Empoderamento trans (marca registrada)

Outro dia, recebi, por várias vias e círculos diferentes, um vídeo que viralizou devido ao poder que transmite com seu formato de entrevistas:

A campanha não engana, é real, próxima, sincera: primeiro vemos as câmeras gravando o set com a entrevistadora, prestes a começar a cena de entrevistas com “pessoas reais, protagonistas que contam suas próprias histórias para dar um toque maior de realidade”, como explicado em uma notícia sobre a peça. Realidade na qual não aparecem pessoas racializadas, imigrantes, desempregados, idosos, com necessidade especial, pobres, em risco de exclusão social, que fazem parte de famílias diversas, pessoas marginalizadas etc. Em resumo, gente bonita em uma campanha social bem mascarada.

É uma entrevista de trabalho. Trabalho que, para as pessoas entrevistadas, parece não faltar. De fato, muitas gozam do que facilmente poderíamos classificar como postos de trabalho de alta função e/ou estáveis: diretora de marketing global, advogado em centros penitenciários, bancário, técnico de informática, auxiliar administrativo, recepcionista e atendimento ao público. A coisa fica interessante quando as perguntas sobre o grau de motivação e satisfação laborais passam, quase sem nos darmos conta, do campo profissional ao campo da vida, profundo, inclusive existencial, num piscar de olhos, no primeiro minuto do vídeo. Normal: a pessoa entrevistada fala de medo, dor, da responsabilidade, das convenções sociais, de fazer sem consciência, da FAMÍLIA! Respostas muito normais em uma sociedade capitalista, classista, racista e patriarcal, mas que despertam suspeitas em um anúncio publicitário. Silvia, a entrevistadora, que por sinal é um detalhe muito relevante conhecer seu nome, expressa com elegância e suavidade assuntos com os quais já geramos empatia: por que você não lutou para continuar nesse caminho? Quem decide sobre sua vida? Qual é o seu propósito? (lema da campanha) Então, tampouco saberás quem você era? Quem você era? Quem você gostaria de ser?…

Q-U-E-M V-O-C-Ê G-O-S-T-A-R-I-A D-E S-E-R?

Claro! Topamos com o capitalismo! Diga-me quem você quer ser e te direi quem és. Borbotões de egocentrismo projetados em futuras expectativas frustradas. Catapum!

– Vou te mostrar uma coisa – nos diz Mrs. Wonderful enquanto mostra uma fotografia. – Há dez anos, esse menino decidiu tomar as rédeas de sua vida. Você o reconhece? Sou eu.

Novamente topamos com o recorrente clichê de que as pessoas trans escondem um segredo e, portanto, em qualquer momento, nós teremos ou terão que nos descobrir. Acontece que a entrevistadora é uma mulher trans! A campanha publicitária teria sido radicalmente diferente se desde o primeiro momento as pessoas espectadoras ou entrevistadas tivéssemos conhecido a identidade da entrevistadora. Veja! Não estou impondo a saída forçada do armário. O que pretendo questionar é como se utiliza dramaticamente em cena a saída do armário.

Primeiro de tudo, temos que tomar consciência de que nem todas as pessoas podem representar uma saída do armário tão espetacular, tão sossegada, tão luxuosa emocionalmente como a que é representada na cena, seja porque “você pode vê-la” desde a primeira respiração (seja eleito ou não), seja porque se visibilizam através de pequenos atos cotidianos ou ainda pelo simples fato de que nesse preciso instante em que estão sendo visibilizadas (voluntariamente ou não) não dispõem do alcance ou conforto de que a entrevistadora dispõe. É aquilo que Goffman apontou como estigma: a diferença entre pessoas desacreditadas, aquelas cuja qualidade de diferente é conhecida ou fica evidente no ato, e pessoas desacreditáveis, aquelas cuja diferença não é conhecida ou imediatamente perceptível.

O fato é que, a partir da dramaturgia ou da direção, poderiam ter decidido vestir nossa protagonista com uma camiseta com o slogan “Trans is beautiful”, ressignificá-la com uma pulseira LGTBQIA+friendly, uma pequena tatuagem, que ela teria nomeado de maneira integrada ao roteiro através da entrevista ou escolher uma atriz com pluma[i]*. Mas não, apostaram forte, decidiram não visibilizar organicamente nossa protagonista e reservar essa informação para a sobremesa, como forma de descobrir. E ao fazê-lo, decidiram jogar com o clichê do oculto, do que tem que ser desvelado, do que deve ser dito sim ou sim, e que ao fazê-lo as consequências serão espetaculares.

Não podemos perder de vista que esse clichê alimenta a angústia de muitas pessoas com sexualidades ou gêneros não normativos, por medo de rejeição. O medo de passar de pessoa desacreditável a desacreditada.

Muitas são as pessoas que abordaram esses tópicos na representação trans. É interessante ver como tem evoluído na representação, quer dizer, na ficção, as consequências do ser visível como pessoa trans e como essas consequências conformam a personagem. Isto é, como se constrói a personagem através da saída do armário.

Julia Serrano fala de dois principais arquétipos de mulher trans: “a impostora” e “a patética”. No caso da “patética”, a personagem não está enganando ninguém, pois se nota que ela é trans, e o fato de que apenas pareça “mulher de verdade” faz com que geralmente seja considerada inofensiva pelo público. Costumam ser personagens ridicularizadas, associadas ao grotesco. Por contraste, o arquétipo da “transexual impostora” está baseado na capacidade para se passar por uma “autêntica mulher”. A priori, o público não intui que a personagem é trans. E devido às “impostoras” passarem com sucesso por “mulheres de verdade”, a revelação da identidade trans costuma servir para dar giros argumentativos inesperados à história.

Essa personagem, essa mulher, é impostora, mentirosa e vigarista porque, quando se descobre que é uma mulher trans e não uma mulher cis, os homens cis-heterossexuais (fictícios ou não) se sentem rejeitados. Além disso, geralmente é retribuída com uma homofobia associada que mostra que a mulher trans é colocada como um homem disfarçado de mulher.

Atualmente, o paradigma do engano trans é totalmente diferente. Na ficção mainstream já não se permite esse tipo de transfobia. Miquel Missé, em seu livro A la conquista del cuerpo equivocado, fala de um novo arquétipo, categoria que estabelece baseando-se no trabalho de Antonio Centeno pela visibilidade da sexualidade das pessoas com necessidades especiais: o arquétipo heroico. Esse novo clichê, muito mais elaborado, mais delicado, com cheiro de unicórnio LGTBQIA+, marca registrada no país do pink washing, consegue captar nossa atenção com a heroicidade estoica da incrível mulher trans que faz a entrevista. Nossa protagonista é heroica, estoica e incrível porque, quando descobrimos que é uma mulher trans e não uma mulher cis, as pessoas espectadoras (fictícias ou não) sentimos admiração. Admiração por uma saída do armário espetacular que sensacionaliza uma vida espetacular de esforços e êxitos, uma vida que talvez nunca cheguemos a ter, mas que se nos esforçarmos tanto como a incrível mulher trans que faz a entrevista, talvez possamos intuir a felicidade. Meritocracia.

O clichê da descoberta, de desvelar a verdadeira identidade da personagem (trans), transformou a personagem impostora em personagem heroica. A personagem impostora sofria uma saída do armário forçada e imposta: desnudavam-na, pegávamos ela em um momento in fraganti ou não o podia esconder mais, era uma mentira que em qualquer momento viria à luz. Em troca, a personagem heroica é quem controla a saída do armário: como, quando, com quais palavras, é um segredo suculento e mórbido com o qual nos deleitamos como um strip-tease público de autenticidade.

O clichê mudou ao longo dos anos, mas segue operando nas pessoas. O resultado em muitas das diferentes experiências segue sendo o mesmo que antes, o medo à rejeição. É verdade, agora o que se projeta nas telas já não é o medo à rejeição externa com violência explícita, como o estupro ou a agressão que outras pessoas podem te causar. Agora, o medo é gota a gota, medo à rejeição interna de não ser a pessoa que gostaria de ser, de não saber quem você é, de não saber quem decide sobre sua vida, de não entender por que não lutou para continuar nesse caminho, de não saber qual é o propósito de sua vida. A grande jogada é que você não precisa ser trans para sentir-se assim; a grande jogada é que temos empatia com o que cremos que seja uma campanha de sensibilização social pelos direitos das pessoas LGTBQIA+ e na realidade estamos comendo a nova campanha de marketing e comunicação do Grupo Adeco, “uma ideia que vai mais além porque é todo um reposicionamento para a marca”.A grande jogada é usar o empoderamento trans como slogan publicitário de uma empresa de trabalho temporário. A grande jogada é a assimilação: para que seguir usando arquétipos que geram rejeição quando podemos usar arquétipos que geram vendas?

A identidade é algo complexo que muitas vezes topa com o ego, a máscara e a personagem. A publicidade, tentáculo implacável desse capitalismo selvagem, nos ensina por onde não deveríamos ir, mas requer consciência, já que a realidade supera a ficção e tudo isso, colegas, se passa nos três minutos e quarenta segundos que dura a propaganda.

Texto de Leo Alburquerque publicado em Pikara magazine on-line, em 26 de junho de 2019. Disponível em: <https://www.pikaramagazine.com/2019/06/empoderamiento-trans-marketing/>.

Tradução: Luiz Morando.


[i] Utiliza-se o termo pluma para as pessoas trans como sinônimo de não ter passabilidade, isto é, que “se note” que uma pessoa é trans, como ato político no uso da linguagem com a intenção de desestigmatizar a visibilidade trans por razão de aparência, passando de usar expressões em negativo (não ter passabilidade) a usá-las em positivo (ter pluma). Também se faz isso com o pretexto de desmascarar a plumofobia internalizada que existe na construção da identidade trans ao redor da aparência cis.

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