“Não há nada de biológico em ser trans, como não há nada de biológico em ser homem ou mulher.”

Suas palavras se dividem entre a crítica e a esperança, entre o que ele não gosta daquilo que vê e o que crê possível. Miquel Missé (Barcelona, 1985), sociólogo trans, diz que o privilégio de ter estudado, sua família e sua trajetória ativista o trouxeram até aqui. Até mesmo as ideias que expõe em seu último livro, A la conquista del cuerpo equivocado (Editorial Egales), no qual, com um tom sagaz, desafia a narrativa mais popular sobre a transexualidade. “Sinto a estranha sensação de que meu corpo foi roubado”, começa o texto com firmeza.

O que significa isso?

Quero dizer que tenho a sensação de que as pessoas trans em geral têm assumido um discurso pelo qual o mal-estar que sentimos teria sua origem no corpo. Tenho uma relação problemática com meu corpo e o vivo com conflito, mas acho que essa ideia está baseada em um conjunto de crenças que aprendi em algum momento. Não acho que eu estava determinado a não me sentir confortável com meu corpo, mas tem a ver com uma cultura que nos envia uma série de mensagens para interpretar esse mal-estar, no meu caso o de não se encaixar na categoria mulher. Foi dito às pessoas trans e aprendemos que nosso corpo é um problema, que temos que colocá-lo em jogo e mudá-lo. E, de alguma maneira, todos esses discursos nos foram roubados, roubaram-nos a possibilidade de viver o corpo de outra maneira.

Então, qual é a origem desse mal-estar?

Acho que tem muito a ver com alguns códigos culturais muito específicos sobre identidade e corpo, com a crença de que a identidade de homem ou mulher está associada a uma corporalidade biológica e a alguns valores muito específicos. Essa correlação é tão potente que se você nasce em um corpo ao qual é atribuída a categoria homem, mas você não se identifica em nada com ela, nessa sociedade parece que a única explicação possível é que você é uma mulher. E acho que isso é muito discutível. No entanto, não estamos no caminho de discutir isso, mas no de transformar, hormonizar e operar o corpo.

Ou seja, ser trans não é algo biológico…

Não, claro que não, não há nada biológico em ser trans como não há nada biológico em ser homem ou mulher. Isso tem a ver com como ordenamos a sociedade, isto é, com base no fato de que existem identidades associadas à genitália, mas essa é uma decisão cultural que tomamos. Poderíamos ter tomado outra. Acho que não há nada inato no fato de ser homem ou mulher e, portanto, não há nada inato no fato de ser trans.

Você aponta em seu livro para a revolução trans que surgiu nos últimos anos, com uma maior presença das realidades trans na mídia, na política e na opinião pública, mas há algo que não se enquadra aí. O que é?

São muitas coisas, mas principalmente parece que encontramos algumas reivindicações muito transformadoras, e o que ocorre é que nelas também se encontram discursos profundamente essencialistas e conservadores.

Em que sentido?

Por exemplo, em muitos discursos sobre a infância trans. Sobre esse tópico, eu gostaria de fazer um apontamento: cada vez é mais difícil falar da infância trans sem ser tachado de transfóbico e isso me parece superperigoso. Não tenho nenhum problema com pessoas fazendo transição de gênero, mas acho que o discurso hegemônico sobre o gênero na infância, que associa automaticamente a transexualidade com crianças que repetem várias vezes que são de outro gênero, é um problema. É aí que tenho conflito de posição.

Agora, entendo que muitas famílias acompanhem seus filhos e filhas na transição de gênero e tenho certeza de que muitas dessas crianças se saem bem; eu apenas digo que o relato que se utiliza para explicar o que está acontecendo me parece equivocado. Simplesmente não acredito que exista gente com cérebros de homem e de mulher, não acho que exista uma identidade inata pré-estabelecida. Aos discursos que dizem que a identidade de gênero se fixa por volta de dois ou três anos, acho que lhes faltam complexidade e matizes porque você pode não ter na infância uma identidade definida ou ter uma identidade que não é a que lhe foi atribuída ao nascer porque está explorando e tentando entender. Na infância há muitos momentos nos quais, enquanto se está aprendendo que o mundo é binário, há muita fluidez e acho que a fluidez deve ser cultivada.

Face a esse cenário, você fala em reconquistar o corpo. Como?

Reconciliar-se com o corpo não tem necessariamente a ver com não se submeter a hormônios e operações. Acho que você pode fazer isso porque acredita que vá viver melhor, mas esteja em paz com essas decisões. No entanto, vejo que muitas vezes, ainda que você transforme o corpo, o mal-estar continua. E isso tem a ver com o fato de termos que perguntar que tipo de realidades trans estamos visibilizando, quais são as pessoas que passam despercebidas e não parecem trans. Há muita gente que nunca será invisível por várias razões, entre elas a própria morfologia ou os recursos econômicos.

Como se alcança a reconciliação? Primeiro, deixando espaço para se fazer essas perguntas. Para mim, é muito libertador ter podido pensar ‘bem, em outro contexto, não teria necessidade de tomar hormônios’. É muito doloroso, mas também me ajuda a entender que meu corpo não é uma merda e não tem um defeito de série, que não é porque tive uma vida feliz que pude viver e não estou vivendo, mas que há uma vida feliz que poderia viver se não me tivessem dito uma maneira sobre meu corpo ou sobre minha identidade. Também temos que falar de expressões de gênero diversas e de que uma determinada não tem que ser, portanto, o início de uma crise de identidade de gênero. O problema é que há apenas uma opção ou outra e que as categorias homem-mulher estão tão compartimentadas e sejam tão rígidas. O problema é todo o sistema normativo que existe por trás.

Você defende que esse sistema normativo é o que está sendo reproduzido em muitos discursos atuais pelos direitos da comunidade trans…

Acho que alguns discursos que advogam pelos direitos das pessoas trans há formas bastante essencialistas de conceitualizar o gênero. Entendo que o objetivo é a visibilidade trans, mas à custa de alguns argumentos que sairão muito caros.

Quais?

Por exemplo, entender que as categorias predominantes são as categorias de homem e mulher e o que ocorre é que você pode nascer com um corpo X ou Y, mas as categorias ainda são essas. Não compartilho da lógica de que o que existe são homens e mulheres em corpos diversos, mas sempre homens e mulheres. Acho que ser homem ou mulher é uma questão totalmente relativa e muito frágil. Se fosse realmente algo totalmente natural, não seria tão patrulhado e vigiado por mil sistemas de controle e castigo para quem sai da norma.

No livro, você faz uma crítica a tudo o que ocorreu com o polêmico ônibus de HazteOir[i]

Para começar, o ônibus de HazteOir me parece um exemplo paradigmático de como se tem relativizado a capacidade de indignação. Às vezes se produzem essas grandes explosões de enfado que poderia parecer que há milhões de pessoas preocupadas com um tema e simplesmente são milhões de pessoas que têm feito click ou têm feito retuit. Não acho que se deva relativizar o ônibus, nem sua violência, mas acho que temos reforçado mais seu lugar no mundo. Acho que fizemos uma enorme campanha publicitária para HazteOir.

Por outro lado, muitas pessoas que responderam, fizeram isso com campanhas e mensagens dizendo que a transexualidade está no cérebro e não na genitália. Isto é, não se fez de uma forma mais profunda em torno das categorias de gênero. Essa resposta é igual à de um biólogo. Dizer que o sexo está no cérebro é tão problemático quanto dizer que está na genitália. Afinal, é uma guerra entre essencialistas de diferentes lados: alguns essencialistas que queriam nos exterminar e outros que queriam nossa liberdade. Se tenho que me posicionar, sem hesitação me posiciono com os segundos, mas acho que temos que ser capazes de falar de diferentes posições e ideias dentro de uma mesma luta.

Entrevista de Miquel Missé a Marta Borraz publicada em El Diário, em 12 de janeiro de 2019. Disponível em: <https://www.eldiario.es/sociedad/problema-discurso-hegemonico-diciendo-biologico_0_856015014.html>.

Tradução: Luiz Morando.


[i] A HazteOir é uma associação espanhola de extrema-direita, de caráter ultracatólico e conservador fundada em 2001. Entre suas diversas ações e atividades de contestação ao aborto, ao segmento LGBTQIA+, à ‘ideologia de gênero’, à teoria de gênero, está o ônibus que circula por várias regiões da Espanha e da América Latina, levando material impresso e fazendo ‘doutrinação’ de direita.

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