Lorenza Böttner A inspiração chilena de Paul B. Preciado

Em 1996, Roberto Bolaño e Pedro Lemebel mencionaram em seus livros Estrela distante e Loco afán – respectivamente – um personagem inverossímil, uma espécie de fantasma, tão bolanhesco quanto lemebeliano, que parecia condenado a desaparecer em suas páginas. De acordo com o primeiro, seu nome era Lorenzo; para o segundo, era Lorenza. Cada um escreveu-lhe uma biografia diferente: Bolaño dizia que fazia parte da avalanche de exilados deixados pela ditadura; Lemebel contava que era filho de uma alemã e um carabineiro chileno que, após um acidente que o deixou sem os braços, partiu com sua mãe para a Alemanha a fim de curar-se. Seu nome, escreve, era Ernst Böttner, nasceu em Punta Arenas, e, uma vez na Europa, teria se tornado uma artista visual chamada Lorenza.

“Era uma vez um menino pobre do Chile… O menino se chamava Lorenzo, acho, não tenho certeza, e esqueci seu sobrenome, mas mais de um se lembrará dela, ele gostava de brincar e subir em árvores e nos postes de alta tensão. Um dia subiu em um desses postes e recebeu uma descarga tão forte que perdeu os dois braços”, conta o autor de 2666. Na crônica “Lorenza (As asas da maneta)”, Lemebel acrescenta: “Ernst substituiu as mãos perdidas por seus pés, que desenvolveram todo tipo de habilidades, em especial a pintura e o desenho. Mas rapidamente ele foi derivando sua arte para uma cosmética travesti que cultivava as asas calcinadas de seu pequeno coração homossexual. Estudou arte clássica, posou como modelo e fez de sua própria corporalidade uma escultura em movimento (…). Então nasceu Lorenza Böttner. O nome feminino foi a última pluma que completou seu enxoval travesti.”

Na época em que esses livros foram publicados, ainda faltavam alguns anos para que Paul B. Preciado (1970) se tornasse um dos teóricos do gênero mais importantes e radicais das últimas décadas graças a ensaios como Manifesto contrassexual (2002), Testo junquie (2008) ou Pornotopía (2010). “Embora eu seja um leitor assíduo de Bolaño e Lemebel, não me havia chamado a atenção a figura de Lorenza em suas obras. Achava que era um personagem quase fictício”, conta Preciado de Paris, poucos dias antes de ter lançado Un apartamento en Urano, um livro de crônicas para cuja capa ele escolheu um desenho de Lorenza Böttner: um corpo, metade masculino, metade feminino, que de alguma forma representa os dois. Mais alguns sinais: o nome de nascimento da artista chilena era Ernst e o do filósofo espanhol era Beatriz.

Preciado conta que chegou a Lorenza por acaso, em 2014, enquanto fazia um curso dedicado a explorar as políticas do corpo nas práticas artísticas e literárias dos anos posteriores à ditadura espanhola. Queria cartografar as práticas artísticas, diz, dando especial relevância à dissidência corporal e à diversidade funcional. Assim, chegou aos Jogos Paralímpicos de Barcelona de 1992, cujo mascote oficial, Petra, era uma figura sem braços. No jornal espanhol ABC desse período, anunciavam essa notícia assim: “Um ator chileno deficiente físico, chamado Lorenza Böttner, dará vida à mascote Petra”.

“Desde o primeiro momento quis saber quem estava por trás do personagem”, explica Preciado, que há vários anos se dedica à curadoria e foi eleito, em 2018, uma das figuras mais influentes do mundo da arte, segundo a revista Art Review. Entre o pouco que se sabia de sua vida – graças, em parte, a uma pesquisa que Carl Fischer, acadêmico da Fordham University, nos Estados Unidos, fez em 2016, no contexto de seus estudos de doutorado sobre literatura chilena queer –, estava que Lorenza havia morrido em Munique em 1994, com 33 anos, devido a complicações relacionadas à AIDS. Havia estudado na Escola de Arte e Desenho de Kassel, fez performances em Nova York e viveu em Barcelona e Munique. Mas além de reconstruir sua biografia, o essencial para Preciado era descobrir onde estava sua obra.

“Foi assim que cheguei à mãe de Lorenza, que havia guardado todo o trabalho de sua filha em sua casa – conta o filósofo, que em novembro inaugurou Réquiem por la norma no La Virreina Centre de la Imatge, em Barcelona, uma exposição em torno do trabalho de Böttner, que hoje está exposto em Stuttgart. O primeiro encontro com sua obra foi um dos momentos mais emocionantes de minha vida como curador. Acho que foi Lorenza quem me encontrou e não eu que encontrei Lorenza. Seu trabalho dava materialidade a todo um conjunto de práticas de dissidência sexual e corporal sobre as quais trabalhei teoricamente durante anos.”

Dar visibilidade à obra de Lorenza Böttner significou para Preciado um trabalho longo de classificação, fotografia, restauração e estudo – o material esteve guardado durante muito tempo em Munique sem condições de conservação –, para o qual eram necessários uma equipe e, sobretudo, financiamento. Nesse momento, conta, encontrou uma segunda dificuldade: combater a visão exotizante e patológica com que costumam olhar os corpos trans e com diversidade funcional, a fim de tornar o trabalho de Lorenza reconhecido como “arte”. “Enfrentei então os preconceitos segundo os quais o trabalho artístico de uma pessoa com diversidade funcional é considerado como handicap art – explica. – Disseram-me que Lorenza era uma artista da UNICEF.”

Tanto os problemas de financiamento como os de validação entre os conhecedores foram resolvidos quando Paul B. Preciado foi nomeado curador do Documenta 14, o prestigiado encontro alemão de arte que tem lugar em Kassel, e que pela primeira vez, em 2017, se realizou também em Atenas. “O projeto foi acolhido com entusiasmo por seu diretor, Adam Szymczyk, e depois por toda a equipe de assistentes que colaboraram comigo para preparar a exposição – conta. – Meu desafio, então, foi articular uma narrativa, um relato curatorial que restaurasse a possibilidade de que o trabalho de Lorenza fosse entendido como arte, arte performativa, pintura, fotografia; não como terapia ocupacional de uma pessoa supostamente deficiente.”

Em paralelo, Preciado reconstruiu a vida de Böttner, e assim encontrou um número da revista Mampato,de novembro de 1973 – editada então por Isabel Allende –, no qual se publicou uma nota sobre ela intitulada “Un muchacho ejemplar”. “(Ernst) apareceu um dia na oficina para entregar seus desenhos como colaboração para a revista. Estava de passagem por Santiago com sua mãe, já que dentro de poucos dias tomaria um avião que o levaria para a Alemanha”, lê-se no texto, onde se observa que ela cursava o oitavo ano na Escola Alemã de Punta Arenas. Essa viagem, com a qual ela pretendia ter acesso a terapias especializadas, foi um trajeto sem retorno: Lorenza Böttner voltou ao Chile apenas duas vezes, muito rapidamente, antes de morrer.

Em sua crônica, Lemebel conta que, apesar de haver feito uma performance em Santiago, passou quase desapercebida no ambiente cultural local: “A ação de Lorenza no Chile se realizou numa quente tarde de domingo na galeria Bucci, para um público escasso de casais que saem para olhar vitrines em feriados com um olhar vazio. Alguém perguntou se era parte do Teletom, e o fizeram se calar enquanto a bela maneta projetava sua sombra etrusca nos muros da galeria (…). Ao passar um regimento, os policiais lhe atiraram beijos e gritaram algo. Ela, sem se incomodar, abriu bem sua capa e respondeu-lhes que bem, um a um.”

Entre os chilenos que a conheceram, segundo a crônica de Loco afán, estava o artista Mario Soro, que entabulou uma amizade com ela quando foi à Alemanha, em 1989. Mas, além de anedotas desse tipo, sabe-se pouco de sua relação com o Chile. Da leitura de Estrela distante se poderia deduzir que seu nome era conhecido entre os escritores e artistas chilenos na Europa como o próprio Bolaño, que, na voz de seu alter ego Arturo Belano, fala sobre os dias em que Lorenza foi Petra: “Naquela época, estava internado no Hospital Valle Hebrón, de Barcelona, com o fígado arrasado e fiquei sabendo de seus sucessos, de seus chistes, de suas anedotas, lendo dois ou três jornais diariamente. Às vezes, lendo suas entrevistas, tinha ataques de riso. Outras vezes, chorava. Também o vi na televisão. Fazia seu papel muito bem.”

A exposição Réquiem por la norma – que depois de Stuttgart se apresentará em Bergen, Toronto e Paris, e que ainda não tem convites formais do Chile – reúne uma centena de trabalhos que mostram a diversidade de registros e estilos de Böttner, que explorou a fotografia, o desenho, a performance, a instalação, a pintura e a dança, disciplinas que, segundo a narrativa hegemônica da arte, têm no centro de suas práticas os braços e as mãos. Lorenza criava com a boca e os pés – “aprendi a usar o lápis com a boca e estava ainda no hospital quando fiz as primeiras tentativas de desenhar”, explicou em Mampato –, e a essa dissidência funcional se soma a de gênero: Lorenza se autorretratava em fotos e pinturas nem como mulher, nem como homem. Seu corpo, diz Preciado, não é identidade, mas trânsito.

“Mais do que travestismo, conviria falar de práticas de transição como técnicas de contra-aprendizagem mediante as quais o corpo e a subjetividade, considerados ‘deficientes’ ou ‘doentes’, reivindicam seu direito a se representar e a inventar suas próprias práticas de vida. Por isso, não seria adequado dizer que Lorenza traveste os pés e a boca em mãos, ou que se traveste simplesmente em mulher, mas que inventa outro corpo, outra prática artística e de gênero: nem deficiente, nem normal; nem feminina, nem masculina; nem pintura, nem dança”, escreve o curador no catálogo da exposição, no qual são incluídos também entrevistas gravadas e trechos de filmes dos quais Böttner participou. Em um deles, diz: “Sou uma performance em movimento.”

Lorenza funde e confunde vida e obra – uma prática comum na arte da segunda metade do século XX –, mas o absolutamente novo, diz Preciado, “é sua intenção de escapar ao confinamento institucional e à invisibilização que pesa sobre os corpos com diversidade funcional; é a afirmação de seu corpo vivo, de seu corpo vulnerável, mas desejante frente à representação normativa da deficiência e da transexualidade como patologias – explica. – Lorenza utiliza a performance, a pintura, a fotografia, isso que ela chama de ‘pintura-dança’ para fabricar um corpo que resiste à norma. Isso é o que a faz absolutamente contemporânea: sua rejeição a uma identidade fixa e a uma atribuição patológica.”

Na Europa e nos Estados Unidos, Lorenza fez centenas de performances e pinturas-dança: algo assim como intervenções de rua nas quais pintava o chão com os pés enquanto dançava. Em Nova York, graças a uma bolsa de estudos da Universidade de Nova York Steinhardt, aprofundou seus estudos em arte, integrou-se ao mundo artístico local e até posou para fotógrafos como Robert Mapplethorpe e Joel Peter Witkin. Böttner se rebelou contra o que Bolaño chamou “o zoológico da aparência” – isto é, a imagem de freak – tornando visível seu corpo, instalando-o na rua e no centro de sua obra: “sou uma exibicionista”, diz em uma entrevista gravada, o que se faz evidente em seu desejo constante por se autorretratar.

Numa época em que tantos discursos das dissidências sexuais como os dos feminismos apontam para um mesmo tipo de corpo, fazer com que o nome de Lorenza Böttner circule hoje é um gesto político: “A obra de Lorenza é um manifesto que permite imaginar outra política do corpo, para além das políticas de identidade e das distinções entre o normal e o patológico – diz Preciado. – Para mim, é uma figura do cruzamento, uma figura da transição que aponta para a possibilidade de imaginar um sujeito político transversal não definido pelas taxonomias hierárquicas da modernidade (“homem”, “mulher”, “homossexual” ou “deficiente”), mas um sujeito que se define por ser um corpo vivo vulnerável.”

Mario Soro: lembranças de Lorenza

Lemebel escreveu a crônica de Loco afán após entrevistar Mario Soro, que era parente distante de Böttner. “Lorenza era prima de uns primos meus”, conta o artista visual e gravador, que fez parte da exposição Los dominios perdidos, do Museu de Artes Visuais (MAVI), uma mostra sobre a arte chilena da pós-ditadura, onde se exibiu, até 5 de maio, um caderno de viagem no qual dedica um capítulo ao momento em que conheceu Lorenza em Munique, em 1989. “Fui participar de Cirurgia plástica, uma mostra de arte chilena em Berlim, mas cheguei primeiro a Frankfurt, onde uma prima me falou de Lorenza”, lembra-se. “Quando a vi, encontrei-me com uma personagem de dois metros que me estendeu o pé com tal graça, que não me dei conta de que não era sua mão. Conhecê-la me desarmou e me rearmou inteiro, e determinou toda minha obra posterior.”

Soro, que desde então trabalhou em torno da amputação e do desmembramento do corpo humano em exposições como Enfermedades del cuerpo político (2010-2017) e em obras como La mesa de trabajo de los héroes (2000), forjou uma relação de amizade com Lorenza que durou até sua morte. “Lorenza veio ao Chile em várias oportunidades e ficava em minha casa, que era seu lugar de confiança. Em sua primeira viagem, em 1989, eu trabalhava com a galeria Bucci e planejamos a ideia de fazer uma performance com ela, que consistiu em desenhar com o pé uma figura masculina heroica, quase filofascista, e uma figura de mulher. Não tinha nada de tremendo, como as performances que se faziam aqui e que tinham nus, sangue, suor, sêmen”, conta. “Aqueles que a viram se arrebentaram de rir, dela e de sua ingenuidade, de seu interesse pela representação. O mais importante em seu trabalho era o corpo: toda sua obra era uma prótese. Eu queria torná-la conhecida porque captei o fator disruptivo. Por isso, foi uma surpresa maravilhosa quando Pedro (Lemebel) se aproximou de mim. Comecei a chorar com ele”, confessa. E acrescenta: “Lorenza estava interessada no que acontecia no Chile, mas não fazia referências a temas políticos. Era uma alemã com uma infância chilena em Punta Arenas, e tinha esse imaginário do vento, do frio, da paisagem local. Lembro-me dela muito sensível, muito generosa, extraordinariamente feminina e masculina ao mesmo tempo.”

Publicado originalmente em Palabra pública, da Universidade do Chile.

Texto de Evelyn Erlij a partir de entrevista com Paul B. Preciado, reproduzido em Culto, em 4 de junho de 2019. Disponível em: <http://culto.latercera.com/2019/06/04/lorenza-bottner-paul-b-preciado/>.

Tradução: Luiz Morando.

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