Em total desconstrução

Sociólogo e professor da Universidade de Lille 3, Sam Bourcier é um ativista e teórico queer. Reconhecido internacionalmente, esse pesquisador trans, que tomou distância dos trabalhos de referência de Judith Butler, traz um discurso de contracorrente ao pensamento dominante e relativamente consensual no meio LGBTQI+.

Qual é, na França, o lugar da pesquisa queer na universidade?

Não há um lugar. Isso pode parecer espantoso porque ouvimos falar por toda parte de estudos sobre gênero. Na realidade, há vários anos, a Europa e o Estado são obrigados a desenvolver políticas ditas de igualdade homens-mulheres e classificamos isso na categoria “gênero”, mas é uma noção muito fraca. Os temas-mestre realmente queer são recusados na França porque são comunitários e porque não se encaixam no discurso do republicanismo universalista, que é excludente quanto às minorias.

Você trabalhou o conceito de pós-pornô. O que significa isso?

É uma das ideias originais que produzi nos anos 2000. Ele nasceu da constatação de que não havia produção de filmes pornôs de que gostássemos, que correspondesse a nós: lésbica, feminista… Teoricamente, quando escavamos sobre isso, percebemos que as lógicas pornográficas modernas foram produzidas por sexólogos do século XIX. Está na origem da construção cultural muito potente que organiza a diferença sexual binária, assim como a construção capitalista organizou o trabalho. Uma vez que compreendemos isso, quisemos fazer o pornô posterior, o pornô para nós. O filme Baise-moi, de Virginie Despentes, foi um disparador para mim. Na prática, o pós-pornô se traduz muitas vezes por performances no espaço público.

Você é muito crítico quanto ao movimento LGBT. Por quais razões?

O movimento LGBT é atravessado por uma corrente reformista, assim como o movimento feminista. Os reformistas entraram nas políticas de reconhecimento e de assimilação. Eles estão constantemente pedindo reconhecimento legal ao Estado. Isso é ineficaz. E o Estado, quer seja [François] Hollande ou [Emmanuel] Macron, está se lixando com isso. O problema econômico não é levado em conta. O racismo é completamente ausente. Vamos gerar leis para proteger, leis antidiscriminações. E para proteger os bons gays e as boas lésbicas de quem? Dos homofóbicos. Quem é quem? Os árabes da periferia! Porque são eles que são visados. Gastamos nosso tempo denunciando homofobia, lesbofobia, transfobia etc. Esses termos não dizem absolutamente nada. As pessoas não são “-fobias”, a origem é sistêmica. Estamos em uma cultura necessariamente homofóbica e sexista pelas razões que expliquei em relação aos teóricos do século XIX. A desarticulação do problema entre gênero, sexualidade e “raça” é muito grave. A agenda LGBT atual, copiada e colada da dos Estados Unidos, é feita para os privilegiados. Ela sempre pede à minoria que espere.

O casamento para todos, a PMA [procriação medicamente assistida] e o conjunto de direitos conquistados ainda assim não representam avanços?

Em primeiro lugar, não é o casamento para todos, mas o casamento homossexual, entre dois homens ou entre duas mulheres. Os/as trans foram descartados/as do assunto. Então, nos realinhamos à diferença sexual e à cultura sexual dominante, com uma conversa nerd sobre amor. Além disso, essa lei foi concebida sem a menor reflexão sobre o que é família. Quanto à PMA, as lésbicas sempre tiveram filhos. Essas leis são feitas para controlar a produtividade dos corpos e, portanto, das forças de trabalho, não para ser gentil com as pessoas LGBT. Isso é a biopolítica. É preciso parar de pensar as coisas em termos de avanços ou recuos, é simplesmente o caminho linear do progresso que, desde o século XVIII, nos diz que chegaremos lá.

Você rejeita o conceito de direito finalmente.

Quando o direito acompanha a democracia liberal em que estamos, ele não nos protege, ele mente. Nos anos 1970, quando fomos tratados de bicha nas ruas de San Francisco ou de Paris, a resposta era “vai te fuder”. Agora, identificamos as pessoas LGBT como vítimas; mas vai à delegacia prestar queixa: desista! É preciso desenvolver outras políticas, especialmente na Educação. Quando as feministas obtiveram de Simone Veil – que era corajosa, mas não feminista – que ela fizesse votar a lei sobre aborto no momento em que Giscard [d’Estaing] queria se passar por progressista, não era o direito ao aborto, mas a descriminalização das mulheres que abortavam.

Você diz também que a lei de associação 1901 é responsável pela despolitização da militância…

Os poderes públicos, na lógica da democracia representativa, fazem das associações os interlocutores privilegiados. Elas estão cheias de pequenos presidentes que estão lá por ambições pessoais e que são muito heteronormativos. Na França, contrariamente à Itália ou Espanha, não há essa cultura do coletivo autônomo. Aqui, tudo é vertical, centralizado.

Quais formas de luta, quais reivindicações você defende?

Em 1968, quando as pessoas pediam o impossível, elas estavam certas. A política são necessidades, desejos, direitos. Eu não cuspo completamente nisso, mas é preciso tomar o caminho oposto do neoliberalismo, do capitalismo, do Estado, e mesmo do direito, que produzem eles mesmos subjetividades. Por exemplo, peçamos mais tempo, menos trabalho e uma renda universal. E trate do comum.

Entrevista com Sam Bourcier realizada por Ludovic Tomas, publicada no site Zibeline em 28 de março de 2019. Disponível em: <https://www.journalzibeline.fr/en-totale-deconstruction/>

Tradução: Luiz Morando.

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