Rede de Juventudes Trans México, compartilham conosco suas táticas de resistência a tanta transfobia. Falam sobre cuidados, despedidas e o estabelecimento de alianças como únicas estratégias para a sobrevivência.

Jessica Marjane chegou pontualmente ao Café Denmedio, que não está exatamente no meio da Cidade do México, mal é muito central. Mal tive tempo de ligar o gravador e meu bloco já estava cheio de possíveis manchetes. Meu papel se limitou a escutar. Ela tem claras todas as perguntas e cristalinas as respostas. Em poucos minutos, sua história de rebeldia já havia sido traçada. Em seu conjunto de lembranças, que compartilha com grande generosidade, pesam especialmente aquelas vinculadas a sua avó materna: “Não precisou de nenhum marco conceitual para me entender. Bastou a empatia”, conta. Ela não diz explicitamente o quanto sente falta dela, mas sua voz se altera um pouco ao falar. Foi sua avó quem abriu a porta para o significado pelo qual acabou passando o resto de sua família. Nasceu no norte da cidade, mas sua vida foi construída sobre pontes: a que a mantém entre a cidade e a comunidade indígena de onde provém sua família; a que construiu sua feminilidade baseada em suas próprias necessidades, à margem do binarismo; a que constrói diariamente para manter-se à superfície entre tanta transfobia. Estudou Direito imaginando-se advogada, cresceu sonhando-se velha, com música melancólica ao fundo, ouvindo quando a chamavam ‘joto’ (viado), evitando as provocações e os estereótipos de gênero. Rodeada de mulheres, tratada como tal, Jessica encontrou, por fim, a paz e… a transfobia. “Minha identidade como mulher trans é um desejo completamente profundo, que abarca todos os meus vínculos, minha forma de afetividade, minha memória, a forma como sonho ser narrada no futuro.”

A criança que foi e a velha que será se encontrarão no caminho com alguns problemas e com Lía García, cofundadora com Jessica da Rede de Juventudes Trans México. Ela chega um pouco mais tarde à cidade, com o atraso próprio da Cidade do México. Ouve com interesse a história de sua companheira, apesar de conhecê-la muito bem. Escuta atentamente por convicção. Lía sentiu que necessitava politizar e expandir os afetos, que emanavam de sua vida pessoal, para o tecido social, com a intenção de continuar tecendo uma nova forma de entender a raiva e o estado de emergência que se vive no México. Ela é pedagoga e exerce continuamente sua profissão. Se houvesse algum código ético ao estilo do juramento hipocrático, poucas o cumpririam tão estritamente quanto elas.

É obrigatório começar falando das que estão ausentes

O México é o segundo país do mundo em casos de crimes de ódio contra a população LGBT. O Centro de Apoio às Identidades Trans do México documentou 59 assassinatos de mulheres trans em 2017, acumulando assim 422 casos desde 2007. Os números caem no papel provocando um ruído ensurdecedor: “Você sai de sua casa e pode não regressar. É assim que funciona neste país. Nós, pessoas trans, temos que lidar com essa incerteza. Planejamos o que vamos fazer ao chegar em casa ou no fim de semana, mas sempre está presente a possibilidade de não voltar, de amanhecer na cama de um hospital, ferida em algum lugar, desaparecida. Por isso apelo tanto à política das despedidas. Você nunca sabe se depois de um tempo vai voltar a cumprimentar essa pessoa”, narra Lía. As violências que as mulheres trans sofrem no México têm muitos elementos em comum com as que as mulheres cis vivem: assédio sexual, assédio verbal, violência física e múltiplas formas mais sutis de violência… Mas atraem também certas especificidades: “A dimensão muda com uma mulher trans porque a maldade é diferente. É uma punição diferente por querer ser quem você não é para eles. Primeiro te vaiam, assoviam, depois te chamam “puta” ou “viado”, te nomeiam como você não ver ser nomeada”, explica Jessica. A misoginia, a homofobia e a transfobia sempre convivem sem dificuldade.

As duas falam tranquilamente, com firmeza, como se não fossem suas vidas que estivessem em risco, mas reconhecem também sem pudor o medo, a incerteza e a insegurança com que convivem: “As pessoas cis gozam do privilégio da certeza. Ainda assim, claro, as mulheres cis sofrem violência, mas sua identidade é exata em todo o mundo. Vocês são o estandarte. Sua identidade nunca é levada ao tribunal ou psiquiatrizada. As tomadas de decisões das mulheres cis são psiquiatrizadas, mas não sua identidade. Se você vai ao médico, é claro que vive violências, mas essas violências têm certeza de que você é mulher”, conta Jessica. Em torno das identidades trans há sempre uma dúvida, olhares que tentam adivinhar quem você é, perguntas indiscretas, comentários: “Você não parece trans!” ou “Você quase me enganou”. O grupo mexicano Banda Machos canta: “Ela me disse ‘Me chamo Raquel’ / e pensei: Será ela ou ele? / Agarrei-o e conferi. / Parei e corri”. Toda a cultura transfóbica condensada em 18 palavras, que elas sentem cada dia ao caminhar. Jessica continua: “Me dei conta de que já estava em uma transição porque a violência começava a aumentar na rua: me hostilizavam, assoviavam, os homens tiravam o pênis para mim, se masturbavam na minha frente”.

A Rede de Juventudes Trans México nasce para fazer frente a tanta violência, explorando novas formas de pedagogia, de reconhecimento mútuo, para construir espaços de paz à margem das distintas formas de violência que as pessoas trans sofrem no México. A variável ‘idade’ é imprescindível também para entender como as distintas violências se articulam: “A tomada de decisões das pessoas jovens está submetida à não certeza. Se uma pessoa jovem toma uma decisão, a sociedade duvida. Segue-se a premissa de mais idade, mais experiência. Isso é muito patriarcal e normativo. Tão normativo quanto a ideia de que as pessoas trans nascem em um corpo equivocado”, conta Lía antes de denunciar que temos “uma forma de ver o tempo muito linear. O tempo está organizado de uma forma românica. Não são valorizados outras formas de temporalidade que funcionavam aqui antes do colonialismo. É muito importante dizer isso porque na Rede também questionamos o que sucedeu no processo de colonização com as pessoas trans. A colonização trouxe o judaico-cristianismo, que pôs o pecado no corpo. Queremos falar da ferida colonial que ainda carregamos em nossos corpos. Tudo muda a partir daí: como se estrutura o mundo e suas violências a partir da ferida colonial. A história tem limitado muito, mas é importante voltar às raízes, mesmo que isso canse. Propomos um processo de busca, de reconexão e inclusive de reconciliação. Isso faz muita falta às pessoas trans.”

Em 2014, após detectar as necessidades específicas da população trans mais jovem de seu país, Jessica e Lía buscaram uma maneira de estabelecer alianças que permitiram gerar um espaço de cumplicidade, empatia e apoio mútuo. A formação em Direito de Jessica garante que todas as suas propostas busquem o cumprimento dos Direitos Humanos e supõe em si mesma uma transgressão: o campo do Direito, tradicionalmente tão masculinizado, enfrenta agora o olhar de uma mulher trans e sua vontade de traduzir para uma linguagem mais cotidiana todos esses conceitos que nos são às vezes tão estranhos.Para elas, especialmente. Lía traz novas propostas pedagógicas e de afeto para seguir caminhando: “Necessitamos que o afeto se cruze com a pedagogia para construir uma nova forma de fazer educação, que questione qual papel têm as pessoas trans dentro do sistema, sob todos os pontos de vista”. A Rede oferece oficinas de formação política, ferramentas para abordar a mudança legal de nome ou para fazer frente às detenções arbitrárias, mas também buscam favorecer processos personalizados: “Temos que ver como as pessoas trans podem se voltar para nós mesmas, como somos capazes de gerar outras redes nas quais não exista tanta violência, maneiras distintas de se encaixar para além dos estereótipos de gênero, deixar de questionar que umas formas de ativismo sejam mais valiosas que outras. Tentamos romper todas essas imposições, tudo o que tende a nos homologar, como tanto gosta a sociedade patriarcal”, assegura Lía, que olha sempre nos olhos e perfura com sua clareza. “Queremos saber – continua Jessica – como os jovens transicionam, de que necessitam, o que lhes dói, o que ocorre para além das palavras, dos discursos.”

A violência une e machuca. Por isso, a Rede de Juventudes Trans México insiste também na importância de curar as feridas. “Há feridas que podemos curar de maneira coletiva, que podemos denunciar coletivamente, feridas que sabemos quem nos causou, mas também que somos responsáveis por nossa própria cura. Isso precisa de apoio, um espaço para ouvir, que para muitas é um privilégio. Não falamos necessariamente de uma terapia que nos patologize, mas de um espaço para a escuta. Se não tivéssemos isso, não poderíamos suportar”, assegura Jessica. “Estamos em contínua resistência – acrescenta Lía – e é importante cuidar-se. Quantas companheiras não puderam contar sua versão da história porque a transfobia as levou embora!”.

Elas aprenderam a ouvir. Acreditam no potencial do silêncio para desenvolver a empatia, na articulação das diferentes lutas para fazer frente aos inimigos em comum.

A violência que elas sofrem, no entanto, nunca fez parte das prioridades das agendas feministas. “Quase antes de todas as reuniões feministas houve um debate sobre se poderíamos ou não estar como mulheres trans”, conta Lía, que assegura que o incômodo que desperta sua presença “no espaço como mulheres trans se estende também a nossos círculos feministas”.

– Como é sua relação com o movimento feminista, Jessica?

Sempre dizemos que nossas principais referências são nossas aliadas feministas. Somos feministas, mas essa foi outra transição. Não foi fácil para nós que pudéssemos assumir como somos: assim como enfrentamos a Frente Nacional pela Família, que violenta nossas identidades e corpos, também enfrentamos o conservadorismo das companheiras que se definem TERF [sigla em inglês para “feministas radicais trans excludentes]. Posicionarmo-nos como feministas nunca deixará de ser um desafio. Tivemos que transicionar também para o feminismo e isso nos custou muito, mas nos deu muita satisfação.Ao longo do caminho encontramos mulheres que são aliadas e acreditam em uma proposta diferente de construir a ética feminista, baseada na interseccionalidade, que atravessa o feminismo: O que você me traz? Com o que contribuo? Deveríamos falar mais do que nos une que do que nos separa. Mas o que ocorre é que nós, mulheres trans, somos, em todo caso, arrojadas ao transfeminismo porque como somos trans nunca se pensa que podemos estar com outras formas de feminismos. Parece que não podemos nos anunciar em outros feminismos, como os decoloniais, como todos os que surgem com Aby Ayala. Também somos movidas pelo transfeminismo, mas temos sido críticas porque este não tem que ser necessariamente branco. Muitas coisas que os transfeminismos buscam, que são exportadas, os feminismos daqui já possuem.Apostas que já estavam ocorrendo, de conhecimentos ancestrais que questionavam como se entende a dor, que falavam das feridas, de como o corpo se ressente, dói. Talvez não tenha sido da mesma maneira, mas existia. Talvez não se falasse de feminismo, mas existia a resistência. Essa diferença entre feminismo liberal ou radical, essa única divisão, embaçava outras cosmovisões. Essa categorização está sendo violenta com outras narrativas.

Os desafios ainda são muitos

– Quais desafios vocês têm daqui em diante?

– A partir da pedagogia, Lía propõe o trabalho com os homens, mas é melhor que ela mesma conte.

– Sim, temos que questionar de que maneira as mulheres trans se socializam com os homens. Nossas companheiras trabalhadoras sexuais nos ensinaram muito sobre isso. É um assunto muito forte que denota muitas violências. O que acontece quando queremos nos relacionar com um homem cis de maneira afetiva? Por exemplo, há muitas companheiras trabalhadoras sexuais trans que são assassinadas por homens cis. Deseja, mas ao final acaba matando. São poucas as histórias, e temos que dizê-lo, de homens que assassinam mulheres trans pelo fato de serem mulheres trans. O que sabemos é de companheiras que primeiro passaram por um envolvimento afetivo ou uma relação sexual e em seguida foram assassinadas.Isso está falando de muitas coisas. Daí nasce essa urgência que encontrei e reivindico através da Rede: é urgente trabalhar com a masculinidade. Parece que sempre a partir da piada, do escárnio, da exotização, se conta que nós, mulheres trans, só buscamos o desejo, o sexo ilimitado, mas temos muitas formas de nos relacionarmos e os homens têm que entender que nós podemos nos relacionar de muitas maneiras. Pode ser como trabalhadora sexual, mas também como amiga, companheira, também para compartilhar minha experiência. Falamos muito do machismo, das atitudes que os homens têm, mas temos que trabalhar com eles. Sei que é um tema que para o feminismo custa muito. É algo que abala muitas companheiras. Entendo o ressentimento que temos com os homens, que não queremos tê-los perto, mas acho necessário colocarmos o corpo ao lado deles para que eles possam se desconstruir. Um amigo maravilhoso, Fernando Fuentes, anarquista de coração, sempre me disse que o processo de desconstrução da masculinidade é praticamente impossível, que nunca vai terminar. O processo é valioso; acredito em uma aposta político-feminista e pedagógica de processos, porque não há finais. Nos espaços de ativismo idealizamos o fim, o momento em que acabará toda a violência, mas sempre estamos em um processo! Podemos transformar as coisas, mas repará-las? Alguém sempre tem a ideia de reparação, de alívio, de curar algo e, na realidade… temos que aprender a nos ver como processos, não como resultados.

Espero que o resultado desta entrevista alivie alguém.

Reportagem de Andréa Momoitio publicada em Pikara on-line magazine, em 13 de março de 2019. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2019/03/transfobia-todo-lo-que-duele/

Tradução: Luiz Morando.

Duas jovens mulheres trans mexicanas falam sobre seu trabalho de sensibilização, informação e reflexão junto a pessoas trans adolescentes, ajudando-as a pensar seu próprio lugar na sociedade, assim como lugar da masculinidade e da violência.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s