50 anos de Stonewall: encontramos dois pioneiros da luta LGBT nos Estados Unidos

Com o que se pareceu a luta pelos direitos LGBT em seu começo, no final dos anos 1960? – perguntamos a dois ativistas americanos da época.

Cabelos grisalhos assumidos há muito tempo, rostos enrugados pelos anos e dois sorrisos de boas-vindas que escondem um monte de histórias para contar. Com 50 anos de ativismo LGBT por trás deles, Flavia Rando e Fred Sargeant fizeram parte dos movimentos modernos de luta pelos direitos LGBT desde sua infância. Flavia Rando integrou a Frente de Liberação Gay (GLF, na sigla em inglês) em sua criação, em julho de 1969, na sequência de Stonewall – esses sete dias de tumultos, em um bar de Nova York, entre a polícia e os membros da comunidade LGBT, que marcaram o início do movimento de luta pelos seus direitos. Essa historiadora da arte pertenceu a vários grupos ativistas lésbicos e feministas ao longo dos anos e tem ensinado sobre gênero. Fred Sargeant estava presente durante os tumultos de Stonewall. Ele trabalhou alguns anos ao lado de seu companheiro Craig Rodwell em sua livraria LGBT, a primeira dos Estados Unidos, antes de se tornar policial em Connecticut.

Nós encontramos esses dois ativistas pela primeira vez em Paris, quando foram convidados pela AJL (Associação de Jornalistas LGBT) por ocasião dos 50 anos de Stonewall e da 3ª edição do Out d’Or.

Como vocês viveram Stonewall?

Fred Sargeant – Uma noite, com Craig Rodwell, enquanto estávamos a caminho de casa após termos jantado, deparamo-nos com um grupo de pessoas em frente ao bar Stonewall. Elas nos explicaram que havia policiais no interior do bar com pessoas que eles haviam detido. Isso ocorreu durante uma batida policial (regulares nesse bar, que era mantido pela máfia). A agitação começou quando a polícia tirou as pessoas do bar. Elas gritavam por ajuda. As pessoas de fora do bar gritavam contra a polícia. Nós ficamos toda a madrugada e a manhã, criamos um flyer para reunir manifestantes para a próxima noite. Em uma tarde, distribuímos 5.000 panfletos. Não sei se foi graças a isso, mas as pessoas se mobilizaram e ficaram em frente ao Stonewall. No início, tudo correu bem, mas de repente fugiu ao controle. Era outro episódio de tumulto. Seguiram-se sete noites de protestos. Estive lá todas as noites. Era a origem da Frente de Liberação Gay.

Flavia Rando – Como mulher e jovem, eu não ia com frequência ao Stonewall. Era um bar mais para homens gays. Mas na hora que ouvi que havia esse levante, fui ver. Havia lixeiras incendiadas, fogueiras, a fumaça subia…

Como você se tornou ativista, Flavia?

Flavia Rando – Alguns dias após Stonewall, encontrei Martha Shelley na esquina da rua 14. Ela acabara de criar a Frente de Liberação Gay e me perguntou se eu queria juntar-me a eles. “Esperei por isso toda a minha vida”, respondi a ela. Como eu havia saído do armário muito jovem, depressa constatei que ser lésbica era muito difícil. Estava experimentando. Éramos assediadas na rua; já haviam me jogado pedras. E quando íamos ao bar, era outra forma de assédio. A primeira vez que eu quis ir a um bar de lésbicas, os seguranças, que faziam parte da máfia, me olharam e disseram: “Você pode entrar apenas se estiver de saia, porque ontem a polícia já esteve aqui, não queremos correr risco.” Era puro sexismo.

À época, havia muito a fazer em matéria de direitos LGBT. O caminho que você tomou para alcançar a igualdade parecia evidente para você?

Flavia Rando – Isso pode parecer evidente, mas não era. Gostei da GLF porque não pensávamos que fosse evidente. Para pôr fim às raízes da homofobia, é preciso também combater o racismo, o classismo e a misoginia. De repente, estávamos aliados a outros grupos radicais como o Panteras Negras. Entendemos que fomos atacados da mesma forma que várias outras pessoas porque não fazíamos parte da categoria dominante: os homens brancos e heterossexuais. Era necessário um movimento para contê-los e dizer “Não ultrapasse esta linha”.

Fred Sargeant – Flavia tem absoluta razão. Isso mudou graças a Stonewall. Uma nova organização, como a GLF, surgiu. Um ano antes de Stonewall, eu era vice-presidente do grupo Homophile Youth Movement in Neighborhoods (HYMN). Estávamos focados em um objetivo: os direitos dos homossexuais e das lésbicas. Ponto. Todo o resto era secundário para nós. Recebemos numerosas críticas por causa disso. Mas graças a Stonewall, vários elementos se entrelaçaram, além da luta contra a homofobia, e isso deu origem aos movimentos LGBT modernos, como a GLF.

Stonewall é frequentemente descrito como o início das lutas LGBT. Ora, como você acabou de explicar, já existiam movimentos. Como era esse ativismo antes?

Flavia Rando – Além do HYMN do qual Fred falou, houve o Daughters of Bilitis (considerado o primeiro coletivo lésbico estadunidense) criado em 1955 por Del Martin e Phyllis Lyon. Havia também The Mattachine Society e outros que não me lembro mais. Filles de Bilitis e The Mattachine Society, reunidos sob o nome de East Coast Homophile Organizations (ECHO), organizavam manifestações anuais no 4 de julho [Dia da Independência dos Estados Unidos] em frente à Casa Branca ou no Independence Hall, na Pensilvânia, onde a Declaração de Independência e a Constituição americanas foram assinadas. Era muito diferente da GLF. As mulheres eram obrigadas a usar tailleurs e os homens, ternos. O objetivo dessas manifestações era dizer aos heterossexuais: “Nós somos como vocês”. Com a GLF, víamos as coisas de maneira diferente. Dizíamos a nós mesmos: “Vamos ensiná-los porque percebemos as coisas graças à nossa posição, a partir de onde eles nunca poderiam perceber.” Éramos felizes com a nossa diferença. Aprendemos muito com o movimento dos direitos civis. Lembro-me de uma entrevista, no jornal do Filles de Bilitis, com Ernestine Eckstein, mulher negra e lésbica que participou desse movimento. Nessa época, o HYMN voltou-se para psicólogos, psiquiatras e “filósofos” – as aspas são importantes –, em suma, homens brancos e heterossexuais, para fazê-los dizer que éramos saudáveis. Ernestine Eckstein disse nessa entrevista que este não é o caminho certo, que é preciso ir às ruas, aos tribunais para que parem de agir e falar injustamente em nosso lugar. Isso inspirou muito nosso ativismo na GLF.

Você acha que a cultura ajudou a tornar a comunidade LGBT mais visível?

Flavia Rando – Sim, foi crucial. É o único meio que os jovens têm para descobrir sua história. Quando éramos jovens, procurávamos todas as referências de pessoas “como nós”, como dizíamos, de gerações anteriores. É por isso que a livraria de Craig Rodwell e Fred era realmente importante. Nos anos 1970, eu fazia parte de um coletivo de artistas lésbicas. Imprimíamos reproduções de nossas pinturas e escrevíamos grande no meio: “Isto é arte lésbica”. Depois, colávamos os cartazes por todo lado na cidade, à noite, e principalmente onde trabalhávamos durante o dia.

Depois de todo esse tempo, a luta pelos direitos LGBT ainda não acabou. O que isso provoca em vocês?

Fred Sargeant – Fizemos muitas coisas, mas, de fato, ainda não acabou. A situação está se deteriorando nos Estados Unidos. Hoje, devemos nos esforçar para manter o que conquistamos, além de tentar avançar. Um ótimo trabalho foi realizado para e pela comunidade LGBT nesses últimos 50 anos. É algo de que se orgulhar e que nos estimula a ir em frente. Mas isso sempre foi assim: dois passos pra frente, um pra trás.

Flavia Rando – É um milagre o que fizemos durante 50 anos. A sociedade está cada vez mais com o espírito aberto. Mas com o governo americano atual, tudo recua. Os direitos foram reduzidos. As pessoas transgêneras sofrem com isso. Vemos claramente que mais e mais mulheres trans e negras foram assassinadas nos últimos anos. E estes são apenas os números que conhecemos. Penso que o único meio de a comunidade LGBT ter todos seus direitos é que ela seja a mesma para todos os outros: os pobres, as pessoas negras. Tudo isso se deve a uma sociedade hierarquizada, e o peso dessa hierarquia se destaca muito no governo atual. Prefiro parar por aqui antes que eu use palavras que não diria em público.

Entrevista de Flavia Rando e Fred Sargeant a Pauline Thurier publicada no site Les Inrockuptibles, em 18 de junho de 2019. Disponível em: <https://bit.ly/2L4jpyZ>.

Tradução: Luiz Morando.

Com a palavra, dois ativistas que estiveram presentes nas noites de luta em Stonewall: Flavia Rando e Fred Sargeant.

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