Saiam do armário!… e renunciem à sua discriminação.

Meu entorno heterossexual me encoraja a “contar a verdade sobre mim” como lésbica. Essa narrativa põe a responsabilidade sobre nós que assumimos sexualidades dissidentes, evitando a violência real que enfrentamos. E isso me lembra de quando, ainda menina, eles me forçaram a confessar.

Nos últimos meses, pensei na ideia de compartilhar (ou não) com minha mãe sobre minha sexualidade dissidente. Contar-lhe que sou lésbica, que minha sexualidade me faz me sentir plena e orgulhosa de haver rompido com o sistema heteronormativo. Mas quero ter a certeza de que contar ou não contar seja uma decisão minha, realmente livre. E que essa decisão será para compartilhar parte de minha vida; contar-lhe meus amores e minhas tristezas; pedir e receber seus conselhos; ter liberdade, como minhas irmãs, para levar minha companheira e ela ser reconhecida e acolhida como tal, meu amor.

A pressão social exige que eu “saia do armário”. Algumas companheiras e pessoas de minha família, em sua maioria heterossexuais, falam sobre “sair do armário”, sobre “dizer a verdade sobre mim”. Essas narrativas não deixam de ser heteronormativas, porque põem a carga e a responsabilidade sobre mim e sobre as pessoas que foram capazes de questionar o sistema. Além de evitar a violência real que existe sobre as pessoas que assumem sexualidades dissidentes.

Uma pessoa heterossexual me dizer “saia do armário” é completamente sem sentido. Ela não entendeu nada. Você realmente acha que sair do armário é uma liberação para viver plenamente minha sexualidade lésbica?

Eu sinto mais como quando você é forçada a confessar quando criança. Tenho que confessar minha sexualidade proibida? Penso que a expressão “sair do armário” pode ter conotações de “confissão da sexualidade” um tanto ilegais, clandestinas ou ilegítimas; que tem que se revelar à sociedade de maneira similar a quem cometeu um delito, tem que se apresentar ante um juiz para declarar-se culpado, expor-se. Como quem se ajoelha em um confessionário, relata seus pecados e pede perdão. Em ambos os casos, há pena, penitência, castigo. Culpa por algo que te faz mal, que está mal… teus desejos, tua sexualidade.

Na maioria dos casos, “sair do armário” é abrir a porta para expor-se à violência, é sofrer e lidar com comentários ofensivos de pessoas que você ama, tratamentos “corretivos”, piadas (in)ofensivas, demissão ou segregação laboral, violência, violações corretivas e até assassinatos. Muitas mulheres lésbicas com quem cruzei o caminho decidiram sair do armário. Depois disso, muitas delas viveram expostas a esse sistema violento e decidiram deixar de lado seus desejos, “deixar de sê-lo”. Renunciaram a seus desejos para não serem violentadas. Isso não é uma decisão livre. Talvez “sair do armário” tampouco o fosse.

Sair do armário na família, no trabalho ou publicamente em uma sociedade lesbofóbica que discrimina, violenta e magoa, pode ser o processo flagelante e bem merecido de “purgação de pecados”. Essa violência social é a penitência, talvez até o remédio, que trata de “corrigir a sexualidade através das violências sociais”. Como no direito criminal, a pena poderia “corrigir o comportamento, reformar, reinserir”.

Obviamente, há muitas histórias diferentes, e por sorte muitas têm finais mais felizes que o exposto aqui. Mas isso também é real, por isso estou questionando a “narrativa social sobre sair do armário”. A narrativa que me cerca.

Minha pergunta é: quem está no armário? Quem tem que sair de um lugar escuro onde não pode ver a realidade social que tem diante de si (ou por trás da porta)? Temos que fazer novas perguntas se quisermos caminhar em direção a sociedades mais inclusivas e respeitosas dos direitos humanos, se quisermos caminhar em direção a sociedades mais livres.

No armário – esse lugar escuro do qual você não pode/quer ver o mundo – está o patriarcado com suas forças religiosas, capitalistas, racistas, moralistas e pseudocientíficas. Essas forças que durante anos, milênios, nos têm imposto sobre o corpo bloqueios, camisas de força… formas de querer, de ser, de desejar.

No armário estão sociedades e pessoas que não se atrevem a questionar o aprendido, a questionar suas ideias e concepções sobre o outro, sobre o diferente, aqueles que não se atrevem a olhar de verdade para os que estão ao seu redor. No armário estão aqueles que pensam que sua “normalidade” é superior ao resto, que ainda conservam um pensamento escravizado ao “que está escondido no armário”. A lesbofobia da sociedade está no armário, ali onde esconde seu ódio, seu asco, sua intolerância e imposição.

Saiam do armário, estou fora dele há muito tempo. Não estou na escuridão. As pessoas que não querem ver a diversidade sexual que impregna a sociedade são aquelas que estão em um lugar escuro, em uma caverna. Não tenho que sair para “confessar” e “dizer minha verdade”. Quem tem que assumir responsabilidades é a lesbofobia normalizada, é quem tem se calado ante a violência cotidiana contra a diversidade sexual.

Saiam do armário: há muito tempo estou livre, livre em meus pensamentos, livre em meus sentimentos e livre em minha sexualidade. Sou livre em meu corpo, meu primeiro território e instrumento político. E sou livre também para decidir com quem quero compartilhar minha sexualidade dissidente.

O armário não é meu, é da sociedade. Não está em meu corpo, está em minha casa, está nas ruas. Eu não tenho que sair de lugar nenhum.

E você, de que lado da porta está?

Depoimento de Fátima Gamboa publicado em 24 de abril de 2019 na revista Pikara online magazine. Disponível em: <https://bit.ly/2ZX1cbB&gt;.

Tradução: Luiz Morando.

Fátima Gamboa, mulher indígena maia e lésbica, dá um depoimento no qual inverte a questão: quem precisa sair do armário são as pessoas lgbtfóbicas. “O armário não é meu, é da sociedade. Não está em meu corpo, está em minha casa, está nas ruas. Eu não tenho que sair de lugar nenhum.”

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