“O racismo é uma ideologia muito potente”

María Emilia Tijoux, socióloga chilena, é especialista em exclusão, xenofobia e imigração. A acadêmica explica as origens e as razões do racismo, como ele é construído e por que o Estado o apoia. Ela detalha a situação em seu país, governado por Sebastián Piñera, um espelho da Argentina governada por Mauricio Macri. De que maneira capitalismo e patriarcado alimentam essas condutas?

Em 1975, Tijoux chegou à França exilada pela ditadura militar. Ela regressou ao Chile no final de 1989, “quando foram divulgadas as listas que autorizavam a entrada no país das 51 mulheres que haviam sido banidas”. Na França, estudou Educação Especializada, uma área que a manteve muito próxima do mundo da exclusão; fez o Mestrado em Ciências Sociais Aplicadas, na Universidade Paris XII, e o Doutorado em Sociologia, na Universidade Paris VIII. Trabalhou com meninos e meninas sem-teto e com jovens em situação de vulnerabilidade. Trabalhou em prisões, onde conheceu a “maior das exclusões”. Nos anos 1990, começou a observar a chegada de imigrantes ao Chile. Preocupou-a o tratamento da sociedade dispensado a eles. Desde então, “mais do que perguntar aos imigrantes como estão e como se sentem, interessa-me perguntar aos chilenos por que os tratam dessa forma e procurar em nós o que fazemos com quem chamamos ‘eles’, ‘elas’”, conta. María Emilia Tijoux pesquisou durante décadas a imigração, a xenofobia, o racismo, a sexualização e racialização dos imigrantes e os processos de sua desumanização. Clara em seus conceitos e argumentos, parte de seu trabalho diário consiste em compreender as raízes do abuso e as maneiras de bani-lo.

O que é o racismo?

O racismo é muitas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, o racismo é uma ideologia muito potente; por outro, uma prática que se vincula à história. O racismo está incrustado no corpo e na sociedade. Ele provém da palavra “raça”, uma palavra que, lamentavelmente, se trata de eludir. Nos círculos intelectuais, tem sido apontado que as raças não existem, que se confirmou cientificamente que nunca existiram. O termo “raça” começou a ser utilizado no século XVI, mas teve seu auge no século XIX em um sentido de “subespécie”. Hoje, não tem validade taxonômica; no entanto, permanece sendo uma marca de diferenças; e é sobre essa palavra que se constitui o racismo. No século XIX, teve lugar uma antropologia potente de estudos racialistas que conseguiram estabelecer o fato de que havia hierarquias nas “raças humanas”. Nessas hierarquias construídas no Chile, o homem branco, ocidental, dominante, estava no ponto mais alto da escala social; abaixo, estavam nesse momento os africanos e as africanas, que se convertem no polo oposto dessa dominação como objeto de trabalho, de desejo, de tráfico, exploração, humilhação, insulto; como objeto de tudo aquilo que está no lugar do maltrato mais violento que a sociedade tem sobre os seres humanos. Devemos buscar na história os desdobramentos de hoje. Não podemos pensar no racismo como um fato atual. É indispensável deter-se sobre os eixos da colônia e entender que africanos e africanas foram trazidos ao nosso continente da pior maneira, que inclusive chegaram ao Chile como serviçal doméstico, substituindo os “indígenas” que não eram suficientes em número para essa necessidade, mas depois foram trazidos como escravos nas piores condições; trazidos ao fim do mundo para trabalhar no ambiente agrícola e substituir a mão de obra. Assim, a imagem, a cor, a procedência, a condição de trabalhador não remunerado e, portanto, o lugar de um escravo, fica plasmado na história de uma sociedade. O lugar do “negro” ou “negra” vem a ser um lugar de insulto, até que o tempo passa e de repente se diz que “no Chile não houve negros”.

Quem e por que diz isso?

Durante muito tempo isso foi dito. Uma série de mitos esquece que houve senegaleses no Chile que defenderam o país, que estiveram na primeira linha na luta na guerra. Senegaleses nessa época e senegaleses em Santiago, hoje, comercializando em condições muito precárias, perseguidos, detidos, nos convidam a buscar essa gênese ou esses antecedentes que podem mostrar o que ocorre na atualidade com um imigrante haitiano ou haitiana no Chile. Além disso, não apenas as pessoas que vieram do Haiti, Colômbia ou Equador foram racializadas, mas também nossos povos. A operação muito bem planejada pelo Estado e os diferentes governos contra nossos povos tornou essa racialização naturalizada, banalizada, inclusive legitimada contra o povo mapuche, por exemplo, mas também contra as comunidades aimará ou quéchua, que reivindicam seu lugar na sociedade. E não apenas isso, mas no começo do século XX também se deram diferentes processos de chilenização.

A que se refere o conceito de “chilenização”?

Foram processos que se deram contra peruanos e bolivianos, então os donos desta terra. O termo designa um processo de aculturação das zonas ocupadas, mas administradas e incorporadas pelo Chile, após a Guerra do Pacífico (1879-1883). O governo da época, junto com civis e militares, fez um ótimo trabalho. O conceito de “chilenizar” se refere a limpar, higienizar, castigar, expulsar, pela “Pacificação da Araucânia” (1861). Ao mesmo tempo em que chilenizavam de norte a sul, pensando que precisavam melhorar a raça, convidavam imigrantes europeus a morar no território. Essas são algumas questões muito gerais para que hoje vejamos o racismo operando cotidianamente com uma série de eventos violentos de norte a sul contra homens, mulheres, famílias, comunidades, que chegaram ao Chile com diferentes propósitos.

Por que o ser humano é racista? Há algum componente de medo que explique isso?

O medo do outro como outro, isto é, como alguém que nunca poderia estar comigo, leva a comportamentos racistas porque tem a ver com o desconhecimento e, portanto, com uma distância que está elaborada a partir desses processos de racialização. Agora, medo de quê? Medo de uma história? Medo de uma cultura? De uma forma de falar, de pensar? São medos que têm sido construídos historicamente. Um medo que está colocado em diversos objetos, como os contos, que separam rainhas e princesas, brancas e lindas, de bruxas velhas e morenas, ou entre esses invasores que são bárbaros. Há uma série de elementos ensinados às crianças em canções ou ditados populares que naturalizam o outro no lugar do perigo. Por exemplo, a ideia de invasão: “nos invadem”, “invadem nossos países”, “invadem nossas escolas”, “invadem nossos centros de saúde”. O conceito de invasão aponta imediatamente para o perigo e a guerra, por isso tantos discursos de candidatos e governantes que prometem declarar guerra à imigração, como se a imigração fosse o problema. Não, o problema é o racismo.

O medo é construído?

Absolutamente, sim. Em equívocos imaginários, mitos são construídos um atrás do outro; questões que têm a ver com o que se come, como falam, com suas danças, com o que quer que seja. Questões muito curiosas que, ao mesmo tempo em que atraem, não se entenderia por que muitos optem por ir ao Caribe ou Machu Picchu de férias, para encher-se desses exotismos, mas longe de seu país. O medo do racista comum e corrente, esse que anda pela rua, tem que ser procurado no Estado.

Por que no Estado?

Na construção política que o Estado tem usado do medo para poder governar. E então, da maneira como esse medo é fundado a partir dos meios de comunicação, das imagens que se colocam em primeiro plano, dando nomes e exibindo pessoas. Penso no que faz o atual governo de Sebastián Piñera quando expulsa os haitianos, de maneira muito particular, no que ele chama de Plano de Retorno Humanitário. Preocupa-me a linguagem humanitarista que o governo utiliza. É muito complexo o racismo da amabilidade que se observa, por exemplo, quando uma pessoa fala por outra, quando pensa que esse outro não tem palavra ou que em razão de sua origem não vai se fazer entender. Muitas vezes, essas situações têm um fundo de racismo.

Quais manifestações cotidianas e silenciosas são mostras de racismo?

Há todo um comportamento através da postura corporal: olhar de soslaio, por cima do ombro, formas de olhar que humilham, hierarquizam e inferiorizam. Essa questão geralmente está vinculada à classe social. Não percamos de vista que um migrante é essencialmente um trabalhador. Em geral, a sociedade chilena fala muito bem dos migrantes haitianos, por exemplo, para dizer que são obedientes, calados, simpáticos, “o bom migrante” para explorar e maltratar. Porque então ele não vai enfrentar, não vai responder se alguém o insulta, porque se o fizer correrá o risco de ser expulso. Por outro lado, o medo tem que vinculá-lo aos sentidos: ao olfato, à audição, ao olhar, ao paladar. É nesse ponto que o medo se vincula ao corpo. O corpo fala, atua; tudo é incorporado desde a infância. Por isso digo que temos que procurar práticas cotidianas. Quando chega um imigrante, ele é olhado com desconfiança. E quando é perguntado a determinada pessoa por que olha desse modo, ela geralmente responde: “porque nunca se sabe”. Então teríamos que perguntar: ‘O que você não sabe?’. É muito interessante isso que chamo “racistas do cotidiano”, porque é muito fácil derrubar esse racismo. No entanto, não é o mesmo derrubá-lo nas políticas públicas, nem no Estado, porque o Estado necessita governar dividindo. Não há Estado que não seja racista; é necessária essa disputa no fundo.

Apenas no fundo?

Sim, principalmente entre a classe trabalhadora, de modo que haja o trabalhador que diz que eles vêm para roubar seu trabalho. O maltrato opera no fundo; não é necessário que opere na superfície. Quantas famílias são donas do Chile? Oito? Não é necessário que se dediquem a isso, nem sequer sabem o que está acontecendo. Suas férias ocorrem em outras partes do mundo; nem se tocam.

Acabei de dizer que o corpo fala. Como o corpo do migrante responde ao racismo?

Claro que o corpo do migrante também fala. O migrante traz sua forma de ser, de falar, de se vestir, sua história, traz sua cultura. Mas ao chegar como migrante e ao denominar-se desse modo, perde seu nome, seu sobrenome, porque a esse conceito de imigrante é agregado o sobrenome da nacionalidade: imigrante haitiano; imigrante colombiano. Detenho-me nisso porque é importante entender que a imigração contém o racismo. No Chile, quando dizemos imigração nos referimos apenas a sete países específicos: Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, República Dominicana, Haiti e Venezuela. Por exemplo, a argentina foi a primeira comunidade imigratória que chegou nos anos 1990, no momento da crise na Argentina. Na atualidade, há argentinos no Chile, mas não são considerados migrantes, e sim estrangeiros, quer dizer, não são comparados com um imigrante peruano em Santiago. Essa separação ideológica entre imigrantes e estrangeiros é uma questão política que coloca muitos de nossos vizinhos imediatos em um lugar negativo. A questão do corpo também é uma questão política, e no caso do racismo é facilmente percebida. Pergunto-me o que nos acontece para querermos nos desfazer do latino-americano. Isso é percebido, por exemplo, nas políticas do governo, que não tem interesse de participar de pactos imigratórios ou de acordos que existem no Sul, e, ao contrário, se preocupa em aproximar-se da Europa e dos Estados Unidos. Há pouco, o governo chileno disse que a imigração não é um direito humano. E disse também que há direito a emigrar, mas não a imigrar. A maneira como estamos atuando em nível mundial em relação a povos inteiros nos mostra todo o drama. O ano de 2016 foi marcado pelo drama espantoso no Mediterrâneo; lembro-me da imagem do menino sírio morto em uma praia; imagem que deu a volta ao mundo pelo horror que representava. Isso não parou.

Longe de parar, sobram exemplos de governos cujas políticas migratórias exacerbam a situação.

Sim. Por exemplo, o tema dos muros. Não poderíamos falar de muros como uma questão simbólica, mas é uma realidade que implica selecionar. “Selecionar”, uma palavra extremamente complicada; sabemos aonde a seleção nos tem levado na história. Alguns terão direito à vida, à cidadania, à fronteira que se abre, terão direito a serem considerados versus todos aqueles que serão selecionados de cima para baixo. A seleção de pessoas está sendo feita em nível mundial. Então, a que estaria destinado todo esse mundo que fica na parte inferior? As posturas contra os deslocamentos de pessoas ou sobre a seguridade social fazem parte de uma propaganda mundial. Tanto que os deslocamentos massivos, a imigração e a seguridade social são eixos principais de governos e candidatos em diferentes partes do mundo. Acho que temos que ter cuidado com muitos dos discursos atuais sobre virar a página, porque isso nos impede de pensar no presente à luz do que nos tem acontecido. A isso se juntam outras questões, como a loucura do consumo e o ultraindividualismo. Esse desejo infinito de ser alguém por si mesmo e o distanciamento dos movimentos sociais ou das lutas sociais têm que ser examinados muito detidamente, porque efetivamente os discursos mais fascistas geralmente são aqueles que apelam à unidade, aqueles que chamam a defender a nação, sempre com a imagem da família por trás. Por isso, acho que o problema não é Bolsonaro, o problema é por que ele se instalou e por que tem essa quantidade de seguidores. Temos que examinar o fascismo muito cuidadosamente, porque começou assim: com um monte de gente querendo ter uma nação pura, limpa, com progresso, superior, uma “raça superior”.

Há racismos diferentes?

O racismo tem várias direções. Há racismos, no plural. Penso em questões da história; questões muito antigas. Muitos textos de história falam de interesse, por razões econômicas, de ter escravos em lugar de índios. Mas também se buscou mantê-los separados para evitar que os escravos se escondessem nos povoados dos índios em um momento no qual se perseguia o cimarronaje[i]. Em todo caso, e ainda que nesse período o vocábulo não fosse usado, a exploração dos escravos era extremamente violenta. Então, com a constituição do Estado-Nação, é importante ver como o “desenvolvimento” implicava convidar imigrantes europeus, preferencialmente alemães, com o objetivo de “povoar os territórios do sul e melhorar a raça”. Há uma conotação racista no modo de tratar, de explorar, os escravos, que ainda deve ser buscado, dado que se tem invisibilizado a presença de negros no Chile; sem se esquecer que a documentação legal é a dos brancos.

Qual a diferença entre racismo e xenofobia?

A xenofobia é o medo do outro; é o momento anterior à prática racista. É claro que poderia existir um medo do outro sem que a partir daí se tivesse uma prática racista.

Você sustenta que o capitalismo e o patriarcado alimentam o racismo. De que modo?

Creio que capitalismo e patriarcado andam de mãos dadas. Capitalismo e machismo também. Somos testemunhas de lutas feministas atuais maravilhosas; no entanto, ainda há muito por fazer, porque não necessariamente todas as lutas feministas abordam o que ocorre com as mulheres racializadas, as encarceradas, as da rua, as mais pobres ou as mulheres dos povos nativos. Acho que isso ainda não foi alcançado, embora em alguns grupos haja vontade de fazê-lo. Apesar de todas as lutas que estão ocorrendo no mundo, o feminicídio e a discriminação da mulher não param. Depois de 1° de fevereiro, no Chile, foram registrados seis feminicídios consumados e doze frustrados. É necessário examinar, à luz do Estado e do governo em exercício, o que está sendo feito. Se pensamos em patriarcado e racismo, o lugar ocupado pela mulher migrante é o pior que se pode ter. Seus sofrimentos são cotidianos e muitas vezes devem ser silenciados por temor à deportação, à vigilância das instituições ou às humilhações. Por isso, muitas vezes elas repetem que “estão bem no Chile”, que “entendem os chilenos” ou que “quando se emigra tem que viver como vivem as pessoas do país onde você chegou”.

Entrevista de María Emilia Tijoux a Bárbara Schijman publicada na seção Diálogos do jornal Página 12, em 1° de abril de 2019. Disponível em: <https://www.pagina12.com.ar/184491-el-racismo-es-una-ideologia-muy-potente>.

Tradução: Luiz Morando.

A socióloga e ativista María Emilia Tijoux conversa sobre sua experiência no contato com migrantes no Chile. Ela fala sobre as diferentes formas de praticar o racismo e a xenofobia com pessoas vulneráveis dada sua nacionalidade diferente e as condições de vida nada satisfatórias.

[i] “O cimarronaje foi uma atitude dos e das africanxs escravizadxs para lutar contra o sistema escravista. O cimarronaje se caracterizava por uma luta frontal contra os escravizadores, por parte dos escravizados para conseguir sua liberdade.” Cf. mais em <http://culturaafrovenezolana.blogspot.com/2009/03/el-cimarronaje.html>.

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