“Os menores trans estão preparados e vêm com força.”

Eduardo Nabal entrevista Valeria Vegas a respeito de seu livro Vestidas de azul: un análisis social y cinematográfico de la mujer transexual en los años de la Transición española (Editorial dos bigotes, 2018).

Como o projeto foi gestado? Por que você escolheu Vestida de azul[i]? Como o projeto foi tomando forma até converter-se em um livro tão completo e complexo, no melhor sentido da palavra?

Bem, há um pouco da minha necessidade de leitora. Muitas vezes escrevo sobre o que eu gostaria de ler e que ainda não foi realizado. Neste caso, não existia nenhum livro que abordara como os meios de comunicação e o cinema trataram a transexualidade. Pensei em Vestida de azul porque me parecia um bom ponto de partida, sendo o primeiro documentário espanhol que abordava a vida de mulheres trans e estreado em salas comerciais. Aproveitando alguns aspectos desse filme, queria tomá-lo como base para esse ensaio.

Alguns dos filmes de ficção que você menciona são muito desiguais, com exemplos muito positivos, como Cambio de sexo[ii], de Vicente Aranda, ou surpreendentes, como Mi querida señorita[iii]. Quando o empoderamento das pessoas trans chegou ao cinema espanhol?

Bem, eu diria que ainda não chegou, porque mesmo nos últimos anos ainda houve personagens trans no cinema que não foram tratados com dignidade, sem refletir histórias interessantes. O filme de Aranda é o mais positivo porque é um roteiro estruturado para dotar de humanidade o personagem, com suas circunstâncias e problemas, não é para ser o alívio do riso alheio. Há também o fato da ótima interpretação de Victoria Abril. Em Mi querida señorita, ocorre que realmente o argumento gira em torno da intersexualidade, ou o que antes se denominava popularmente hermafroditismo. Os casos positivos são uma minoria no cinema espanhol. Quatro ou cinco no máximo.

Vestidas de azul não é apenas uma análise do documentário e do contexto social em que surge. Você acompanha algumas das mulheres trans que participaram do projeto. Suponho não ter sido sempre fácil. Como você chegou a isso?

Para esse tipo de pesquisa, é preciso muito tato, porque se aprofunda em uma época difícil para algumas pessoas que, às vezes, não querem recordar. O mesmo ocorre com os familiares delas, se levamos em conta que das seis protagonistas, quatro já faleceram. Alguns familiares não quiseram saber nada a respeito, mas outros sim, com cautela. Lembro-me do comentário muito significativo do familiar de uma delas, que de cara me disse: “Na minha família, este tema é tabu”.

A legislação foi muito lenta. Hoje existem paradoxos e contrastes entre diferentes comunidades autônomas e visões antagônicas da transexualidade. Você se arrisca a nos falar do futuro do coletivo transexual?

O que o coletivo transexual ganhou nos últimos anos foi em sororidade, que antes era quase inexistente, tal como se pode observar naquele documentário. Aprendemos que a união faz a força, portanto a transexualidade é incluída nos coletivos homossexuais, ainda que seja uma questão de identidade e não de condição. Não acho que haverá um retrocesso no nível legislativo, porque já não é uma luta unicamente do coletivo trans, mas de muitos outros políticos. Não gosto de ser alarmista com o que está ocorrendo atualmente porque é dar o queijo e a faca nas mãos de todos aqueles que têm ideias retrógradas, e realmente a única coisa que eles conseguiram foi dar sua opinião. Não vou fazer eco com eles. Todos esses menores trans, que estão chegando com força e sem sofrer os avatares de décadas atrás, são o futuro. Estão preparados e vêm com força.

Sinopse: Vestida de azul, de Antonio Giménez-Rico, foi o primeiro documentário espanhol protagonizado por seis mulheres transexuais que estreou em salas comerciais. Hoje, 35 anos depois e com a perspectiva da passagem do tempo, a jornalista Valeria Vegas analisa como os meios de comunicação e o cinema abordavam a transexualidade em uma época verdadeiramente hostil para um coletivo tão exposto como minoria.

Pelas circunstâncias que cercaram Eva, Loren, Tamara, Josette, Nacha e Renée, a autora pesquisa aspectos como a prostituição, o espetáculo, a exclusão social ou as leis opressoras. Suas vidas são também as de outras muitas mulheres para as quais nem sempre a democracia foi sinônimo de liberdade.

Entrevista publicada no site Parole de Queer. Disponível em: <http://paroledequeer.blogspot.com/2019/03/valeria-vegas-vestidas-de-azul.html>.

Tradução: Luiz Morando

“A jornalista Valeria Vegas analisa como os meios de comunicação e o cinema abordavam a transexualidade em uma época [início dos anos 1980] verdadeiramente hostil para um coletivo tão exposto como minoria.” (Eduardo Nabal)

[i] Vestida de azul é um documentário de Antonio Giménez-Rico, lançado em 1983. Ele relata sobre a vida de seis transexuais que trabalhavam nas ruas de Madri no início dos anos 1980. Cf. <https://www.imdb.com/title/tt0086536/?ref_=fn_al_tt_3>.

[ii] Cambio de sexo, de Vicente Aranda (1977). Cf. <https://www.imdb.com/title/tt0074273/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1>.

[iii] Mi querida señorita, de Jaime de Armiñán (1972). Cf. <https://www.imdb.com/title/tt0067425/?ref_=fn_al_tt_1>.

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