“Os homens estão em crise desde que as mulheres avançaram em direção a mais igualdade e liberdade.”

Seja qual for o tempo, seja qual for o lugar, a regra parece imutável: desde que as mulheres se livraram de alguns papéis que lhes foram atribuídos, os homens se declaram perdidos, desestabilizados, em perigo… Francis Dupuis-Déri, pesquisador do Québec, desconstrói esse mito que é, acima de tudo, uma manipulação retórica para preservar a dominação masculina.

Quem escreveu: “As mulheres tornaram-se tão poderosas que nossa independência está comprometida dentro de nossas casas, ridicularizada e pisoteada em público”?Não, não foi Eric Zemmour, mas Catão, o Velho, em 195 antes de Cristo, enquanto os romanos se mobilizavam contra uma lei que lhes proibia conduzir bigas e usar roupas coloridas. O polemista reacionário constatava, em 2006, em seu livro Le Premier Sexe,que “face a essa pressão feminilizante, indiferenciada e igualitária, o homem perdeu o rumo”. Vinte e dois séculos não bastaram, portanto, para que o pobre homem encontrasse seu lugar em uma sociedade feminilizada demais. Em seu último ensaio, La crise de la masculinité, autopsie d’un mythe tenace [A crise da masculinidade, autopsia de um mito tenaz, em tradução livre], lançado na França (Éditions du remue-ménage), Francis Dupuis-Déri, professor de Ciências Políticas na Universidade do Québec, em Montréal, remontou às origens desse discurso para lançar luz sobre suas engrenagens antifeministas.

Como essa crise da masculinidade se define ao longo dos tempos?

É completamente cíclica, com uma intensificação em período de crise política ou econômica. Mas ainda tem aproximadamente o mesmo pano de fundo e é manifestada por homens que ocupam posições privilegiadas. Há cinco séculos, por exemplo, nas cortes monárquicas, na Inglaterra e na França, o rei, os bispos e os intelectuais consideravam que os homens da corte começavam a ter comportamentos efeminados. Ao mesmo tempo – e é sempre assim nesse discurso de crise –, as mulheres não permanecem em seus lugares. Elas invadem áreas que são consideradas masculinas. Isso é muito elástico: vai da moda e penteados às profissões reservadas aos homens, passando pela vida íntima e como se comportam os cônjuges. Essa crise concerne, portanto, em um dado momento, à percepção dos homens e à percepção das transgressões das mulheres. A partir daí, diz-se que os homens estão desestabilizados, em perigo, desesperados, perturbados, perdidos, porque não teriam mais um modelo. É uma retórica baseada fundamentalmente na diferença entre os sexos, que reafirma uma oposição social, econômica, política. Deseja-se, antes de tudo, reafirmar uma supremacia masculina nesses domínios.

A crise da masculinidade é, acima de tudo, um mecanismo de autodefesa para a dominação masculina?

Totalmente. Poderíamos fazer o exercício com outros discursos de crise. De maneira geral, quando dizemos que há uma crise, pedimos ajuda e identificamos a fonte do problema que deve ser neutralizada. Quando é um incêndio ou uma inundação, não há debate político quanto à natureza da ameaça, mas quando se trata de um tema social, cultural, econômico ou político, isso opõe grupos, categorias ou classes entre si. Nesse caso, portanto, os homens pedem às autoridades que ajam a seu favor.

O problema não é então a masculinidade em crise, mas as mulheres procurando se emancipar…

É um dos múltiplos registros dos discursos antifeministas. Alguns vão falar em ordem divina, que impõe tal repartição de papéis; outros terão um discurso mais nacionalista, centrado na natalidade, como na passagem do século XIX para o XX, quando, na França, as crianças eram necessárias para a próxima guerra. Pode-se também ter o antifeminismo na extrema-esquerda, quando se estabelece que o inimigo principal é o capitalismo e que o feminismo divide as forças sindicais ou operárias. Minha tese, portanto, é que a crise da masculinidade é uma forma retórica específica que se exprime quando as mulheres avançam coletivamente em direção a maior igualdade e liberdade.

Esse discurso de crise conhece uma grande variação no tempo e de acordo com os países?

Sou cientista político e, no dia a dia, trabalho sobretudo com a França, o Québec, um pouco dos Estados Unidos. Quando planejei aprofundar o assunto, fui ver os colegas da História e quis sair do Ocidente para ver o que acontece em outros lugares. E, nos dois lados, foi uma descoberta para mim, baseada no trabalho de outrxs pesquisadorxs. Fiquei completamente maravilhado com o que encontrei: isso quase sempre se repete da mesma maneira, na história e no planeta. Por quinhentos anos, no Ocidente, em épocas em que a igualdade era irrelevante, e hoje em países onde não podemos sequer suspeitar de uma tomada de poder pelas feministas, como a Rússia, o Qatar, ou alguns países da América Latina ou da Ásia, o masculino está sempre em crise. Isso pode ser quase suficiente para estabelecer que há algo falacioso aí.

Como é definida essa masculinidade em crise?

São sempre ainda os mesmos clichês e os mesmos raciocínios circulares. São imensas generalidades que buscam referências fora de contexto, quer seja Deus que nos fez assim; ou a natureza, com a caça ao mamute e a pré-história; ou a biologia, com o tamanho dos crânios. Dependendo de quem fala e onde estamos, sempre haverá uma boa explicação. E as mulheres sempre estão como desejamos que estejam: doces, passivas, atentas, atenciosas, principalmente não combatentes, porque a competição é evidentemente uma característica masculina. O que é inquietante nessa concepção é que se há um conflito entre os dois sexos, já anunciamos quem vai ganhar, já que a luta e a força estão apenas de um lado. O cúmulo do absurdo é que acabamos por associar o princípio da igualdade à feminilidade e o da hierarquia e estruturação organizacional à masculinidade. Portanto, a igualdade provoca mecanicamente uma crise da masculinidade, o que é inacreditável no nível político, e não deixa muita esperança.

Você explica que o atual discurso da crise da masculinidade nasce nos anos 1960 com o aparecimento de grupos de homens pró-feministas…

É principalmente em termos de redes e de organização que isso acontece, não são necessariamente os mesmos indivíduos. Nessa época, as feministas radicais se organizam em grupos de consciência onde elas se encontram, de maneira não mista, para desconstruir sua própria socialização. Aliás, elas começam a criticar seriamente as redes de extrema-esquerda como machistas e sexistas. Mas, nessas redes, há homens solidários que dizem “o que podemos fazer para apoiar esse movimento?”. Por efeito de mimetismo, eles vão criar grupos, não mistos, de homens muito progressistas em solidariedade ao movimento feminista. O problema é que, rapidamente, eles começam a desenvolver discursos cada vez menos solidários às mulheres e cada vez mais preocupados com o próprio umbigo. Eles começam por girar a reflexão sobre si mesmos em uma perspectiva antissexista, falando do sistema de opressão das normas patriarcais sobre os homens. Rapidamente, vão falar de suas ex, de suas cônjuges, de suas mães etc. Os homens pró-feministas vão finalmente se ver como minorias. A partir desse momento, algumas organizações começarão a falar unicamente sobre a paternidade. Em alguns congressos, acabamos tendo oficinas para encontrar um bom advogado ou um bom detetive particular destinados aos pais divorciados em conflito pela guarda de seus filhos.

Sobre o que se baseia o discurso da crise hoje?

Cada época induz problemas particulares. Em minha pesquisa, isolei quatro eixos. O primeiro é que os homens não podem mais seduzir porque as mulheres tomaram o controle da sexualidade. O segundo é a questão do suicídio de homens, por exemplo, muito presente no Québec há dez ou quinze anos. O terceiro concerne às dificuldades escolares dos rapazes, e terminamos com a questão da pensão alimentar e da guarda de filhos, o que está diretamente ligado à questão das violências conjugais. Com efeito, alguns pretendem que as mulheres “instrumentalizem” essas violências para obter a guarda e afirmam que há uma simetria na violência entre os sexos, mesmo que a das mulheres seja acima de tudo “psicológica e verbal”.

Como explicar a facilidade com que esse tipo de discurso se propaga?

Tem-se a impressão, na superfície, de que tudo isso é senso comum. As pessoas estão convencidas de que há uma crise da masculinidade. Vemos nos blogues, nos comentários de artigos on-line: são sempre os mesmos argumentos que retornam. É possível muito facilmente desconstruí-los. Sobre a educação, por exemplo, as desigualdades econômicas representam um papel muito mais importante para o sucesso que o sexo dos alunos. Descobri, aliás, uma citação de John Locke no século XVII que reclama que os meninos são menos bem-sucedidos em aprender línguas que as meninas… A respeito do suicídio, podemos voltar ao fim do século XIX e ao estudo de Durkheim, em que ele encontrava, já naquela época, uma taxa de suicídio aproximadamente três vezes maior entre homens do que em mulheres.

Você escreve que esse mito é “ridículo e risível, absurdo e falso, escandaloso e perigoso”

Eu gostaria de destacar o termo “perigoso” porque é uma palavra que eu pesei muito enquanto escrevia. Esse discurso da crise da masculinidade pode ir, em alguns casos, até a glorificação do assassinato, e de assassinatos em massa, de mulheres para se vingar da crise que elas imporiam aos homens, como acontece com os ataques, na América do Norte, aos involontary celibats, os incels[i], que vão até matar porque não teriam exercido uma sexualidade que lhes caberia por direito. É preciso também sempre desconstruir esses discursos sobre a simetria das violências, porque vemos, nos Estados Unidos, reclamações apresentadas contra abrigos para mulheres vítimas de violência, explicando que é discriminatório pois não existe o equivalente para homens, e pedindo o fim dos subsídios àqueles abrigos.

Para encerrar, você denuncia o mito e o discurso, mas você espera por essa crise?…

Se estamos numa sociedade injusta, desigual, dominadora, se queremos pôr em prática os princípios de solidariedade, igualdade e liberdade, podemos apenas esperar por uma crise. E por uma verdadeira crise dessa vez!

Entrevista de Francis Dupuis-Déri a Erwan Cario publicada no jornal Libération em 1° de fevereiro de 2019. Disponível em: <https://bit.ly/2VrKSND&gt;.

Tradução: Luiz Morando.

O cientista político Francis Dupuis-Déri pesquisa sobre a crise da masculinidade na sociedade ocidental. Nesta entrevista, ele trata dos fatores que levam a essa crise, dos embates entre homens e feministas, dos traços culturas característicos dessa crise.

[i] O último ataque remonta a 23 de abril de 2018, em Toronto. Houve 1º mortos e 14 feridos. Seu autor, Alek Minassian, publicou no Facebook uma mensagem que evocava “a rebelião dos incels”.

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