Comandos de caça à cultura

Em setembro de 2017, iniciou-se um ciclo mais intenso de repressão e censura a manifestações artísticas, liderado por movimentos políticos de (extrema-)direita associados a grupos religiosos cristãos conservadores. O fio do novelo começou a se desenrolar em Porto Alegre e rapidamente chegou a Belo Horizonte.

Na capital mineira, no final de setembro do mesmo ano, o histérico vereador do PP, Jair Di Gregório, ex-vocalista de banda sertaneja no interior do Paraná, foi incitado pelo ex-candidato à prefeitura de Belo Horizonte, ex-goleiro e deputado estadual (PSDB) João Leite, a liderar a movimentação que se ergueu contra a exposição ArteMinas, especificamente as peças de Pedro Moraleida reunidas em Faça você mesmo sua Capela Sistina. A reação foi tremenda da parte da associação entre católicos e neopentecostais, com cultos católicos sendo realizados em frente ao Palácio das Artes e embustes do ex-cantor envolvendo alunos e professoras de uma escola em visita ao Palácio das Artes.

O histriônico Di Gregório voltou à carga em outras ocasiões, nos últimos dois anos, com o mesmo discurso moralizador, utilizando o argumento de vilipêndio à religião e a símbolos considerados sagrados à fé cristã. Por outro lado, a associação com católicos se deu também em torno de ataques ao que eles chamam de ‘ideologia de gênero’, expressão que eles próprios criaram na década de 1990.

Essa associação surpreende o público leigo? Talvez apenas ao mais desatento. A união se faz de forma seletiva e por temas: afinal de contas, as duas fés disputam o mesmo público e por vezes já se hostilizaram entre si. Basta se lembrar do que ocorreu em 1995, quando o ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sergio Von Helder, proferiu insultos e chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida, ao seu lado no estúdio de televisão. Entretanto, nos bastidores (não da TV), é uma aliança (evidentemente espúria porque paradoxal) fortalecida pela intenção de frear o avanço de valores progressistas, mais antenados com uma sociedade pluralista que defende o respeito à diferença e à diversidade.

Esse conluio estranho e canhestro entre forças religiosas antagônicas que disputam o mesmo público voltou a agir na semana passada. O motivo que desencadeou a intervenção na programação da Virada Cultural de Belo Horizonte foi a previsão da apresentação da performance “Coroação de Nossa Senhora das Travestis: atraque literário”, criada pelo coletivo Academia TransLiterária. De um lado, o caricato Jair Di Gregório colocou para rodar um vídeo, com trilha sonora de filme B, no qual acusa a performance de vilipêndio de símbolos religiosos. Por outro lado, a Arquidiocese de BH divulgou uma petição on-line pedindo o cancelamento da apresentação. No outro ponto do triângulo, o prefeito, que se apresentou como devoto de santa Rita de Cássia, cedeu à pressão do concurso religioso para cancelar o evento.

A acusação geral, por parte de todos aqueles que desconhecem (claro!, na base do “atire a primeira pedra”) a produção artística, é de desrespeito à imagem de Maria, mãe de Jesus. Ora, a mesma produção já havia sido apresentada no Festival Internacional do Teatro (FIT), organizado pela mesma prefeitura sob a administração de Alexandre Kalil (ex-PHS, atualmente PSD). É evidente a metáfora construída sobre a figura de um ser marginal em nossa sociedade – a travesti – acolhida e elevada a um grau mais humano pela Intercessora. A coroação de uma travesti faz uso do mesmo movimento simbólico que Cristo fez com a pecadora arrependida ou a Magdala endemoniada, retirando-as da margem e conduzindo-as ao centro de novos valores, que passariam a ser denominados cristãos (lembram-se?). Em um país com alto grau de violência e homicídio contra pessoas transexuais e travestis, a performance em questão traria no mínimo uma reflexão incômoda.

Tão incômoda que foi censurada previamente. O mesmo se tentou fazer com a peça teatral O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu. Apesar das polêmicas, a obra foi encenada na maior parte dos locais para onde foi programada.

Desta e das outras vezes, a grita geral foi sobre o vilipêndio de imagem considerada sagrada, que simboliza valores dogmáticos. Pois bem, e quando o vilipêndio/vil-estipêndio de valores envolve o uso de imagens/discursos: no assédio contra crianças e adolescentes (válido tanto para padres quanto para pastores que utilizam imagens/discursos de fé para satisfazer intenções sexuais); na coação para doações usando a boa fé de fiéis; na exploração do mercado da fé (veja a atuação de diversas igrejas neopentecostais, operando inclusive com cartões de crédito, e as celebrações católicas da padroeira em Aparecida do Norte, entre outras); na vista grossa feita a fiéis que não cumprem os valores dogmáticos (como certos devotos que vivem segundo ou terceiro matrimônio fora das regras do Catolicismo); na aproximação contemporânea com povos indígenas e sua consequente ‘conversão’ pelas frentes neopentecostais (repetindo o mesmo procedimento católico do período colonial); nos lobbies escusos com representantes políticos em nome da defesa da religião e de valores cristãos?

Nesses momentos, aquelas imagens não estariam sendo vilipendiadas? O uso político, ideológico, financeiro, particular, erótico-sexual do discurso religioso e das imagens que esse discurso utiliza não seria uma forma de vilipêndio? Qual será o contorcionismo verbal para justificar a existência e convivência com essas práticas?

2 comentários

  1. Obrigado, Julimar! A conivência entre as duas Igrejas é estarrecedora e demonstra bem o jogo politico dentro do campo religiosos. Os fins justificam os meios e as alianças!

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