O que fazer depois da orgia?

Como se quisesse celebrar a face oculta de Stonewall – um pouco como a China, que celebra neste ano a face oculta da lua –, Olga Rozenblum me envia o filme secreto de Guillaume Dustan. Não assisto de imediato. O link dorme em meu telefone durante todo o dia. Fantasmas não podem ser vistos à luz do sol. Mas no meio da noite, o calor e o barulho da rua me acordam e sinto que o filme está me chamando. Clico no link, digito a senha e se opera a metamorfose da tela em porta. É assim que entro, por meio desse túnel de luz, na cena, como se eu pudesse me sentar ao lado da cama onde Dustan está deitado de costas, em uma nudez quase imperceptível sob a espessa camada de pelos que, na imagem, parecem desenhados a carvão, as pernas tão afastadas que as nádegas desaparecem, seu corpo formando um T perfeito, enquanto é penetrado pelo amante com um pé, depois com o outro e em seguida com os dois ao mesmo tempo. Dustan geme devagar, e o amante com os pés penetrantes lhe pergunta se deve ir mais rápido ou mais fundo. Os pênis estão no plano de fundo, às vezes fora de campo, nem mesmo sabemos se o amante de pés penetrantes tem um. Quando a câmera se aproxima do pênis de Dustan, vemos um órgão mole rodeado por um anel de couro preto adornado com pinos de prata, um órgão como outro qualquer, quase feminino, colocado em uma paisagem de órgãos: poderia ser igualmente uma orelha com um brinco ou um punho com uma pulseira.

O corpo que penetra também modificou sua hierarquia anatômico-política. Todos os órgãos sensíveis migraram para o pé, que, deslocando toda a genitalidade, se tornou o mestre do desejo. Por vezes, uma mão massageia um pé e o recobre com lubrificante. Outras vezes, é o pé que, transformado em mão, se afunda na caixa de óleo para recobrir os dedinhos com pasta branca. A desnaturação contrassexual do órgão que penetra é tal que, quando não distinguimos os dedos, fica impossível reconhecer o pé enquanto pé. É a relação do corpo inteiro com o ânus enquanto interioridade sem fim que domina a ação. Esse arranjo não conhece nem gênero nem identidade sexual, poderia ser igualmente lésbico ou trans. Às vezes, os pés interrompem a penetração e acariciam as bordas do orifício. O ânus se fecha. O amante de pés penetrantes pede a Dustan para expô-lo. Dustan inspira, expira e impulsiona. Então o ânus se torna um órgão externo, nem vulva nem pênis, mas sim a dobra deleuziana que engole novamente o pé. O amante de pés penetrantes diz: “A coisa mais incrível neste planeta é sua bunda.”

Durante a noite, as imagens do filme se misturam às dos meus sonhos. Ao amanhecer, lembro-me de uma orgia com mais de 400 pessoas nuas. Os órgãos se encaixavam sem nenhuma relação de identidade ou de número. Como em uma performance de Annie Sprinkle, no meio da orgia, uma garota sem pé penetrava a outra usando o coto com uma finalidade erótica. Curiosamente – só me dei conta disso uma vez acordado –, novamente castrei aquele que, durante a noite, havia tomado a posição de órgão rei, o pé. Todo monoteísmo do órgão será destronado em favor da descolonização e despatriarcalização do corpo. Em meu sonho, eu também estava nu em meio a essa imensa cooperação de desejo. Mas eu não podia me deixar ir porque procurava desesperadamente minhas roupas: eu devia fazer uma conferência e me dizia que não podia chegar ao colóquio assim. A rebelião anarcoliberal de meus órgãos parece se desmoronar face às convenções sociais. Assim que acordo, olho pela janela: observo a beleza dos seres humanos e de seus cachorros que caminham gozando o momento de descanso antes que o sol comece a castigar a cidade. E é nesse instante que a frase de Baudrillard me surpreende: o que fazer depois da orgia?

Estimulado pelo desejo de respirar o ar fresco e ver os cachorros mais de perto, visto-me, como teria gostado de poder fazer em meu sonho, e vou passear. Deixo para trás o velho monstro azul de Renzo Piano, sigo pela rua Rambuteau até a rua des Archives. Quinze anos após a produção desse filme, pergunto-me se Dustan reconheceria a vizinhança: a maioria dos bares gays cedeu lugar a lojas de luxo, o quiosque onde antes comprávamos revistas queers internacionais foi transformado em Kooples. Os poucos bares gays que restaram tornaram-se redutos de exibição fora do Tinder para as classes brancas ricas da cidade. Os bares lésbicos e trans migraram para a periferia do bairro, para a rua Saint-Martin ou ao redor de Arts et Métiers. A normalização gay, a gentrificação e as novas segregações de classe, de raça e de sexualidade desenharam uma nova cartografia. No Marais, apena as faixas do arco-íris permanecem no chão, como uma memória silenciosa que se apaga sob os carros.

Chego ao lugar recém-nomeado Praça das Revoltas de Stonewall, um ânus urbano entre as pernas da rua des Archives e da rua de Sainte-Croix-de-la-Brettonnerie – a prefeitura quis comemorar o 50° aniversário de Stonewall. O jornalista e historiador queer Tim Madesclaire me ajuda a decifrar o absurdo gramatical: por que foi chamada de Praça das Revoltas de Stonewall e não Praça de Stonewall? Stonewall não era uma cidade. O Stonewall Inn era um bar situado no bairro do Greenwich Village, em Nova York, onde pessoas trans, travestis e bichas negras, latinas e brancas, os dissidentes de gênero desafiaram a polícia reclamando o direito à cidade, a liberdade de se reunir e se amar em público. Ainda uma vez, como o ensina W. G. Sebald, o monumento apaga a história e a substitui. Os bares fecham, o bairro é despolitizado e a Praça das Revoltas de Stonewall é inaugurada. Ela permite esquecer a Frente Homossexual de Ação Revolucionária[i], os Gazolines[ii], as Gouines Rouges[iii]. Olho esse lugar onde os homens vêm mijar à noite e o renomeio: Praça do Ânus Revolucionário de Guillaume Dustan.

Crônica de Paul B. Preciado, publicada no jornal Libération em 28 de junho de 2019. Disponível em: <https://www.liberation.fr/debats/2019/06/28/que-faire-apres-l-orgie_1736883>.

Tradução: Luiz Morando.


[i] Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire (FHAR) foi um movimento parisiense fundado em 1971 formado pela reunião entre ativistas gays e feministas lésbicas.

[ii] Gazolines foi um grupo formado de uma dissidência da Frente Homossexual de Ação Revolucionária (FHAR), em Paris, em 1972. Seus integrantes eram constituídos mais por travestis e pessoas queers, reunidas em torno de provocações estéticas e de jogos de gênero.

[iii] Gouines Rouges foi um movimento lésbico radical francês, fundado em abril de 1971, com o desejo de se afirmar tanto nas reivindicações feministas quanto com as de lésbicas.

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