“Sou um dissidente do sistema sexual.”

Inteligente, sagaz e rápido, o filósofo da palavra feita corpo publica Un apartamento en Urano, uma coletânea de ensaios. Nesta entrevista, ele fala de sua crítica à diversidade e da arte.

Vejo-me como um ser absorvido, à minha revelia, pelo sistema patriarcal e o capitalismo big data, e aqui estou plantada como um pinheiro na praça de mesmo nome (bairro gótico de Barcelona) esperando Paul B.(de Beatriz) Preciado. Filósofo, curador, ativista queer, dinamitador do estabelecido, armado com a palavra escrita com seu corpo como caderno. A partir de minha condição como integrada, não sei se vou encontrar um homem ou uma mulher, nem que aspecto terá, ainda que o tenha visto em fotografias, porque Paul B. muda constantemente de pele e espaço e acaba de declarar-se cidadão de Urano. Como ele ou ela tampouco me conhece, e chuva e frio, raios e trovões esculpem o céu implacável 10 graus a menos que ontem, decido ficar no meio da praça vazia de turistas amedrontados e abrir meu guarda-chuva de coral chinês fosforescente. Espero cerca de uma hora e começo a temer o pior quando uma mensagem aparece em meu telefone com um endereço.

Descubro-o no fundo do bar com uma xícara de chocolate quente e uma maleta tipo baú. Paul B. Preciado (Burgos, 1970) acaba de publicar em espanhol Un apartamento en Urano. Crónicas del cruce (Anagrama) após vender milhares de exemplares na França, ao mesmo tempo em que é traduzido para uma dezena de línguas. Ele conta toda a vida uraniana nesta coletânea dos artigos que escreveu para o jornal Libération, mais um suculento prólogo de sua ex, a escritora Virginie Despentes, e uma prolixa introdução. Nós contamos tudo em quase duas horas de entrevista. Inteligente, sagaz, rápido, genial, o filósofo da palavra feito um corpo desajeitado sob um casaco escuro e de rosto anguloso com olhos azuis. Tento pôr ordem nessa luta “somatopolítica“.

Você elege o corpo como caderno onde escrever seu postulado filosófico, sua crítica à identidade?

Em 2005, comecei a me aplicar uma dose limite de testosterona e durante nove anos transitei por um gênero fluido autoexperimentando com a escrita. Foi um processo voluntário de intoxicação a que chamei Testo junkie. Foi minha forma de dissidência ao protocolo médico-jurídico a partir do qual você é declarado disfórico de gênero e, portanto, doente mental. Em 2014, decidi passar a outra dose, entrar em um protocolo médico [fiz isso em uma clínica norte-americana] e assumir a responsabilidade política. Cruzei a fronteira da mudança de sexo legal como um projeto de arte conceitual, mas, sem dúvida, os hormônios te marcam politicamente.

Por que você entende a transexualidade como um ato político por definição?

Porque a diferenciação sexual é uma epistemologia política como a raça: não são realidades empíricas. O sexismo é uma prática histórica de diferenciação e taxonomia hierárquica entre corpos, quando na realidade o que existe é uma multiplicidade infinita de corpos irredutível ao sistema binário. Assim como a raça é uma invenção científica da modernidade para justificar a colonização – mas o que há, naturalmente, são milhões de tons de pele e diferenças –, o objetivo da noção sexual binária é segmentar a população em dois nichos biológicos de reprodução, estabelecendo normativamente a heterossexualidade como núcleo familiar. Mas esse paradigma entra em crise nos anos 40 porque a medicina constata que existem variações genéticas, morfológicas e cromossômicas, e assim nascem a inter e a transexualidade, para impor operações e hormônios e reconduzir os corpos ao binarismo legal.

Você aprendeu, como aluno de Jacques Derrida, que a filosofia não é um tratado, mas uma forma de vida?

Não, aprendi isso com o feminismo. Nos anos 90, fui uma lésbica radical, de guerrilha, e escrever nessa linguagem no âmbito universitário aqui era impossível. Por isso, fui estudar nos Estados Unidos, onde aprendi com Derrida que a mais importante de todas as tecnologias é a escrita: é a ação direta. Como filósofo, reivindico que deixemos de pensar na identidade, que é a ideologia imposta pelo capitalismo da modernidade para justificar a hierarquia. Somos sociedades patologicamente obcecadas com a identidade: só vemos raça, nacionalidade e sexo. Reivindico o corpo vivo como cidadão absoluto da Terra para além de qualquer identidade, inclusive questiono a diferença entre animal e humano. Além disso, creio que estamos vivendo uma mudança de paradigma semelhante apenas à revolução copernicana e à invenção da imprensa. A inteligência artificial, a bioimpressora e a internet supõem um golpe tão grande ao saber supostamente científico, que temos passado de uma regulação tecnocientífica e estatal a outra neoliberal ou de mercado.

O medo do mercado e da política é o novo modo de saber o que essa nova onda reacionária e neoliberal nos trouxe?

Há dois processos. De um lado, temos uma mudança de paradigma de tal profundidade ética que, como não a levamos a sério, será a última: nunca antes a sobrevivência do planeta esteve em questão. Chamo isso de transição, porque quando comecei a fazer a minha, me dei conta de que não era eu, mas o planeta que mudava. Vejo-me a mim mesmo como um sismógrafo corporal dessa transição biotecnológica dos lugares de onde se produz o valor e o saber em todos os sentidos. De forma paralela, dá-se uma multiplicidade de revoluções micropolíticas de corpos que não foram considerados historicamente humanos, começando pela minoria das mulheres, que são a metade da população, as pessoas com diversidade sexual e funcional, com deficiência, as pessoas com sofrimento mental etc. 99% da população reivindica o estatuto de viventes.

Quer dizer que não é você quem elege o corpo como caderno, mas é o corpo quem pede para sê-lo? Você não decide mudar por uma questão sexual?

O que é uma questão sexual? Um transexual hoje é o que era um herege no século XV. Sou um dissidente do sistema sexual e uso a escrita para desmantelar minha identificação e exigir que a atribuição sexual seja removida no nascimento e nos documentos.

Para que serve o Estado?

Esta é a pergunta. Serve de base para um processo de socialização divergente onde as mulheres seguem sendo o objeto da violência patriarcal. Foi quando decidi mudar meu passaporte, durante minha transição, que as fronteiras me apareceram realmente visíveis. Alguns corpos estamos sujeitos a um constante cruzamento de fronteiras, como acontece a um negro quando sai do metrô e lhe pedem os documentos como se estivesse passando pela alfândega.

Você trafegou como um emigrante, constantemente questionado nos pontos de fronteira, durante os anos em que fez a curadoria do Documenta 14, desde Atenas. Foi um exercício consciente ou provocado?

Durante três anos dei literalmente a volta ao mundo. Foi como um segundo doutorado, o da resistência antipatriarcal e anticolonial; como fazer uma cartografia mundial de todos os movimentos antissistema. Aí eu estava consciente da mudança de paradigma, o deslocamento da soberania do estado-nação para o mercado e as multinacionais. E de como os estados-nação lutam contra isso através dos fantasmas de identidade, e a partir daí novamente a mitologia da terra, a família, o sangue, a nação e, portanto, a violência.

Errante, desprovido de um lugar na Terra, você procura um apartamento em Urano?

Não há um espaço no planeta, nem na Amazônia, que não tenha sido territorializado pelo capitalismo patriarcal. Decidi intitular assim, tal qual um aceno para Una habitación propia onde Virginia Woolf reivindica seu espaço. Por que Urano? Porque as duas linguagens para pensar nossa subjetividade são a médica e a psicanalítica, e buscando uma nova gramática encontrei a distopia que pode ser o sonho, o lugar não territorializado pelo poder. No sonho encontro a emancipação cognitiva, apesar de Freud (o grande revelador do inconsciente patriarcal) e a farmacologia.

Cito: “Não sou homem, não sou mulher, não sou heterossexual, nem bissexual”. O seu gênero é utópico ou a negação do gênero?

Tenho a encarnação corporal que tenho, e luto por ser publicamente reconhecido simplesmente como um homem, enquanto fui educado e cresci como uma menina e toda a minha vida é o feminismo. Querer acabar com os gêneros é como querer que a pele não tenha cor, mas é preciso modificar o sistema binário. Meu gênero é um ato de dissidência.

Você abandonou completamente seu lado curatorial e acadêmico?

Estou fazendo o Pavilhão de Taiwan da Bienal de Veneza e a Bienal de Bergen, e sou filósofo associado do Centro Pompidou. Mas não posso ficar no meu museu e na minha academia filosófica enquanto vejo como a contrarrevolução toma conta da Europa e da América. Por isso, decidi escrever crônicas em um periódico, que é o meu jeito de ocupar a rua.

Acho muito curioso que, por trás desse discurso, você seja apontado pela Art Review como o curador internacional mais influente no mundo da arte…

Fui o primeiro a ser surpreendido, mas não tem maior importância. Talvez seja porque muitos artistas trabalhem com meus textos: a arte busca filósofos que a legitimem.

Para que serve a arte, ou um museu, se seu valor é decidido pelo mercado financeiro?

A arte não é por si mais crítica que o discurso científico. O artista está dentro do mercado como qualquer vendedor de salsichas. Mais que a arte em si, interessam-me os sistemas de representação. Há artistas que trabalham com parâmetros críticos e outros, como Jeff Koons, não fazem isso em absoluto. Um museu deveria ser um parlamento do sensível, sem mais, onde alguém vai questionar seus modos de sentir, aprender a desejar de outra maneira, a não ser quem é.

Entrevista de Paul B. Preciado a Elena Pita publicada no jornal El Mundo, em 19 de abril de 2019. Disponível em: https://bit.ly/2EkrxqZ

Tradução: Luiz Morando.

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