Sexos, gêneros etc… ou a reprodução das desigualdades

Entrevista com Krista Lynes, antropóloga, especialista em movimentos feministas e LGBTQIA+ e ex-aluna de Angela Davis.

No site do Instituto de Estudos Avançados da Universidade d’Aix-Marseille (IMéRA), onde foi residente no período 2017-2018, o currículo vitæ de Krista Lynes contém 18 páginas: professora associada no Departamento de Comunicação da Universidade Concordia de Montréal, titular da Cátedra Canadense em Estudos de Mídia Feminista, fundadora e atual diretora do Feminist Médias Studio… Sua análise global e esclarecedora durante o último Rencontres d’Averroès nos conquistou, por isso a contactamos.

O movimento feminista conhece uma nova fase de sua história. É um fenômeno mundial homogêneo?

É verdade que algo novo está acontecendo: o desejo de uma nova geração de se identificar como feminista e a emergência de novos movimentos sociais (on-line ou off-line) se concentram em questões de gênero e de sexualidade. Entretanto, receio que, ao focarmos na novidade dessa fase, não vejamos a continuidade entre os feminismos de hoje e de ontem que residem na luta contra o sexismo sob todas as suas formas, o destaque dado ao assédio público, às violências sexuais, as desigualdades…

Não são conceitos novos, mas estão assumindo uma nova vida e a diversidade dos movimentos feministas se conecta à escala global. No entanto, é importante não apagar sua especificidade local. De fato, todos os movimentos mundiais são simplesmente movimentos locais que viajam, traduzem, retraduzem e fazem conexões entre diferentes contextos. Esse trabalho de movimento e tradução não pode ser apagado.

O que me fascina é o modo como esses movimentos se deslocam e estabelecem relações sociais e políticas através de realidades sociais muito diferentes, para apoiar os apelos por justiça social, igualdade e direitos.

Você afirma que a questão de gênero e das relações entre os sexos é indissociável da questão das desigualdades sociais. Você poderia desenvolver essa ideia?

É interessante refletir sobre a razão pela qual as diferenças baseadas nos sexos e nos gêneros estão tão arraigadas em nossas sociedades. É de fato porque esse sistema de distinção reproduz as desigualdades sociais: diferenças salariais, restrições de promoção ligadas a sexo/gênero, longas horas de trabalho etc. Mas podemos dar outro sentido a essa indissociabilidade se raciocinarmos em termos de “interseccionalidade”. Penso que o feminismo dá o melhor de si quando se situa na interseção de questões de sexo/gênero e outras formas de desigualdade, algumas das quais podem ser muito mais nítidas que o patriarcado. Quando o feminismo tentou dar prioridade à diferença sexual (por oposição à diferença racial ou de classe, por exemplo), ele valorizou e hierarquizou as experiências de mulheres brancas de classes média e alta. Um feminismo de sucesso deve dar conta ao mesmo tempo da maneira como o sexo/gênero reproduz as desigualdades e como as desigualdades formam o sistema de distinção sexo/gênero.

O sexismo e o racismo são as duas faces da mesma moeda?

Negligenciar as diferenças importantes entre as estruturas do sexismo e do racismo arriscaria reduzi-las a questões puramente econômicas, por exemplo, abordando-as como facetas da organização do trabalho. Em vez disso, poderíamos perguntar em que o sexismo e o racismo são interdependentes. A articulação é um conceito antigo nos Estudos Culturais (corrente de pesquisa surgida na Grã-Bretanha, nos anos 1960), mas penso que é sempre válida para explicar como as mesmas formações culturais ou ideológicas relativamente autônomas, como o sexismo ou o racismo, estão, entretanto, ligadas umas às outras e permitem a mediação de esquemas profundos que definem a ordem social e a vida social. A síntese da opressão sexual e racial se situa na experiência vivida por mulheres negras e pessoas negras LGBTQIA+.

O Combahee River Collective, grupo feminista negro que surgiu nos Estados Unidos na década de 1970, declarou que “a opressão sexual-racial não é apenas racial nem exclusivamente sexual”.

Você associa a prática de denunciar atos sexistas a uma abordagem empática. Por quê?

Quando o #MeToo tornou-se um movimento popular muito conhecido, especialmente devido ao convite de Alyssa Milano para utilizar a hashtag para tuitar sobre experiências de assédio sexual, tratava-se essencialmente de uma forma de denúncia, com os projetores focados principalmente no acusado com danos potenciais para sua reputação. Mas quando Tarana Burke, militante social e líder comunitária, começou a utilizar a expressão #Metoo para sensibilizar a população sobre violências sexuais sofridas por meninas e mulheres negras, era em um contexto muito diferente. Como sobrevivente de violências sexuais, ela procurou saber o que poderia levar à cura. Ela finalmente encontrou isso conectando-se a outras sobreviventes. #MeToo era uma técnica que permitia combater o sentimento de estar sozinha em face de um trauma e, portanto, para organizar com e pelas sobreviventes, suas necessidades, sua cura, em vez de se concentrar no agressor acusado. Esse trabalho de cuidado é particularmente importante na comunidade afro-americana, onde os policiais são frequentemente os autores de atos de violência em vez de garantidores da segurança e onde a justiça social representa um papel anticarcerário importante. O lema de Tarana Burke, “empowerment through empathy”, que poderíamos traduzir por “emancipação pela empatia”, concentra o movimento nos sobreviventes. Isso é importante para avaliar a importância do #MeToo nos diversos movimentos feministas em todo o mundo.

A noção de universalidade não é realmente definida de acordo com códigos ocidentais?

É fundamental determinar o modo como os “universalismos” estiveram profundamente implicados na instauração do poder colonial europeu ou nas vastas exclusões pós-coloniais da diferença cultural. Nesse paradigma, o particularismo estava ao lado dos não-ocidentais; o universalismo, ao lado dos europeus.

Apesar disso, os universalismos funcionam para todos, mesmo se forem temporários ou condicionais. Os nacionalismos do Terceiro Mundo colocam os universalismos em ação. O universalismo está envolvido ao mesmo tempo nos projetos imperiais e nas mobilizações libertárias em favor da justiça e da autonomização. O universal é algo que Gayatri Spivak (pioneira do pensamento pós-colonial) chama de “o que não podemos não querer, mesmo que nos exclua com tanta frequência”.

Na sua opinião, como fazer reivindicações feministas e LGBTQIA+ com aspirações universais?

Baseando-se nessa situação difícil dos universalismos, os direitos das feministas e dos LGBTQIA+ são, em muitos aspectos, capturados em ambos os lados da aspiração universal.

Jasbir Puar (ativista e universitária negra estadunidense) propôs o termo “homonacionalismo” para falar do modo como as reivindicações de pessoas LGBTQIA+ são apoiadas por projetos imperiais, estatais e nacionais, visando justificar posições heterófobas, racistas e xenófobas, em particular contra o Islã. O feminismo tem participado igualmente de projetos imperiais que consolidam os tropos racistas concernentes a homens negros.

Mas em matéria de mobilização libertária, o que fazemos agora que os departamentos de estudo sobre gênero são atacados na Hungria, Bulgária e Polônia porque considerados uma ideologia e não uma ciência? Agora que a imagem de Judith Butler (filósofa americana especialista sobre gênero) é queimada e tomada em parte por grupos cristãos de extrema-direita no Brasil? Enquanto os Estados Unidos, sob Donald Trump, querem definir o sexo como “masculino ou feminino, imutável e determinado por órgãos genitais com os quais uma pessoa nasceu”?

Precisamos de uma forma de solidariedade translocal, de um novo tipo de estratégia de coalizão. É a razão pela qual Anna Tsing me inspira com sua visão de uma “aspiração à conexão global”, uma aspiração à realização de sonhos universais pelo viés de encontros práticos (ela chama isso de uma universalidade engajada). Nada garante que os apelos em matéria de gênero ou de justiça sexual não sirvam a novas formas de dominação e de disciplina de diferentes maneiras de estar no mundo. Mas, por vezes, a linguagem dos direitos universais funciona; outras vezes, infelizmente, ela exclui outros motivos para coalizão. Designar-se feminista ou sair do armário tem consequências diferentes em função do contexto cultural. Em alguns lugares, pode ser comum; em outros, isso pode custar a vida. Isso deve ser levado em conta pelas redes de solidariedade transnacional feminista e LGBTQIA+.

Entrevista com Krista Lynes realizada por Ludovic Tomas publicada em 10 de janeiro de 2019, no site da revista Zibeline. Disponível em: <https://bit.ly/2K341ST&gt;.

Tradução: Luiz Morando.

Entrevista com Krista Lynes, antropóloga, especialista em movimentos feministas e LGBTQIA+ e ex-aluna de Angela Davis.

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