Loucura ao seu alcance Entrevista exclusiva com Virginie Despentes, uma escritora que destoa!

Foi à margem da “escolha da Tunísia” para o Prêmio Goncourt – que ocorreu no Instituto Francês da Tunísia, onde foi indicado o romance Frère d’âme, de David Diop, para estar na corrida pelo famoso prêmio – que o encontro com Virginie Despentes aconteceu.

Presente como membro da prestigiada Academia Goncourt, a escritora rock-punk de cultura, autora de Baise-moi e Teoria King Kong, entre outros, é uma personagem emblemática da literatura francesa moderna: ela não mede suas palavras e seu percurso está repleto ora de tragédias, ora de realizações, até atingir certa maturidade.

Você tem um percurso cheio de reviravoltas. Quais etapas mais te marcaram?

Tive uma adolescência muito confusa. Fui internada em um hospital psiquiátrico aos 15 anos. Fui estuprada quando tinha 17. No mesmo ano deixei minha cidade natal para me instalar em Lyon, onde não conhecia ninguém. Foi difícil, mas ao mesmo tempo foi um período extremamente criativo e feliz, em que pude me dedicar a atividades que me satisfizeram perfeitamente, mesmo que não me trouxesse nenhum dinheiro, como organizar concertos, fazer programas de rádio. Fiz também política. Não estive na universidade, mas aprendi muito em campo, especialmente através da leitura e do cinema. Eu também emendava um frila no outro, e ainda me dediquei à prostituição ocasional. Depois, com 23 anos, publiquei meu primeiro romance: Baise-moi. Foi um grande momento que mudaria minha vida. Desde então, soube o que queria fazer para viver. Sete anos mais tarde, realizei meu primeiro filme, a adaptação cinematográfica de Baise-moi, que foi banido dos cinemas.

Como essa experiência contribuiu para alimentar suas obras?

Não podemos mudar o que aconteceu, mas podemos tentar mudar a visão que temos e o uso que fazemos disso. Não foi apenas negativo. Eu fazia parte de um movimento de rock alternativo. Eu me sentia feliz, eu me sentia no meu elemento. Isso me fez começar a escrever, sem formação, sem passar pela Universidade. E quando os livros saíram, ser um pouco capaz de compreender como eu poderia me encontrar. Eu também tive muitos encontros bonitos, especialmente, a pessoa com quem fiquei durante longo tempo, que se chamava Beatriz Preciado, hoje Paul B. Preciado, e que realmente me transformou.

Qual a sua opinião sobre sua carreira hoje?

Eu poderia ter sido filha de carteiro, passar pela universidade, mas passei pela escola punk rock. Eu era diferente dos autores tradicionais franceses e penso que isso me serviu muito, me permitiu descobrir leitores que queriam ouvir um ponto de vista diferente sobre o que acontecia. Leitores que têm as mesmas referências culturais que eu, que são como eu. Havia muito poucos autores desse gênero. Assim, pude entrar no mundo dos romances por uma portinha, e atrás dessa porta havia um público sólido.

Além de escrever, você abordou outras formas de arte. O que isso te ofereceu?

Adoro escrever, mas às vezes faz bem sair dessa solidão. Ela me convém, mas por vezes é muito angustiante estar sempre sozinha, decidir tudo o que fazemos ou o que não fazemos. Ao longo de minha carreira, pude realizar filmes, documentários. Também faço leituras teatrais etc. Mas tudo isso me faz ter consciência da potência da escrita. Não precisamos absolutamente de dinheiro para escrever um livro. Precisamos de tempo, é claro… Mas não temos necessidade de pedir autorização a quem quer que seja… É a grande superioridade da escrita.

Hoje, você está em um estágio muito mais estável de sua vida. Você teria imaginado viver assim?

Eu não podia imaginar viver como vivo hoje. Tenho uma vida muito mais burguesa, muito mais estável que há dez anos, que dizer há 30 anos!, é incomparável! Nunca teria imaginado ser membro da Academia Goncourt. Isso tem suas vantagens. Com a idade, precisamos ter mais estabilidade, conforto. Isso me dá tempo para pensar em mim, para tentar melhorar a mim mesma, para aprender coisas. Esse aburguesamento me dá essa sensação de poder me enganar, sem ser sério. É um luxo que saboreio hoje.

E se você pudesse se imaginar em outra vida?

Eu teria me recuperado tanto se não tivesse escrito? Alguma coisa poderia ter me adequado ao ponto em que a escrita me adequou? Com a liberdade que me deu? Eu mudei, não sou a mesma de há 20 anos… Canto muito mal, então não poderia ter sido cantora. (risos) Gostaria de ter sido professora, acho que poderia ter sido adequado para mim…

Uma mensagem para os jovens autores?

Escrever é uma disciplina extraordinária, que tem zero exigências técnicas: basta um papel e um lápis. A partir daí, tudo é possível. Que coisa linda que a sua decisão seja pela escrita. É muito complicado proibir que as pessoas escrevam.

Entrevista fornecida a Ayda Labassi, publicada em 29 de janeiro de 2019 no site do jornal Huffpost Tunisie. Disponível em: <https://www.huffpostmaghreb.com/entry/interview-avec-virginie-despentes-une-ecrivaine-de-choc_mg_5c4f6ceae4b0d9f9be681b88>

Tradução: Luiz Morando.

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