“A nostalgia sempre é perigosa porque evita se interessar pelas mudanças presentes, pelas lutas atuais.”

Historiador e sociólogo britânico, militante do Gay Libération Front nos anos 1970, Jeffrey Weeks é um dos pensadores incontornáveis das teorias modernas sobre as sexualidades. Ele estará em Lyon para apresentar a publicação em francês de seu livro Écrire l’histoire des sexualités (PUL).

Todos os seus trabalhos são atravessados pela ideia de que a sexualidade humana é socialmente construída. O que você quer dizer com isso?

Quando digo isso não significa que todos os nossos sentimentos e desejos sejam determinados pela sociedade. Alguns o são, outros não. As perguntas que devem ser feitas são, como estas que vemos, quais valores associamos aos sentimentos e desejos, como os conceituamos, qual ideia fazemos de nossa identidade sexual, de conceitos sexuais e da sexualidade em geral. É isso que é socialmente construído; é o resultado de influências sociais que mudam, de circunstâncias históricas, de ideias em perpétua evolução sobre o que é desejável e o que não é.

Qual é a diferença entre uma história das sexualidades e uma história das minorias sexuais?

A primeira é mais vasta que a segunda, porque ela engloba igualmente a história das sexualidades (e das normas sexuais) dominantes. Em minha obra, sempre tentei destacar que não podemos compreender a homossexualidade sem compreender a heterossexualidade. Esses dois conceitos estão estreitamente ligados e só fazem sentido em relação um com o outro; eles nasceram no mesmo contexto sócio-histórico do século XIX. Eles resultam da ideia de que só se pode apreender a sexualidade de maneira binária: a heterossexualidade e a homossexualidade, o que é normal e o que é anormal, o que é sadio e o que é desviante etc. Sem a homossexualidade, nada de heterossexualidade, e vice-versa.

Quando se escreve sobre sexualidade, o que significa praticar uma sexualidade minoritária?

Gosto de pensar que escrever a partir da posição do “outro” te dá um bom conhecimento das formas dominantes de sexualidade e de suas organizações tradicionais, tais como o casamento, a parentalidade… Compreende-se melhor tudo isso quando não somos excluídxs, porque temos um ponto de vista disso do exterior. O problema dxs heterossexuais que escrevem sobre a sexualidade é que eles e elas têm tendência a considerar a heterossexualidade como a única forma normal e aceitável de sexualidade e, portanto, nãos e interessar por suas outras formas. Eles pensam que existe uma separação intransponível entre heterossexualidade e homossexualidade, quando todos sabemos que homens e mulheres heterossexuais fazem sexo com pessoas do mesmo sexo, assim como muitos gays e lésbicas têm relações com pessoas do sexo oposto.

A França costuma gostar de se apresentar como o país da liberdade sexual e amorosa. Por que, então, demorou até 2014 para poder ler uma de suas obras em francês (Sexualités, já publicada pela PUL)? Suas obras sobre sexualidade não interessavam à França?

Com efeito, a França tem, há muito tempo, a reputação de um país aberto à sexualidade, onde se pode discutir esse tema livremente. Mas ela manifesta muito pouco interesse pela sexualidade no sentido moderno do termo, isto é, a sexualidade enquanto identidade, que é o que me interessa. Isso está indubitavelmente ligado à forte resistência que a ideia de identidades múltiplas encontra na França e que é um freio, por exemplo, à afirmação de uma identidade homossexual aberta e assumida. Em seu país, tudo é subordinado a uma identidade única, a identidade francesa. E depois há também explicações históricas. Durante longo tempo, no Reino Unido, a preocupação principal dos dirigentes era o aumento muito rápido da população, enquanto na França era seu aumento muito lento. Daí os diferentes interesses que nasceram nessa época em torno da questão da sexualidade e que persistem até hoje.

Assiste-se hoje a um retorno vigoroso de teorias (como a psicologia evolucionista, por exemplo) que tentam explicar os comportamentos amorosos ou sexuais pela biologia ou a seleção natural. Isso lhe parece ser uma ameaça para a compreensão da história das sexualidades?

O problema dessas teorias é que basicamente elas são redutoras e essencialistas. Elas alegam que podemos explicar qualquer forma de sexualidade por meio de fatores biológicos: o DNA, os hormônios, a herança genética… Mas me parece que a maneira como vivemos nossa sexualidade e nosso gênero é bem mais complicada que isso. E me parece mais interessante olhar o que mudou ao longo da História, por exemplo, porque nossas percepções de homens e mulheres, de heterossexuais e homossexuais, evoluíram. O que me inquieta com disciplinas como a psicologia evolucionista é que elas tentam sempre dar respostas simples e imediatas para fenômenos sociais extraordinariamente complexos e interessantes. Penso que tentar explicar tudo pela biologia é passar ao largo de tudo o que nos torna humanxs. Somos bem mais que nossos genes ou nosso DNA, somos criaturas sociais. Consequentemente, para compreender as sexualidades humanas, é preciso sempre levar em conta o acaso, as contingências, mas igualmente a vontade das pessoas, as decisões que elas tomam, a maneira como elas entendem levar sua vida. Um exemplo: muitas pessoas sentem desejos homossexuais. Mas nem todas expressam isso. E só podemos entender isso graças ao contexto sócio-histórico, que faz com que as pessoas construam ou não uma identidade a partir de sua sexualidade.

Quando você fundou o jornal marxista Gay Left (1975-1980), parecia evidente que o compromisso com a causa homossexual podia ser apenas de esquerda e revolucionária. Hoje, isso é muito menos óbvio… Você compartilha da análise pela qual “os gays se endireitaram”?

Não, porque mesmo nos anos 1970, quando os gays formavam apenas uma pequena minoria, nem todos se definiam como revolucionários. Havia entre nós conservadores, católicos, liberais, socialistas, marxistas… E a vasta maioria das pessoas que amavam indivíduos do mesmo sexo que o seu, quer fossem homens ou mulheres, era apolítica, não queria se misturar à política, ou era até conservadora. Assim, nesse sentido, acho que nada mudou. Mas à época, os ativistas eram muitos menos numerosxs. Hoje, centenas de milhares de pessoas pelo mundo militam pelos direitos sexuais e a maior parte delas não é libertária ou revolucionária: elas querem simplesmente viver sua vida tranquilamente. Elas se envolvem apenas quando se sentem ameaçadas, apenas quando identificam uma causa pela qual estão prontas para lutar. Isso não me surpreende. Há uma espécie de nostalgia pelos primeiros anos do movimento homossexual moderno, que recai em parte sobre a falsa ideia de que gays e lésbicas de então eram todas e todos revolucionárixs. Mas há mais militantes LGBT hoje do que nos anos 1970. A nostalgia dessa época me parece então um pouco equivocada.

E perigosa?

Sim, acho que a nostalgia sempre é perigosa, porque ela se vincula a uma idade de ouro, quando tudo era supostamente melhor, e isso evita se interessar pelas mudanças presentes, pelas lutas atuais, pelas quais seria necessário fazer aqui e agora.

Na França, há vários anos se fala da criação de um grande Centro de arquivos LGBT, mas a questão ainda por definir é saber se ele deveria ser autogerido por militantes da comunidade ou colocado sob a supervisão das autoridades públicas. Qual a sua opinião sobre isso?

Acho que se conseguirmos convencer as instituições públicas a se preocuparem com arquivos, é melhor que elas se encarreguem disso, porque elas têm dinheiro, fundos já existentes, recursos humanos e logísticos necessários. Mas a iniciativa deve sempre vir da base, da comunidade LGBT. Por exemplo, o principal fundo de arquivos LGBT do Reino Unido, os arquivos Hall-Carpenter, é abrigado pela London School of Economics (LSE). Mas ele foi iniciado por militantes e se encontrava originalmente no London Lesbian and Gay Center. Quando esse centro comunitário fechou, os arquivos se encontraram em perigo e foi apenas nesse momento que a LSE se interessou por eles. O perigo dos arquivos geridos unicamente pela comunidade LGBT é que eles sempre dependem do investimento de voluntários.

Entrevista de Jeffrey Weeks a Romain Valet publicada no site da revista Hétéroclite, em 2 de abril de 2019. Disponível em: <http://www.heteroclite.org/2019/04/jeffrey-weeks-grand-entretien-57404>

Tradução: Luiz Morando

“Para compreender as sexualidades humanas, é preciso sempre levar em conta o acaso, as contingências, mas igualmente a vontade das pessoas, as decisões que elas tomam, a maneira como elas entendem levar sua vida.” (Jeffrey Weeks)

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