Mulheres da era tech levam o tabu da sexualidade pelo braço

Da educação à prática, o prazer feminino continua sendo evitado pela tecnologia e a ciência: mulheres empreendedoras, pesquisadoras e sexólogas buscam combater essa censura.

“Quando eu era jovem”, conta Mal Harrison, sexóloga americana e educadora sobre sexo e inteligência erótica, “costumava abordar rapazes e conversar sobre sexo. Isso os deixava em pânico e era muito divertido. Mas, para mim, era principalmente um teste para ver como eles reagiam. Era minha maneira de testar um rapaz que me agradava, para ver se ele poderia lidar comigo. ‘Não vamos falar sobre seu trabalho ou suas viagens. Vamos ao que interessa. Conte-me de sua melhor pegada, de sua fantasia mais secreta.’”

Estamos falando de sexo? Vagina, clitóris, ponto G, pênis: essas palavras são ensinadas na escola nos livros de ciência e em cursos de educação sexual – nos países onde há isso. Mas o ato de penetração, o conceito de orgasmo ou a masturbação estão longe de cobrir até um grama de tudo o que o sexo pode incluir.

Vamos falar de fetiches: ela gosta de sentir o cheiro de suas axilas? Ele gosta quando você lambe o interior da orelha dele? Ou falemos sobre técnica: vocês já conversaram sobre sua vagina? Sobre como o sexo funciona, sobre como te fazer gozar? Você já mostrou sua maneira de se masturbar?

Com a educação sexual, frequentemente faltam palavras, exemplos, detalhes. “Não se preocupe, você saberá o que fazer, é instintivo”, as pessoas costumam dizer em um tom evasivo, pontuado com uma risada constrangida, quando falam da primeira vez. Isso é negligenciar que o sexo é bem mais do que uma questão de instinto.

Prazer censurado

Para a comunidade inclusiva Women of Sex Tech, a educação é um dos temas mais urgentes a tratar para possibilitar relações sexuais mais saudáveis, equilibradas e livres. No período de quatro anos, a comunidade passou de 30 a 250 mulheres – chefes de empresa, engenheiras, educadoras etc. Todas decidiram tomar pelo braço a indústria do prazer, dominada desde a sua criação pelos homens.

“Há um tabu em torno da sexualidade feminina e do prazer», explica a empresária Lora Di Carlo, uma das participantes da Women of Sex Tech. “A sociedade aceita a sexualidade masculina. Os homens podem falar sobre isso entre eles. Eles são encorajados a serem sexualmente agressivos onde as mulheres são aconselhadas a serem prudentes. Tudo começa com a educação e a diferença de gêneros que criamos nas crianças antes mesmo de haver uma lacuna entre os gêneros.”

Lora Di Carlo e sua equipe puderam experimentar esse duplo discurso em janeiro passado, quando o protótipo de seu brinquedo sexual Osé recebeu o primeiro lugar na categoria drone e robôs no Consumer Electronic Show (CES) de Las Vegas… antes de ser finalmente recusado, o que se reúne à proibição de expor o produto no programa do evento.

A administração do maior evento de tecnologia mundial justificou sua decisão qualificando Osé como produto “imoral, indecente, obsceno e profano”. A desventura de Lora Di Carlo cobriu as manchetes de vários artigos de jornais: “O CES não poderia ter nos dado um presente melhor”, sorri a jovem mulher com ar de revanche. “Eles direcionaram um grande foco de luz sobre nós. As pessoas se uniram para protestar contra essa injustiça e isso desestigmatizou a conversa em torno do sexo e da masturbação. Tratar um brinquedo sexual para a saúde da mulher e da educação sexual com palavras tão negativas como ‘imoral’, ‘obsceno’ ou ‘profano’ é uma forma de censura.”

Educação erótica dos 7 aos 77 anos

Então como educar melhor para o sexo quando os lugares públicos de comunicação estão trancados? Mesmo na internet, a educação sexual é um campo minado. Tumblr proibiu o pornô em sua plataforma em dezembro passado; Facebook ou YouTube baniram imagens e vídeos explícitos de seus códigos de conduta. Uma proteção… que seria finalmente mais destinada a proteger as empresas do que aqueles que navegam porque suas medidas são facilmente contornáveis.

Um número inquietante circula muito entre professorxs e pais: em média, uma criança assiste a um filme pornô pela primeira vez aos 11 anos. “Alguns estimam ainda que é mais por volta dos 6 anos. Mas, na maioria das vezes, é porque as crianças são expostas por adultos: o computador ligado de um vizinho, um clique desajeitado, uma aba já aberta ou um link no histórico”, comenta Mal Harrisson.

Para a sexóloga, é impossível evitar o fenômeno hoje. Então, mais do que temê-lo, é preferível se munir com boas armas retóricas para tranquilizar a criança. “É preciso criar um espaço para falar sobre sexo”, acrescenta Mal Harrison. “O sexo vai muito além de nossos simples órgãos genitais e de onde é necessário colocá-los. É sobre o mundo e nossa relação com ele. Não falo de vaginas ou de pênis. Falo de ensinar empatia, consentimento, para que mais tarde não se envergonhem de seus corpos, de seus desejos.”

Mal Harrison chama isso de “inteligência erótica”. Uma matéria diferente da educação sexual, mas também muito importante porque aborda a parte emocional ligada ao sexo.

“Aliás, isso não se refere apenas ao sexo”, ela explica. “Isso passa por ações do cotidiano: ‘Se você quer fazer carinho em seu tio, pergunte-lhe primeiro se você pode acarinhá-lo.’ Porque podemos fazer de um simples carinho um momento de aprendizagem para a criança.”

Ultrapassar o tabu

Mas antes de educar as crianças, é necessário educar os pais. Na internet, as fontes de informação destinadas a eles começam realmente a se estabelecer e a encontrar seu público: podcasts, canais no YouTube, coachs etc. Entretanto, um único site é unânime: OMGYes [https://www.omgyes.com/pt/] que, com assinatura e a ajuda de vídeos didáticos, explica às mulheres como ter prazer e como funciona seu aparelho genital.

Lora Di Carlo prega, sem surpresa, o uso de brinquedos sexuais para aprender a se descobrir e lembrar que “seu próprio corpo nunca está sujo”. “Seria necessário que os adultos percebessem que todas as vulvas são diferentes”, acrescenta ela. “Nos livros escolares de anatomia, há uma página sobre a vulva, outra onde se veem os ovários e as trompas e um segmento da vagina. Depois, viramos a página e temos centenas de informações sobre o fluxo sanguíneo masculino e como os homens são excitados. Os diagramas dos pênis são cheios de detalhes.”

Ora, para ensinar é necessário ter todas as cartas nas mãos. A pesquisa sobre o prazer feminino é bem menos desenvolvida que a do prazer masculino. “No nosso meio, a maioria das pessoas que trabalham com sexo é formada por homens”, testemunha Emma Zhang, pesquisadora do coletivo Sex and Love with Robots. “É importante que mais mulheres contribuam com a pesquisa – para compreender nosso corpo, mas também sobre como desenvolver brinquedos sexuais ou robôs para o prazer feminino.”

A dor, uma zona de sombra

Mal Harrison acrescenta: “De um ponto de vista técnico, a excitação de um homem é necessária para que ele ejacule e possa deixar uma mulher grávida. É também por isso que a indústria médica não estudou o prazer feminino tanto quanto o masculino.” Assim, durante uma cirurgia de cólon, conectam o paciente a um monitor para conservar todas as funções do pênis, enquanto submetemos as mulheres a uma histerectomia cortando os nervos – e não há realmente nenhum estudo do que pode ser danificado.

De fato, o sexo e a dor permanecem completamente opacos aos olhos da pesquisa. Emily Sauer criou OhNut, um anel que é colocado na base do pênis para gerenciar o grau de penetração e evitar ferir suas parceiras. Ela observou, por meio de uma pesquisa no Google Analytics, que 25% das perguntas ligadas a sexo estavam relacionadas a “viagra e impotência” e 70% a “dor durante o sexo”. “É algo sobre o que falamos muito pouco”, relata Mal Harrison. “Uma paciente me perguntou por que doía se masturbar agora que ela estava na menopausa. E percebi que isso era algo sobre o qual eu nunca havia estudado.”

Sim, quando se está velho, não paramos de transar. Afinal, a segunda maior epidemia de doença sexualmente transmissível nos Estados Unidos ocorreu em uma casa de repouso na Flórida. Uma notícia que nos lembra que a educação sexual e erótica é uma etapa necessária a todas as idades – e diferente em todas as idades.

“Isso vale para mulheres e homens”, defende Mal Harrisson. “O que fazemos quando o viagra ou o trimax não funciona mais? Para as mulheres, as paredes vaginais se deterioram e, às vezes, é necessário reestudar completamente quais ângulos, quais posições permitirão encontrar relações sexuais satisfatórias.” Em suma, ainda há trabalho para todo mundo, em todas as idades.

Artigo de Ophélie Surcouf publicado no site Slate.fr em 30 de abril de 2019. Disponível em: https://bit.ly/2GPU5Js.

Tradução: Luiz Morando.

Mal Harrison e Lora Di Carlo relatam um pouco sobre suas pesquisas a respeito do prazer erótico-sexual das mulheres, da necessidade de se falar sobre isso dos 7 aos 77 anos e da importância de desenvolver ações de educação sexual e de inteligência erótica.

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