Casamentos e algo mais

Quase meio século após a publicação do primeiro volume da História da sexualidade, no ano passado, a Editora Gallimard trouxe à luz e colocou à venda o volume que faltava: Les aveux de la chair [As confissões da carne, em tradução livre, ainda sem previsão de publicação no Brasil], de Michael Foucault. Publicado em espanhol pela Siglo XXI [Las confesiones de la carne] e com prólogo de Edgardo Castro, este livro permite organizar aquela história de acordo com várias coordenadas. O primeiro volume inaugurava a relação entre sexualidade e poder; os dois seguintes, os vínculos entre o eu e o outro como seres sexuais. Agora, o último volume aponta para o casamento, a ereção, a virgindade e a confissão para abordar a sexualidade e sua regulamentação, sua ordem e sua institucionalização.

Mesmo depois de morto, mesmo após exigir que não se fizesse nenhuma publicação póstuma, Michel Foucault segue publicando. Ele próprio havia se preocupado com o tema quando apontou que não havia uma teoria da obra contra a qual se poderia pensar em estabilidades como aquelas que, por exemplo, um projeto de Obras Completas busca. Meio século depois de tal declaração, isso ainda não existe. O que é texto? O que é rascunho? O que é arquivo? São perguntas que não têm uma resposta definitiva e sobre as quais os pesquisadores avançam tomando decisões para cada objeto específico. Os problemas sobre o que poderíamos nomear uma obra completa se expandiram ao longo desses anos; ninguém foi capaz de sufocá-los. Por outro lado, esse volume 4 da História da sexualidade foi anunciado, desde a primeira biografia do autor, a de Didier Eribon, como uma obra quase concluída no momento da morte de Foucualt, em 1984, com o mesmo título com que foi finalmente publicado, Les aveux de la chair.

De qualquer forma, se algo não falta neste final dos volumes sobre a História da sexualidade é seu sentido de oportunidade. Se nos últimos anos vimos proliferar os discursos sobre a sexualidade, seu potencial, sua repressão e sua produtividade, ainda não tivemos uma só palavra dos três volumes anteriores que possa ser refutada ou continuada. Completado agora o projeto que ele havia anunciado, e que havia sido truncado por sua morte prematura, certamente será a oportunidade de um equilíbrio sobre os efeitos da leitura.

O Foucault que não ouvimos

No primeiro volume, Foucault se ocupou de descobrir a “boa consciência”, que ditava que havia uma “repressão” da sexualidade, e fez esta distinção: a repressão é exercida sobre os corpos, mas não tanto sobre os discursos, que não param de falar sobre o tema e de filtrar a “sexualidade” em todas as práticas sociais. Esse impasse da cultura vitoriana, que faz proliferar os discursos, reprimir os prazeres e condenar os desvios, segue intocado na estrutura das instituições como se nada houvesse sido dito. As instituições usam a palavra “poder” como se nada tivesse sido debatido sobre o tema, e castiga indivíduos como se não soubesse até que ponto é o próprio estado que necessita, promove e recompensa os punidores espontâneos e vigilantes, para confirmar sua soberania, seu lugar de verdade e sua “imparcialidade” ao olhar para os corpos e agir sobre eles.

Até mesmo os debates sobre os processos de institucionalização da sexualidade e sua capacidade de produzir “sujeitos sexuais” (o homossexual, o casamento, a juventude sexual), dos controvertidos dois últimos volumes, ainda não foram pensados na prática. Em vez disso, onde a libertação apareceu com relação aos anos em que Foucault escreveu, eles foram evaporados em uma série de debates que contém críticas a sua obra. O casamento como núcleo de saber sobre os corpos e limite da sexualidade, neste nosso século XXI, foi pensado como liberação e construção de um tipo de sujeito (o cidadão) cujo processo de formação tem tantos problemas que pensar nisso como aceitação é quase uma trivialidade, por exemplo.

Estamos tão acostumados a que a sexualidade seja sempre uma espécie de alteridade que nos desafia, uma exterioridade interiorizada (a sexualidade fetichismo, a sexualidade mercadoria, a sexualidade doença, a perversão, a sexualidade medicalizada, a sexualidade decoração de interiores, a sexualidade moda etc. até o infinito), que quase perdemos esse primeiro momento sombrio da humanidade, talvez cheio de juízo e de avaliação em que se desencadeou aquele primeiro mistério e sua consagração: a sexualidade e sua linguagem. E agora unidos – a ação e a prática que a organiza, a teoria e prática –, então podemos pensar em ordem, em ordens, categorias, classificações, saberes, lugares de desenvolvimento e, sobretudo, limites.

O casado quer casa

Les aveux de la chair, último volume da História da sexualidade, remonta às origens da ordem da sexualidade anterior à Igreja, trabalha esse período em que a Igreja começa a construir-se. Parte de onde havia parado nos volumes 2 e 3 para ir um pouco mais além. A partir daquele momento em que a questão para a sexualidade era uma negociação entre o eu e o exterior, agora o problema é a institucionalização prescritiva da verdade sexual. Os pais da Igreja, esse grupo de filósofos entre o paganismo e a conversão católica, estabeleceriam as doutrinas que, no século II, formariam a instituição “igreja” e, sobretudo, essa mistura de instituição, organização e libidinização dos vínculos que se chamou, a partir daquela prescritiva, casamento. Foucault está interessado em observar como se constituiu esse modo de convivência humana que teve tantas formas, mas que chamamos insistentemente casamento; como esse vínculo de amabilidade e simpatia entre os parceiros ao mesmo tempo se constitui como único lugar legítimo para a procriação e desqualifica o prazer como parte de suas características fundamentais. O casamento e suas leis, diz Foucault, têm um escopo privilegiado de sanção: a confissão é o lugar fundamental, por mais vagas que tenham sido suas normas, onde aquelas leis são postas à prova. Embora o instituto da confissão tenha sido regulamentado e reforçado no Concílio de Trento, a ideia existe na própria origem da Igreja e do casamento. É o instrumento perfeito para permitir a falta, gerar a culpa, provocar o desdobramento do eu (agir mal, dizer bem).

Mas também, e muito mais importante, a confissão trama na história o primeiro lugar onde o sujeito se desdobra em uma figura nunca vista antes: aquele que pode desobedecer a lei (quer dizer, quebrar a promessa, romper o vínculo com a sociedade) mas imediatamente, e talvez pela mesma razão, confessar o erro, submeter-se a seu próprio exame, confrontar-se com esse outro eu, que é o que obedece e sustenta o laço social. Isto é, o casamento e suas leis criam esse monstro bifronte (que somos todos) e que não engana nem se engana no momento da confissão, mas sabe como trapacear no momento do ato. Essa duplicidade que constrói a identidade, ao mesmo tempo em que a fratura, é o domínio da sexualidade.

Além dos laços que se rompem no casamento, o livro explora os que se fortalecem. Acima de tudo, o da virgindade. Para pensar a virgindade como problema da higiene, da parentalidade, isto é, da economia e da formação espiritual, Foucault se preocupa com o modo pelo qual essa promessa foi transformada em uma parte do respeito pela natureza (e não seu contrário) e, por outro lado, um valor positivo, não meramente restritivo. A virgindade é o trabalho necessário para que o sujeito “faça” algo, não para que deixe de fazê-lo. De modo que se converteu em um processo de subjetivação durante o qual o sujeito está em estado constante de autoexame e, portanto, em uma técnica, em uma arte de viver. Por isso, a virgindade, como se afirma em torno da bibliografia que a regula, no processo de construção da Igreja, como forma da disciplina, é também um fato admirável, desejável, construtivo.

Essa arte, que é uma técnica sua e que, sem dúvida, se tornará, ao longo do tempo, uma arte de viver no casamento, para Foucault é um ordenamento dos limites. Lembremos que até o final de sua vida Foucault havia abordado os ensinamentos de certas religiões orientais, como o Budismo e suas formas para pensar a serenidade e a observação de si. Por isso, o casamento é uma instituição para pessoas sérias, mas que ao mesmo tempo criou seriedade sexual e estabeleceu os lugares de onde é falado. Nada mais fora dessa época em que não há a possibilidade de pensar um espaço onde a sexualidade não seja tema de conversa, exame, debate. Este é o livro de um filósofo que apoia o índice exatamente no lugar do mapa onde o debate enlouquecido daquilo sobre o que não podemos parar de falar começou.

Reportagem de Ariel Schettini publicada no jornal Página 12 em 3 de maio de 2019. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/190765-matrimonios-y-algo-mas

Tradução: Luiz Morando.

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