“O Chile condena a criança trans à marginalidade”

Claudia Ancapán – mulher trans, mapuche, feminista e parteira – denuncia que a nova Lei de Identidade de Gênero aprovada em seu país invisibiliza os menores de 14 anos.

O Chile acaba de aprovar uma Lei de Identidade de Gênero que permitirá a troca de nome e sexo no registro civil sem a necessidade de passar por cirurgia, a partir dos 18 anos, sendo que menores de 14 precisam de autorização dos responsáveis. A ativista trans, mapuche e parteira Claudia Ancapán (Santiago de Chile, 1976) acompanhou de perto todo o processo desde quando, em 2013, o Congresso aceitou sua tramitação por iniciativa da Fundación Iguales y OTD (Organizando Trans Diversidades). Ao longo do caminho, ele sofreu “cortes, boicotes e muitos ataques”, tantos que Ancapán já não sente aquela lei como sua e aproveita sua visibilidade nas redes sociais para denunciar a necessidade de uma nova legislação. “Com esta lei, o Chile condena toda criança trans ao sofrimento e à marginalidade”, afirma.

Ancapán chegou a defender a lei durante uma sessão no Congresso em 2014 como representante da comunidade LGTBI. Ali explicou as consequências de ser trans hoje, em um país com um elevado número de suicídios (56% das pessoas trans tentaram suicídio alguma vez na vida) e uma expectativa de vida que gira em torno de 36 anos, devido aos tratamentos aplicados para feminilizar ou masculinizar os corpos.

Daquele dia, longe de viver como um triunfo, ela se lembra com pânico: “Tinha medo de que eles me fizessem desaparecer, as mesmas pessoas que tentaram boicotar a lei e encarnam as propostas mais extremas da direita em meu país”. Ela cruzou com essas pessoas em outras ocasiões em sua vida. E ainda hoje ficaram sequelas desses encontros.

Os menores trans fora da lei

Em 28 de novembro de 2018 foi finalmente aprovada a lei com 96 votos a favor e 45 contra. Para Ancapán, sua principal contribuição foi dar respaldo legal às “pessoas historicamente discriminadas”. Para ela, esse respaldo lhe custou um processo judicial contra o Estado depois de passar por uma cirurgia de redesignação sexual. “Até aquele momento, eu não conseguia sair de meu país, como acontece com a grande maioria”, recorda.

Hoje já conta com uma carteira de identidade e passaporte com seu verdadeiro sexo e nome. Com eles, viajou a Bilbao para participar do Festival Internacional de Cinema Invisível ‘Film Sozialak’ e apresentar Claudia tocada por la luna, do diretor Francisco Aguilar. O filme documenta sua história como “mulher trans, mapuche e parteira” e homenageia a luta dos movimentos pela diversidade sexual e de gênero de seu país.

“Eu vivi presa. Sem um passaporte em ordem, não me permitiam viajar”, diz. Por isso, aproveita agora a oportunidade do filme para contar pelo mundo sua história e “conhecer outras vidas em luta”. Como aconteceu com a lei, ela deixou de sentir o Chile como seu: precisa conhecer a situação de outras comunidades LGBTI e oferecer seus conhecimentos como parteira a pessoas necessitadas de outros lugares.

De cada viagem para apresentar seu documentário em 22 festivais internacionais, ela regressa ao Chile com pena. “Vivo da esperança de todas as coisas que me resta por fazer”, assegura com a cabeça apoiada sobre suas mãos. O documentário despertou tanto interesse no público que o compara com toda a rejeição acumulada em seu país e duvida às vezes dos motivos pelos quais deve retornar: “Para o meu parceiro e para meu trabalho”.

No Chile, ela vive marcada. Em 2014, um ano depois de apresentar no Congresso a situação das pessoas trans em seu país, defendeu um doutorado em Saúde Pública na Universidade do Chile. Seu objetivo: chegar à docência com um projeto para evitar a transfobia em sala de aula. “Passei por todas as etapas e quando fui entrevistada pela banca examinadora, me fizeram a pergunta de um milhão de dólares: ‘Quem financia este doutorado?’.” Ela, sem compreender ainda hoje a pergunta, entendeu que a porta estava fechada.

Fechada também está para ela a contratação pela saúde pública chilena. Após graduar-se como parteira e obstetra pela Universidade de Valdívia, Ancapán passou a trabalhar durante três anos em restaurantes fast food à espera de resposta para algum dos currículos que enviara. “Só de ver os rostos nas entrevistas, entendia que continuaria trabalhando como garçonete. Meu próprio sindicato me virava as costas simplesmente por ser e viver minha identidade de gênero.”

Até que, um dia, uma clínica privada precisava reforçar sua equipe antes de uma greve no setor. Lá, ela trabalha agora “sob o estrito controle dos superiores”. Ela sabe que qualquer erro lhe custará sua demissão: “Todos nos olham com lupa. Em meu trabalho, sei que não posso falar: observam como uso meu cabelo, como trato os familiares dos pacientes, o que compartilho nas redes sociais durante meu tempo livre…”.

Mesmo assim, sua história é a de uma mulher trans privilegiada. “A universidade me salvou. Refugiei-me nos livros, em minha carreira e encontrei todas as respostas de que necessitava para minha identidade, meu corpo e minha sexualidade.” 95% das mulheres trans vivem do trabalho sexual em seu país, segundo a Red Lac Trans. De todo modo, também se deparou durante os anos de universidade com os fundamentalistas da direita chilena. Em 5 de novembro de 2005, na volta para casa, um grupo de neonazis a sequestrou.

Acordou horas depois espancada, estuprada e seminua na periferia da cidade. Ainda hoje, seus olhos lacrimejam quando se lembra. “As feridas do interior são as que não consegui curar. Nunca tive justiça, sempre esconderam as três pessoas que me agrediram. Precisamos de uma lei que nos proteja desde a infância, que normalize a diversidade, que nos retire da marginalidade”, reclama. É isso que ela esperava da lei que fora aprovada em seu país, após ficar retida durante cinco anos pelos partidos mais tradicionais e elevar a idade de reconhecimento legal. “Senti o mesmo pânico daquele dia quando fui ao Congresso para explicar tudo o que eu havia pesquisado sobre a realidade trans”, explica.

Claudia quer evitar esse sentimento de pânico nas pessoas mais jovens. “A adolescência trans se expõe ao não reconhecimento de seus pais, da sociedade, de seus companheiros…”, afirma. Ela foi salva por ser mapuche e feminista: “Como indígenas, já sofremos uma rejeição e, entre nós, nos apoiamos umas às outras.” Por ser mulher, também compreende sua posição contra o patriarcado. No entanto, ela reconhece que sua família vive sua realidade como um grande tabu.

Tampouco consegue esquecer que 42,5% da população trans tenha consciência de sê-lo entre os 12 e os 18 anos. E que mais da metade do total tenha tentado suicidar-se uma vez na vida, e 86% entre os 11 e 18 anos, segundo a Encuesta T, da organização OTD de 2017.

Talvez, Claudia tenha encontrado agora uma nova razão para regressar de suas viagens ilusórias ao Chile: elaborar uma nova lei que reconheça a realidade da infância trans, embora sejam necessários mais cinco anos para vê-la aprovada e que no caminho tenha que reviver feridas do passado. “Vivo da esperança de todas as coisas que ainda me resta por fazer, também no meu país. Chegará um dia em que viveremos sem medo nossas identidades de gênero”, finaliza.

Reportagem de Iñaki Makazaga, publicada em Pikara online magazine, em 27 de março de 2019. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2019/03/claudia-ancapan/.

Tradução: Luiz Morando.

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