Rumo a um trans*feminismo

Ao longo da vida, eu me chamei ou fui chamado de uma variedade de nomes: queer, lésbica, sapatão, caminhoneira, transgênero, caminhoneira ativa[i] e caminhoneira transexual, apenas para começar. De fato, um dia, quando estava andando pela rua com uma amiga caminhoneira, fomos chamadas de bichas! Se eu tivesse conhecido o termo “transgênero” quando era adolescente nos anos 1970, tenho certeza de que o teria agarrado como a um colete salva-vidas em mares agitados, mas não havia tais palavras em meu mundo. Mudar de sexo para mim e muitas pessoas da minha idade era uma fantasia, um sonho, e como não tinha nada a ver com nossas realidades, tínhamos que contornar essa impossibilidade e criar um lar para nós mesmos em corpos que não eram confortáveis ou corretos. O termo “corpo errado” era usado frequentemente nos anos 1980, tornando-se o nome de um programa sobre transexualidade na BBC, e, por mais ofensivo que o termo possa parecer agora, pelo menos abrigou uma explicação sobre como pessoas transgêneras podem experimentar a relação com o corpo: eu, pelo menos, sentia-me como se estivesse no corpo errado, e parecia não haver saída.

Na época em que saí do armário, em 1980, algumas feministas brancas travavam uma guerra com transexuais, a quem viam como intrusos em espaços pelos quais as mulheres haviam lutado arduamente para proteger dos homens. Lembro-me de frequentar uma oficina de teoria feminista, enquanto fazia graduação, em que feministas cisgêneras queriam fazer “checagens de gênero” nas pessoas que participavam da oficina para garantir que nenhum “homem disfarçado” tentasse se infiltrar nas reuniões. Separatismo era uma coisa, e livrarias, cafés e bares de mulheres se organizavam em torno de uma política muito estreita de feminilidade. Dentro de tal clima, era duro expressar minha experiência de caminhoneira, e mesmo quando eu abraçava o senso de comunidade que o feminismo me oferecia, sentia-me confusa pela ênfase na feminilidade. No final, tive que me separar dessa versão de feminismo para abraçar minha masculinidade, e levou muito tempo para eu encontrar meu caminho de volta para uma relação significativa com a política de gênero.

De minha parte, agora prefiro o termo “trans*” porque ele mantém aberto seu significado e se recusa a entregar uma certeza através do ato de nomear. O asterisco muda o sentido de transitividade ao recusar situar a transição em relação a um destino, uma forma final, uma forma específica, ou uma configuração estabelecida de desejo e identidade. O asterisco impede a certeza do diagnóstico; mantém sob controle qualquer possibilidade de saber antecipadamente qual pode ser o sentido desta ou daquela forma variante de gênero e, talvez o mais importante, torna as pessoas trans* autoras de suas próprias categorizações.

Embora as duas últimas décadas tenham nos dado melhores condições para sermos quem somos, elas fizeram menos do que se poderia esperar para curar a relação vexatória entre feminismo e ativismo/teoria trans*. De fato, a Marcha das Mulheres do ano passado, em Washington, foi atormentada por acusações de trans*fobia. Em resposta a essas preocupações, alguns organizadores de eventos para as marchas deste ano [2018], que acontecem neste fim de semana em várias cidades dos Estados Unidos, encorajaram os participantes a renunciarem aos pussy hats cor-de-rosa, que passaram a simbolizar a marcha do ano passado, reconhecendo que a ênfase na pussy – apesar de sua inflexão irônica e divertida – excluía as mulheres trans* que podem não ter genitália convencionalmente feminina. Essas fissuras, como a marcha do ano passado mostrou, apresentam impedimentos reais às alianças políticas, tão desesperadamente necessárias em nossa época de crise prolongada.

No que se segue, analiso um pouco da história das alianças entre feministas e pessoas trans*. Através disso, chego à sugestão de que a teoria trans* contemporânea precisa redefinir os termos do debate: em vez de permanecer investidas em um conjunto identitário de conflitos que giram em torno de pequenas diferenças e feridas individuais, ativistas trans* e feministas deveriam trabalhar juntas para opor-se à imposição violenta da disparidade econômica, a um investimento renovado e aberto na supremacia branca e às ambições imperiais dos Estados Unidos, transacionadas pelos canais da globalização.

Uma vertente do feminismo antitrans* branco dos anos 1970, que encontrou sua voz mais alta em The Transsexual Empire (1979), de Janice Raymond, explica as origens de grande parte da suspeita contemporânea de feminismo dentro dos grupos trans*. O livro de Raymond era um texto profundamente transfóbico, cheio de acusações paranoicas sobre mulheres transexuais invadindo e povoando espaços “de mulheres”. A linguagem do império em seu título referia-se à maneira como ela entendia que as mulheres transexuais estavam literalmente invadindo, até mesmo “estuprando”, mulheres nascidas com o sexo feminino. Mas ela também, contraditoriamente, culpou as mulheres transexuais por serem cúmplices na produção e consolidação da feminilidade convencional.

No entanto, os sentimentos expressos por Raymond em The Transsexual Empire representavam apenas um grupo de mulheres relativamente pequeno – embora vocalizado e poderoso – na década de 1970, que também incluía Sheila Jeffreys e Mary Daly. Tragicamente, essa antipatia entre algumas feministas da segunda geração e mulheres trans* tem contornado significativamente o terreno do ativismo trans* contemporâneo, apresentando um obstáculo para a construção de coalizões nos Estados Unidos. Isso ocorreu às custas de abraçar as muitas feministas radicais dos anos 1970 e 80, como Andrea Dworkin, que não via as mulheres trans* como inimigas, que entendia a categoria “mulher” incluindo as mulheres trans* e, até mesmo em alguns casos, defendia hormônios livres e cirurgias.

Para obter uma visão mais completa do que as feministas da segunda geração menos famosas sentiam sobre as pessoas trans*, podemos nos voltar para os arquivos de revistas femininas dos anos 1970 e 80. Pode ser uma surpresa para muitos que, em uma rápida pesquisa sobre zines feministas e publicações reunidas no ONE National Gay & Lesbian Archives, da Universidade do Sul da Califórnia, encontrei várias edições de revistas dedicadas a abordagens simpáticas das experiências trans*.

Em uma edição de 1973 da revista Echo of Sappho, baseada no Brooklin, por exemplo, localizamos vários artigos sobre transição de gênero, incluindo uma carta de alguém que se identificou como um “transexual female to male”[ii] que sugeria que a revista “se inclinasse um pouco mais para os homens”. A edição também inclui uma peça intitulada The Nature and Treatment of Transsexualism: When a Woman Becomes a Man, de Mike Curie. O texto discute os privilégios e vantagens de se tornar um homem, mas conclui: “Gosto do meu status como homem, mas percebo que não preciso provar minha masculinidade transando com mulheres. Considero as mulheres como iguais e espero me tornar um homem que não as oprima.” Na página seguinte, começa um artigo intitulado “WHY WOMEN WANT TO BECOME MEN_________AND ONE WHO DID________!!!!” Nesse texto, o autor explica como fez uma mastectomia, os problemas que teve com a mudança legal de nome, sua experiência com a histerectomia e hormônios, e ainda sua experiência de quase morte no hospital, onde foi maltratado e submetido a uma cirurgia malsucedida. O autor distingue entre si e as lésbicas da seguinte forma: “Uma lésbica é uma mulher que tem prazer em ser mulher e cujo objeto de amor é feminino. Um transexual ama as mulheres, mas sente-se preso no próprio corpo feminino.” O autor claramente esperava encontrar um público simpático e interessado nessa revista, e a revista dedica um espaço considerável a sua história.

Posteriormente, encontramos um ensaio da ativista trans* Virginia Prince, que trabalhou com Harry Benjamin, sexologista pioneiro, por 15 anos. Ela relatou que, enquanto Benjamin começara sua prática com 54 pacientes alguns anos antes, ele agora tinha mil. Ambos, Prince e Benjamin, discutem financiar cirurgias de redesignação sexual através do Medicaid, e Benjamin adverte contra mudanças irreversíveis, ressaltando que “nenhum homem é 100% homem e nenhuma mulher é 100% mulher.” Um artigo final nessa edição de Echo of Sappho é escrito por um homem trans prestes a passar por uma cirurgia de redesignação sexual.

Em vez de apresentar uma posição uniforme de trans*fobia feminista, os artigos nos lembram que a transexualidade foi debatida, examinada, discutida e aceita ou rejeitada por diferentes feministas em diferentes momentos. E enquanto o discurso feminista acadêmico branco de Raymond, Jeffreys e outras pareciam comprometidos em combater os transexuais e mantê-los fora dos “espaços de mulheres”, muitas outras fontes – Echo of Sappho dificilmente estava sozinha nisso – tratavam as pessoas trans* como presença permanente nas comunidades de mulheres.

Novas discussões sob a rubrica “transfeminismo” começaram a remediar algumas dessas desconexões entre feministas e ativistas trans*. Em Whipping Girl (2007), por exemplo, Julia Serano nos lembra que qualquer nova abordagem sobre o feminismo deve ser ampla o suficiente para incluir, reconhecer e celebrar as feminilidades de mulheres que não nasceram com o sexo feminino. Não só isso, mas muitas vezes a feminilidade precária de mulheres trans* deveria ser vista como a peça central dos novos feminismos e não como a negação da política feminista. Serano escreve: “Até as feministas trabalharem para fortalecer a feminilidade e afastá-la dos insípidos e inferiores significados que a atormentam – fraqueza, impotência, fragilidade, passividade, frivolidade e artificialidade –, esses significados continuarão a assombrar todas as pessoas que sejam mulher e/ou feminino.” Reconhecendo que a feminilidade é coconstruída e co-habitada através de corpos que são masculino e feminino, trans* e cis, Serano convida não apenas para um feminismo inclusivo trans*, mas também para um que abrace ativamente a feminilidade, ao invés de deixar o conceito encalhado como sinônimo de fraqueza, dependência e medo.

O trabalho de Serano é importante porque chama a atenção para como o feminismo conseguiu tratar sobre mulheres e trabalhou duro para expor as hierarquias de gênero, mas o fez sem reinvestir na feminilidade. De fato, muitas versões de feminismo têm visto a feminilidade com suspeita, caracterizando-a como puro artifício, como teatro e, no trabalho de Judith Butler, como performance. Serano, porém, como muitos teóricos trans*, resiste à noção de que feminilidade e gênero, no geral, seja uma performance (“Se mais alguém me disser que ‘todo gênero é performance’, acho que vou estrangulá-lo.”). Embora reconheça que as mulheres trans* cocriam feminilidades com mulheres cisgêneras, Serano e outras temem que a adoção da teoria da performatividade implique que trans* não é real, material, autêntico. No entanto, essa resistência à noção de performance de gênero criou outro ponto de antagonismo que opera ao lado da divisão feminista radical versus trans* – ou seja, teoria queer versus teoria trans*.

Dentro da teoria trans*, a ideia mais influente de Butler é que todos os corpos devem se submeter às normas de gênero, mas que alguns corpos podem repetir essa norma ao ponto do absurdo, soltando-se de parte do confinamento que essas normas promulgam. Em Problemas de gênero (1990), Butler reescreveu o feminismo liberal e até mesmo partes da filosofia ocidental, fazendo do gênero-variante mulher o tema de cada um. Embora Butler alegasse que a mulher masculina é impensável no feminismo francês por causa de seu compromisso com uma concepção unificada de feminilidade e gênero, o gênero-variante mulher era igualmente impensável para a filosofia e a psicanálise continentais. Mas Butler nunca deixou implícito que a variabilidade de gênero significava flexibilidade de gênero. De fato, Problemas de gênero oferecia o gênero como local de restrição, não de flexibilidade. No livro seguinte, de 1993, Bodies That Matter, Butler respondeu a várias leituras equivocadas de seu trabalho anterior, precisamente em torno do tópico da flexibilidade, e tentou novamente enfatizar a inflexibilidade da condição de gênero, sua resistência à ação voluntária e sua disponibilidade apenas para ressignificações discretas.

Enquanto em Problemas de gênero o corpo da caminhoneira causava problemas maliciosos para todos os entendimentos estáveis da categoria “mulher”, Bodies That Matter empregou aquele corpo para criar problemas para a compreensão do poder masculino que não poderia conceber a masculinidade sem os homens. Em nenhum dos livros, entretanto, houve uma escolha de gênero; antes, era a inflexibilidade do compromisso feminino com a masculinidade que significava o espinho do lado das concepções feminista e psicanalítica do falo. Finalmente, em Undoing Gender (2004), Butler retornou aos interesses entrelaçados de transgeneridade, intersexualidade e transexualidade para argumentar que a estabilidade de gênero desempenha um papel crucial na produção da categoria do “humano”. De fato, muitos de nossos entendimentos do humano procedem e presumem a normatividade de gênero como base para outros modos de ser. Nesse livro, ela conclama pelo “reconhecimento” dos modos de ser trans*.

Apesar de sua rigorosa crítica às noções fundacionais de corpo generificado, Butler às vezes é vista como tendo opiniões questionáveis sobre a política trans*. Em particular, a ideia de Butler de que o gênero é performativo foi rejeitada por vários teóricos trans* como sendo uma negação de que algumas pessoas trans* precisam passar por cirurgias de redesignação sexual. A articulação mais complexa da suspeita transexual de Butler ocorreu em Second Skins: The Body Narratives of Transsexuality, de Jay Prosser (1998). Prosser perguntou sobre o efeito da teoria da performatividade de gênero sobre uma compreensão emergente da transexualidade. Ele também argumentou que, apesar de toda a nossa conversa sobre “materialidade” e “corporeidade”, é precisamente o corpo que desaparece dentro de teorias cada vez mais abstratas de gênero, sexualidade e desejo. Prosser ainda discorda da maneira como o corpo trans* veio a substituir a plasticidade corporal em muitas discussões pós-estruturalistas de gênero. Ele escreveu:

O alinhamento queer com a performatividade transgênera representa o sentido queer de seu próprio “propósito maior”, na verdade há trajetórias transgêneras, em particular trajetórias transexuais, que aspiram aquilo que esse esquema desvaloriza. Ou seja, há transexuais que procuram muito claramente ser não performativos, ser constativos, simplesmente, para serem.

O trabalho de Prosser influenciou enormemente, pois articulou muitas das dúvidas que os teóricos trans* sentiam sobre as conjurações queers de flexibilidade de gênero, plasticidade de gênero e performance de gênero. Essa ênfase no real para as pessoas trans* foi uma intervenção valiosa no final dos anos 1990, chegando a uma época em que eles eram frequentemente vistos na medicina e psicologia como delirantes e patológicos. E Prosser não estava sozinho em sua crítica à performatividade de gênero. Embora sua crítica a Butler fosse teoricamente densa, uma versão dela poderia ser encontrada em todos os tipos de trabalho e ativismo trans* por pessoas como Stephen Whittle, Jason Cromwell e Viviane K. Namaste. O impulso dessas rejeições do pós-estruturalismo dizia respeito a uma leitura errada da “performatividade” como “teatralidade”. Essa noção de performance teatral de si – alguns ativistas trans* sentiam – colidia com o senso de “realismo” que eles lutavam para alcançar. Naturalmente, essas leituras da performatividade dependeram de uma descaracterização prévia da performatividade como flexibilidade. A leitura equivocada de Butler nesse caminho permitiu um retrocesso trans* contra o feminismo radical e o feminismo pós-estruturalista, e o campo rapidamente ficou polarizado.

Mais recentemente, porém, a teoria trans* voltou-se sobre si mesma e, no trabalho de J. R. Latham e Micha Cárdenas, novas compreensões de “transrealidades” emergiram juntamente com um profundo envolvimento com noções de performance e performatividade. A tensão que parecia animar as primeiras críticas de Prosser a Butler foi agora dissipada pelos discursos trans*feministas, que tomam emprestados elementos de antigas narrativas trans* e da teoria de gênero butleriana. O trabalho de Latham, por exemplo, argumenta não apenas que as pessoas trans* são “reais”, mas que o próprio conceito de realidade requer uma atualização graças às normas de gênero expandidas que resultaram de uma comunidade trans* recentemente visível. O trabalho de Latham é nuançado, com base em extensa pesquisa etnográfica sobre experiências trans* com cirurgia, tratamento psiquiátrico, sexo e família. Cárdenas também se concentra em uma compreensão ampliada de “realismo” e escreveu textos sobre o que ela chama “o transreal”.

O conceito de “performatividade de gênero” de Butler, apesar de se tornar alvo de tantas críticas trans*, realmente forneceu aos teóricos trans* os enquadramentos necessários para afastar relatos essencialistas de identidades normativas e o olhar fetichizante frequentemente dirigido para corpos trans*. Em seus dois primeiros livros, Problemas de gênero e Bodies That Matter, Butler fez o trabalho filosófico pesado que nos permitiu repensar ontologias corporais separadas do conceito de um gênero estável e fundacional. Argumentando que o sexo, o material do corpo, é o gênero o tempo todo, ela propôs que os corpos são produzidos pelo discurso, em vez de serem as fontes do discurso. Uma vez que nossa compreensão da relação entre realidade, materialidade e ideologia foi remapeada de acordo com essas inversões, torna-se possível pensar em transições de gênero de uma forma em que não depende de um modelo linear de transformação, no qual um corpo feminino se torna masculino ou um corpo masculino se torna feminino. O trabalho de Butler possibilitou narrativas excêntricas sobre ser/tornar-se e afastou a masculinidade masculina do cerne de nossas investigações filosóficas. Todos nós estamos no espaço que ela criou.

Ao nos aproximarmos da terceira década do século XXI, o impasse entre o feminismo radical e o feminismo trans* ainda representa uma questão viva e urgente. Em maio de 2016, a revista Transgender Studies Quarterly, em uma edição dedicada aos “Trans/Feminismos”, apresentou um ensaio introdutório da editora-gerente Susan Stryker e da ativista de longa data e acadêmica trans* Talia M. Bettcher. No texto, Stryker e Bettcher expressam consternação com as novas formas de “reação antitransgênero” nos círculos feministas, citando o livro de Jeffreys e alguns artigos sobre Caitlyn Jenner em apoio a sua alegação de que estamos testemunhando “uma luta constante pelo ato de fala público”. Em última análise, porém, e para seu crédito, Stryker e Bettcher estão mais interessadas em delinear o trans*feminismo que emergiu de dentro dos movimentos trans* do que continuar a investir em um argumento potencialmente contraproducente com feministas como Jeffreys, que provam ser não representativas de uma nova geração de pensamento e ativismo feminista.

Stryker e Bettcher notam, por exemplo, a importância da noção de interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw para uma posição feminista emergente trans* e mencionam biografias de vários homens trans* e mulheres trans* racializados que representam trajetórias muito diferentes de não conformidade de gênero que podem implicar em um impasse entre mulheres trans* brancas e feministas brancas. A interseccionalidade continua a ser uma ferramenta muito importante em qualquer tentativa de compreender o arco histórico de relações entre pessoas trans* e comunidades feministas e queer precisamente porque, enquanto mulheres brancas eram focadas exclusivamente em questões de feminilidade, pessoas racializadas não eram abordadas com um foco singular. O Combahee River Collective é exemplar nesse aspecto, e muitos estudiosos recentemente voltaram ao seu manifesto pelo modelo que ele proporciona de organização interseccional e político lábil. Stryker e Bettcher também se voltam para a vida de mulheres trans* e da líder do Stonewall Riots, Sylvia Rivera, como evidência de uma articulação de princípios feministas dentro de um movimento de liberação trans* crescente.

Em 1973, quando Sylvia Rivera – veterana de Stonewall e cofundadora da Street Transvestite Action Revolutionaries (STAR) – lutou para entrar no palco do comício do Dia de Libertação de Christopher Street, em Nova York, após ter sido impedida por feministas lésbicas antitrans e seus apoiadores gays, ela falou desafiadoramente de suas próprias experiências de ser estuprada e espancada por homens heterossexuais predadores, com quem ela havia sido encarcerada, e do trabalho que ela e outras pessoas da STAR fizeram para apoiar outras mulheres trans encarceradas. Ela criticou a multidão por não apoiar mais as pessoas trans que vivenciaram exatamente o tipo de violência de gênero que as feministas tipicamente criticavam e afirmavam, com sua atitude característica, que “as mulheres que tentaram lutar por suas mudanças sexuais, ou por se tornar mulheres, são a libertação das mulheres”.

Como Stryker e Bettcher astutamente observam, Rivera articula uma visão verdadeiramente libertadora de feminilidade, em torno da qual, além disso, múltiplas agendas feministas poderiam se unir, sem o impasse aparentemente inevitável entre feministas lésbicas e aquelas que poderiam e deveriam ser aliadas trans*.

Notavelmente, os trans*feminismos em outras partes do mundo, como a América Latina, são menos propensos a chegar a tal impasse. Claudia Sofía Garriga-López, por exemplo, escreveu longamente sobre o feminismo trans* no Equador, o qual ela descreve como “um projeto político de base enraizado na política material” que compreende a liberação trans* como central para a luta contra o sistema patriarcal. Essa versão particular do feminismo reconhece locais compartilhados de luta entre profissionais do sexo trans*, donas de casa, chefes de gangues, punks e outros que compartilham “simetrias subjacentes”, conceito cunhado por Elizabeth Vasquez, da organização trans*feminista equatoriana Patrulla Legal.

No artigo intitulado “Transfeminist Crossroads”, Garriga-López conta a história dos compromissos e conflitos, visões compartilhadas e lealdades divididas que cercam o grupo ativista trans*feminista no Equador que tentou aprovar uma lei permitindo que as pessoas registrassem seu gênero em vez de seu sexo de nascimento nos documentos de identificação. Essa luta não terminou com o resultado desejado: embora as pessoas trans* tivessem conquistado o direito de mudar seu sexo e obter uma “identidade alternativa” especial, o grupo não conseguiu persuadir os legisladores de que a mudança do registro de gênero no lugar do sexo nos documentos oficiais deveria ser universal, aplicável a todas as pessoas. O objetivo aqui era proteger as pessoas trans* da inevitável exposição que enfrentavam quando tentavam mudar seu sexo no registro civil, em vez de ter a oportunidade, juntamente com todos os outros, de registrar seu gênero conforme suas próprias disposições. Esse direito teria sido verdadeiramente transformador e representa um objetivo amplo do trans*feminismo.

No entanto, Garriga-López frustra o movimento de base e o usa para mostrar que o “transfeminismo não é um caminho único de solidariedade de feministas não trans para pessoas trans”, mas sim que “ativistas trans têm estado na vanguarda das lutas feministas e LGBT por muitas décadas, e a categoria ‘transfeminismo’ assinala a articulação dessas práticas em um ponto de vista coeso.” Esse ponto é crucial em qualquer situação para avançar em direção a múltiplas visões trans* futuras e longe das armadilhas do conflito interno. Em outras palavras, o feminismo sempre foi articulado por ativistas trans* e o ativismo trans* sempre foi feminista. A pesquisa de Garriga-López amplia o escopo da conversa e nos lembra quão estreitas são as paisagens dos Estados Unidos e da Europa em relação a entendimentos mais globais das políticas trans*. Enquanto ativistas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Europa geralmente se contentaram em pedir “reconhecimento de gênero”, mantendo-se estreitamente dentro das políticas de reconhecimento que alimentou o neoliberalismo, como vimos no caso do Equador, o trans*feminismo, em outros lugares, articula metas muito mais extensas que não destacam as pessoas trans*, mas se estendem da experiência das pessoas trans* para todos os outros. Aqui podemos vislumbrar um trans*feminismo que une a experiência de gênero oposto a outras formas corporais que foram sujeitas a discriminação.

Nas novas paisagens de poder e dominação que emergiram no início da mudança da mecânica neoliberal de inclusão para as políticas pós-democráticas de exclusão violenta e a aplicação da homogeneidade, precisamos situar cuidadosamente as minorias sexuais e de gênero em vez de reivindicar qualquer status pré-determinado de precariedade ou poder. O objetivo de um trans*feminismo global, afinal, não será simplesmente o aumento de oportunidades para mulheres trans*, mas a criação de um trans*feminismo que funcione para todas as mulheres. Consequentemente, como os ativistas trans* tentam expandir categorias de corporificação além do binário, devemos alcançar não melhores e mais acuradas descrições de quem somos, mas melhores e mais diversas abordagens para pensar sobre gênero e pobreza, gênero e educação infantil, gênero e trabalho, gênero e prazer, gênero e punição. Vários modelos de feminismo no passado pararam bem distante da solidariedade e tenderam a concentrar-se nas reformas mais favoráveis a mulheres brancas e de classe média. Isso se deve em parte à miopia do feminismo liberal e do feminismo corporativo (inclinar-se, por exemplo) e em parte porque as “mulheres” formam uma categoria tão grande que encontrar um terreno comum é quase impossível. O trans*feminismo também não pode necessariamente superar esses obstáculos, mas pode exercer pressão suficiente na categoria “mulher” para desafiar e recusar suas tendências universalistas. À medida que entramos em uma nova era do patriarcado e racismo encarnada no presidente dos Estados Unidos, o trans*feminismo tem muito trabalho a fazer. Não é minha intenção oferecer aqui (ou em qualquer lugar) um programa claro para um mundo trans*feminista, mas acredito que, como as feministas no Equador, deveríamos operar partindo do pressuposto de que as mudanças que poderiam ser boas para as mulheres trans* acabarão beneficiando a todas.

Nota do Editor: Este artigo foi adaptado de “Trans*: A quick and quirky account of gender variability”.

Artigo de Jack Halberstam publicado em Boston Review, em 18 de janeiro de 2018. Disponível em: <http://bostonreview.net/gender-sexuality/jack-halberstam-towards-trans-feminism>

Tradução: Luiz Morando.

“De minha parte, agora prefiro o termo ‘trans*’ porque ele mantém aberto seu significado e se recusa a entregar uma certeza através do ato de nomear. O asterisco muda o sentido de transitividade ao recusar situar a transição em relação a um destino, uma forma final, uma forma específica, ou uma configuração estabelecida de desejo e identidade. O asterisco impede a certeza do diagnóstico; mantém sob controle qualquer possibilidade de saber antecipadamente qual pode ser o sentido desta ou daquela forma variante de gênero e, talvez o mais importante, torna as pessoas trans* autoras de suas próprias categorizações.” (Jack Halberstam)

[i] Nos Estados Unidos, stone é o termo empregado para a lésbica caminhoneira ‘ativa’, ou seja, aquela que não gosta de ser tocada na genitália durante o contato sexual, mas é a ativa, isto é, a que toca a parceira. No Brasil não é comum esse tipo de categorização. (N. do T.)

[ii] Preferi manter a forma como o remetente se autoidentificou na carta. (N. do T.)

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