O centro de arquivos LGBT+ de Paris não esperará mais vinte anos

A Prefeitura cometeu um erro estratégico fatal ao subestimar a erudição e o conhecimento de pessoas que recusam o derrotismo no Centro de arquivos LGBT+.

A apresentação da coletiva de imprensa sobre o projeto do Centro acabou de terminar, nesta segunda-feira, 3 de junho, e as intervenções na sala começam. Phan Bignotte se levanta e conta como o Arquivo Nacional quase destruiu toda a contabilidade do Act Up, que doou os 35 metros quadrados de seu patrimônio à célebre instituição em 2014. Entre esses documentos, a fatura da cremação, no cemitério Père-Lachaise, de Cleews Vellay, o segundo presidente da associação. Com seu forte sotaque vietnamita e a carga de adrenalina que caracteriza todas as suas intervenções, Phan se revolta: “Esse pedaço de papel, ainda que não seja o mesmo que uma nota de suprimento, não é um documento que se joga assim!”

Esta é uma anedota reveladora. A confiança foi corroída entre o coletivo Archives LGBTQI e a Prefeitura de Paris, as instituições patrimoniais, após dois anos de contato e de reuniões. No final de 2017, a Prefeitura tinha imponentes projetos: uma grande exposição temática, uma conferência multidisciplinar, um comprometimento com as associações. Alguns meses depois, chegou-se a propor a oferta de uma prestigiada subprefeitura do centro, prova de que a cidade entendera que não sairia com um local barato.

As promessas não cumpridas para 2020

Mas Bruno Julliard, primeiro vice de Anne Hidalgo, que se encarregara do arquivo, repentinamente deixou a Prefeitura. Como é frequente nas administrações, foi necessário recomeçar tudo, tendo Emmanuel Grégoire feito uma difícil substituição, entre a exasperação da associação e os cálculos do município. A complexidade é apresentada pelos responsáveis políticos, como explica o artigo “Centre d’Archives LGBT à Paris: le combat d’une communauté pour disposer de sa mémoire”, na revista Regards[i]. Por enquanto, o balanço da cidade de Paris se resume facilmente: “É uma caixa entre armários e uma adega”, disse Gwen Fauchoix no início da coletiva de imprensa.

Sabe-se agora que o dossiê dos arquivos LGBT+ existe há mais de duas décadas. Paris não tem um arquivo homossexual, ao contrário de Londres, Berlim, Amsterdã. O modelo francês universalista, pouco inclinado a considerar as minorias, gostaria que as instituições patrimoniais cuidassem dessa herança e a repartissem, segundo os apoios, entre os arquivos nacionais e departamentais, o INA [Instituto Nacional de Audiovisual], os museus, as bibliotecas.

Na verdade, por que não apelar aos profissionais da coleta, conservação, consulta e comunicação? Precisamente porque as pessoas LGBT+ não querem mais ver sua história espalhada pelos quatro cantos do país e dormir longe dos seus olhos. As associações presentes no coletivo exigem agora o que elas sempre propuseram: um lugar único onde tudo é centralizado e onde as decisões políticas e culturais são tomadas por representantes de confiança. E não por instituições muitas vezes concorrentes.

Dois meses atrás, Paris apresentou sua carta de interesse. As instalações da antiga Galeria das bibliotecas da cidade, na rua Malher, no 4° Distrito, 150 metros quadrados no térreo, 400 metros quadrados de subsolo – em um quarteirão inundável. Não é muito bonito como um símbolo para preservar documentos raros. E uma primeira dotação: 100.000 euros de funcionamento. Tendo em vista as eleições municipais de 2020, Anne Hidalgo gostaria de ganhar votos no centro de Paris onde a hemorragia do Partido Socialista se confirma nitidamente.

Mas por que ficar no centro de Paris quando os distritos do norte e do leste da cidade oferecem mais opções? E por que mesmo não ultrapassar a periferia? O coletivo Archives LGBTQI olha com inveja para o lado de Montreuil ou de Saint-Denis, onde se realiza a primeira Marcha do Orgulho da periferia nesse fim de semana. Para se aproximar dos bairros populares, estar mais aberto às visitas de escolas ou estudantes, para sair dessa imagem privilegiada do Marais, que, de toda maneira, não seduz muito mais. Por exemplo, a única conferência sobre o 50° aniversário de Stonewall aconteceu em Créteil… O coletivo admite que o Conselho regional de Île-de-France é mais aberto que a Prefeitura de Paris, onde as decisões vêm sempre de cima, sem a menor transparência.

Um desafio para as eleições municipais

As eleições municipais parecem agora uma espada de Dâmocles sobre o projeto dos arquivos. A prefeitura é socialista desde 2002 e continua promovendo seu balanço pró-LGBT+. Entretanto, foi sob os mandatos de [Bertrand] Delanoë e [Anne] Hidalgo que a ideia de um centro de arquivos apodreceu nos corredores e que a frustração se desenvolveu em vários campos. Hoje, o tema número um dos poderes públicos é a homofobia, as violências, toda ampliada pela mídia e as redes sociais, sempre apreciando notícias. A República estará mais interessada pela questão simbólica, cultural, educativa e mesmo turística do projeto? Nada é menos seguro quando vemos o atraso de Emmanuel Macron sobre temas da sociedade como a PMA [Procriação medicamente assistida], os direitos das pessoas trans, o fim da vida etc. No momento, o Estado sacrifica as demandas LGBT+ para assegurar seu eleitorado de direita, o que conseguiu para as eleições europeias. Na França, a direita centrista e liberal ainda não entendeu que é ela, nos países vizinhos, que muitas vezes garante os direitos e as conquistas LGBT+.

A coletiva de imprensa explicou porque o convite à apresentação de proposta pela Prefeitura de Paris foi recusado pelo coletivo Archives LGBTQI. Não faltam razões. Primeiro, porque a rua Malher é inadmissível: o acervo seria esmagado nos primeiros anos e acabaria por dar rapidamente uma imagem miserável de nossa cultura. Segundo porque um centro ótimo deve se encarregar ele próprio da coleta, conservação, consulta e comunicação de seus tesouros. É a regra dos 4C estabelecida pelo coletivo. Para o Estado, a conservação e a consulta dos arquivos na sala de leitura ficam sob controle das instituições patrimoniais públicas, que muitas vezes não são treinadas no espectro cultural de uma comunidade LGBT+, há muito tempo resumida às duas primeiras letras de seu acrônimo. Ao INA, é muito difícil encontrar documentos ligados ao passado transgênero. Não há sistema de referenciamento que compreenda a palavra queer. Para a Prefeitura de Paris, o dispositivo proposto na ruae Malhhler é um centro de triagem ou trânsito, mas sem sala de consulta, o que não constitui um arquivo verdadeiro.

O projeto está repartido por vinte anos de erros? Na coletiva de imprensa, o coletivo Archives LGBTQI insistiu no fato de que não podia mais esperar. “Os arquivos não são apenas o passado, é o uso do presente”, enfatizou Sam Bourcier. Cabe a nós produzir essa história. Face ao discurso da Prefeitura, sempre tão tecnocrata, em que o projeto é constantemente complicado, no qual se opõem militantes e especialistas da memória, o memorial e o pink washing, o coletivo não perdeu esses dois anos. Grupos temáticos se formaram, reuniões se multiplicaram. Constituiu-se uma equipe sólida com pessoas sinceras que foram colocadas à prova no passado e que têm horror a besteira administrativa. Esse grupo conseguiu obter uma linha e um consenso partilhado pelas principais associações LGBT+ e de AIDS. Isso não é tão comum. Essa frente é unida, sólida, e trabalha (voluntariamente) para produzir.

O meio associativo forma um bloco

A Prefeitura cometeu um erro estratégico fatal ao subestimar a erudição e o conhecimento das pessoas que recusam o derrotismo no Centro de Arquivos LGBT+. Sim, existem especialistas de arquivos nessa comunidade, há pessoas que sabem codificar, acolher o público e os doadores, e somos provavelmente melhores que a Prefeitura de Paris em matéria de comunicação sobre nossa própria história.

A ideia da comunidade permanece central nesse projeto e é precisamente o que incomoda a Prefeitura. O centro de arquivos é um dos raros temas que une uma comunidade sente falta de um futuro. É o elo entre idosos e jovens, e todas as sexualidades e identidades. Por trás dessa convicção, há uma recusa categórica de nos deixar despir de nosso passado, separando-o entre várias instituições. A substância do tema é política: ninguém pode fazer o trabalho melhor que o coletivo, que deve viver, financeiramente, de seu trabalho.

Ninguém será pago em nosso lugar para fazer florescer nossa herança.

Texto de Didier Lestrade publicado no site SlateFr em 11 de junho de 2019. Disponível em: <https://bit.ly/2KmfSfY>.

Tradução: Luiz Morando.

Se criar um Centro de Arquivos LGBT em Paris já é um problema, imagina no Brasil! O texto de hoje no blog pontua os desentendimentos entre a Prefeitura de Paris e os coletivos LGBT no direcionamento desejado para o Centro de Arquivos LGBT.

[i] Centro de Arquivos LGBT de Paris: o combate de uma comunidade para dispor de sua memória. Cf. http://www.regards.fr/societe/article/centre-d-archives-lgbt-a-paris-le-combat-d-une-communaute-pour-disposer-de-sa

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