Desgoverno doutrinador e militarista

Todos os dias do atual desgoverno do capitão Bolsonaro foram reveladores do sentido falacioso da declaração de ser contrário à ideologização e à doutrinação. Foi ficando cada vez mais transparente que a ânsia por demolir o que seus filhos, apoiadores e políticos eleitos chamam de esquerdização, de marxismo cultural, de ação doutrinadora de esquerdistas, de viés ideológico nada mais é do que uma ânsia elevada à última potência de aplicar uma direitização – quer dizer, impor o militarismo (seja pela ocupação de cargos públicos por militares, seja pela adoção de estratégias baseadas na censura e na perseguição às diferenças), a defesa de ideias ultranacionalistas, a religião, as políticas restritivas aos direitos humanos e reprodutivos, o Estado mínimo (seja lá o que eles entendem por isso).

Todos esses sinais já estão sendo executados desde a posse do capitão amalucado. Sua incapacidade de liderar tal estratégia não anula sua vontade: para isso ele tem os filhos toscos, os ministros estúpidos e os políticos eleitos nas diversas esferas do Executivo e do Legislativo nacional.

A militarização do governo e de suas ações talvez seja o conteúdo mais emblemático da atual administração. Todos os ministérios receberam militares, em geral da reserva, para ocupar postos-chave, impondo uma tutela cujo resultado certamente será desastroso, tal qual a herança deixada pelo regime ditatorial iniciado em 1964. Desde janeiro, essa determinação tem sido cumprida nos ministérios da Educação (o que gerou tensão entre os feudos instalados na estrutura do órgão); das Relações Exteriores (de maneira subliminar, mas ostensiva, tal o grau de desconfiança que Ernesto Araújo tem entre os militares); da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações; da Infraestrutura. Agora, recentemente, o capitão determinou que o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, inicie um processo de militarização do órgão. Já são pelo menos 12 militares em postos-chave. A justificativa foi “acabar com o arcabouço ideológico”.

Talvez o que o capitão tenha aprendido mais rapidamente nesses pouco mais de 100 dias de desgoverno foi que a contradição não ruboriza e que acusar o outro lado de aparelhamento era da boca para fora. Afinal de contas, o aparelhamento do Estado está sendo feito com militares, 55 anos depois do golpe de 1964.

Vale a pena lembrar uma cena, poucos dias após a posse, quando o capitão declarou que devia muito sua eleição a uma conversa que tivera com o alquebrado general Eduardo Villas Boas. Naquele momento, ao lado de Bolsonaro estava o próprio Villas Boas, de cadeira de rodas e munido de respirador artificial. O recém-presidente dissera em público que, no início de sua campanha, conversara com os generais Augusto Heleno e Villas Boas sobre suas estratégias para se tornar presidente. Muito possivelmente, o apoio dos dois e a aliança que os dois formaram para conduzir o oficialato a dar suporte subliminar ao capitão durante a campanha levavam em conta esta recompensa, entre outras: o aparelhamento do Estado com militares. E ele diz que seu governo não é doutrinador, nem enviesado ideologicamente!?!?!?

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