O planeta morre; meu corpo chora.

Contemplamos, impotentemente, as consequências do produtivismo necropolítico e sua meta de destruição sem fim, nem forma.

Não creio que chorei tanto desde quando me tornei homem. Um homem trans. Sou um homem trans que chora. Na minha última viagem a Taipei, escondo-me no hotel para impedir que os artistas e os funcionários do museu me vejam chorar. Choro durante três horas seguidas sem poder achar consolo. Procuro as razões que possam explicar meu choro: a irritabilidade por ficar sentado em um avião durante quinze horas, a tortura física da diferença de fuso horário. Os relógios de Paris e Taipei são como dois cavalos puxando braços e pernas em direções opostas. O corpo é esticado como um arco e os olhos procuram se fechar para evitar que a luz penetre neles. Ao final, o cansaço ganha a batalha e caio como uma árvore cortada por uma motosserra de lágrimas.

No entanto, o choro não é efeito da irritação ou da diferença de fuso horário. O cansaço e o afastamento no tempo intensificam um sentimento que tem sua origem em outro lugar. Pude verificar isso novamente nesses dias viajando de Taipei a Hong Kong, e depois a Shanghai. As lágrimas surgem quando contemplo, com a distância que a jornada proporciona, a morte que, enquanto espécie, semeamos no planeta. Com a viagem, os detalhes biográficos aos quais damos tanta importância em nossa vida cotidiana tornam-se insignificantes. A viagem dilui a centralidade do nome próprio, do endereço de casa, dilui as instituições sociais, a família, o casal. Falo aqui da viagem extrema: a viagem em direção ao desconhecido, a viagem como transição de gênero, a viagem como tradução cultural, ou o que o escritor Enrique Vila-Matas chamava “a viagem vertical”. A viagem despoja o sujeito das conotações culturais e o joga no mundo como um corpo vivo.

E é meu corpo vivo que, confrontado com a morte do planeta, chora. Viajando na China e em Taiwan, fica evidente que os dois gigantes ideológicos que o século XX construiu, o capitalismo e o comunismo, já mutaram em um único monstro: o produtivismo necropolítico, isto é, um único modo de produção e de reprodução cujo objetivo é a destruição sem fim, nem forma. Choro porque compreendo que nenhuma dessas duas ideologias conseguiu inventar alguma coisa que não nos fizesse herdar sua ruína. O ar de Hong Kong é irrespirável, e, em suas praias, um nadador temerário pode encontrar apenas lixo. Espécies de animais terrestres morrerão ao longo dos próximos cinquenta anos por causa da seca. Os animais marinhos sucumbirão à ingestão de plástico e de combustível.

Durante os dias que passo em Taipei, a poluição é tão densa que não é possível ver o topo do Taipei 101, o arranha-céu de 508 metros, um dos mais altos do mundo. O 101 é tão pesado que alguns arquitetos afirmam que suas 700.000 toneladas abriram uma antiga falha geológica no solo vulcânico da ilha. Diz-se que, mais cedo ou mais tarde, ele entrará em colapso. Os engenheiros respondem que um volume de terra equivalente ao peso total da construção foi extraído para construí-lo, de modo que o 101 agora atua como uma aresta equilibrando a fenda. Seus detratores respondem que o apenas o tempo lhes dará razão: se colapsar, o 101 abriria uma brecha que engolfaria toda a cidade de Taipei. Subo ao topo da torre pelo elevador, que percorre 16,83 metros por segundo; sinto minha alma humana se destacar de meu corpo animal. Esse elevador é um instrumento tecnoxamânico para induzir a viagem vertical que provoca a dissociação entre corpo e consciência. Do topo, não é possível observar a cidade, escondida sob uma dupla camada de nuvens e de poluição. Minha alma ficou em baixo. Vejo a barriga de um avião passando pelo prédio. Meu corpo vivo está sozinho diante da arrogância humana. Choro, desta vez sem temor de ser observado por aqueles ao meu redor: talvez seja a primeira vez que eles veem um homem adulto chorar diante dessa janela. Um turista taiwanês me oferece um lenço. “Lindo”, exclama. Obviamente, ele pensa que choro maravilhado pelo progresso da tecnologia da construção. Choro porque daqui podemos observar o fim.

Desço e retomo minha consciência. É quase seis horas da tarde. Enquanto eu descia, o céu ficou quase escuro. A leste, o sol se pôs mais rápido que um elevador de alta velocidade. A cidade cinza e suja durante o dia se transforma com a noite em um videogame cheio de luzes piscantes. Minha consciência se beneficia da composição das cores e das formas de milhares de signos elétricos escritos com a caligrafia chinesa. Mas meu corpo está sempre triste. Fico meia hora na fila do Din Tai Fung e, apenas quando introduzo o primeiro bolinho em minha boca e minha língua entra em contato com a massa morna da pasta de arroz e do recheio quente de cogumelos, meu corpo começa a esquecer o que sabe.

Crônica de Paul B. Preciado publicada em 29 de março de 2019, no jornal Libération. Disponível em: <https://www.liberation.fr/debats/2019/03/29/la-planete-meurt-mon-corps-pleure_1718262>.

Tradução: Luiz Morando.

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