O suficiente para ser fodida

A sexualidade no Ocidente é um caso de prazer? A teórica feminista americana Andrea Dworkin responde não. Ela é, e já foi, um assunto privado? Não mais.

Composto de análises literárias, históricas e sociais, o livro Coïts [Coitos], de Andrea Dworkin, coloca um olhar crítico e radical, desesperadamente necessário, na sexualidade. Afinal, se a sexualidade fosse, em nossa sociedade, uma história de prazer e de desejo entre pessoas que consentiram, teríamos escapado da antologia jurídica que proíbe certas práticas sexuais e criminalizadoras àqueles e àquelas que se dedicavam a ela. Encontraríamos muito mais livros publicados consagrados ao prazer e à sua pesquisa do que à patologização de desejos considerados anormais. E a abundância dos discursos jurídicos, religiosos e políticos, ditando como se conduzir sexualmente (por vezes até sem abordar a questão vital do consentimento), coloca em evidência o papel social desempenhado pela sexualidade. Nessa camisa de força, como se constrói nosso desejo e o que aprendemos a desejar? A sexualidade nos chega como um ritual que confirma as posições que nos são atribuídas pela sociedade; é, acima de tudo, a “confirmação de uma condição ontológica ou social”, o momento em que se exprime de maneira incontestável, ao mesmo tempo em que ela se perpetua, a realidade da dominação masculina e o papel que cada um/a deve garantir aí.

Reconquistar corpos e imaginários

Uma dominação que é também uma dominação do discurso e do significado dado ao sexo, já que os homens gozam do monopólio da palavra e da representação, tentando encontrar uma justificativa divina ou natural a um comportamento que não é nada além de uma escravização social. Andrea Dworkin nos faz entender a possibilidade e a necessidade de uma verdadeira revolução sexual, que terminaria com a sexualidade como partição social em favor de um real encontro dos corpos e dos seres. E se finalmente nos permitimos não mais aderir ao discurso dominante sobre a sexualidade, a recusar de ver nele a chamada expressão natural do gênero feminino e do gênero masculino e da relação dada para uni-los (mas que garante mais a um a dominação sobre o outro), o que encontramos aí? Quem podemos ser fora da prisão do gênero? O capítulo dedicado a James Baldwin, intitulado “Comunhão”, nos deixa entrever o que pode ser uma sexualidade livre do ódio, do desprezo e da dominação. Os trechos de textos da autora e a leitura que Andrea Dworkin faz disso traçam um caminho fora da heteronorma e nos oferecem ao desejo uma sexualidade verdadeiramente livre de qualquer ditame social.

Texto de Valentin Fesquet publicado na revista Hétéroclite de julho de 2019. Disponível em: <http://www.heteroclite.org/wp-content/uploads/2019/07/H146web.pdf>.

Tradução: Luiz Morando.

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