ELEIÇÕES 2019 NA ARGENTINA: PÍA CEBALLOS, UMA ESPERANÇA TRANS EM SALTA

Quando se pensa em Salta, a linda, junto à lembrança da paisagem subjugadora vem a da fama de província conservadora. E com ela, alguns de seus fundamentos mais recentes: o governo do católico Urtubey[i], suas fotografias exemplares de família gaúcha e seu projeto bizarro e patriarcal de progresso: a previsão de gravidez de adolescentes por meio de um software. Vêm também a menina de dez anos forçada a dar à luz no ano passado, o ranking de feminicídios e a situação das travestis, cujo índice de média de vida é baixíssimo, segundo conta a diretora do Observatório da Violência contra as Mulheres, Pía Ceballos, entre 32 e 35 anos. Mas, claro, quando se pensa em Salta, também podem acudir à memória outras paisagens: os braços para o alto da nativa de Pocitos, Lohana Berkins[ii], em uma marcha, ou os de Pía Ceballos, uma transexual responsável pelo Observatório, e orgulhosa defensora de sua terra: “Salta é conservadora do mesmo modo que a Capital Federal e o resto do país” – diz, e acrescenta: “Salta, a conservadora, é também a diversa, porque aqui, há 16 anos, vêm sendo feito marchas da diversidade nas quais expomos o corpo. Nas últimas, mais de 3.000 pessoas saíram às ruas. Nos primeiros anos éramos poucas, e acho que isso também tem que ser dito: seguindo essa história do movimento LGBTQI, há uma população que vem construindo novas referências políticas, a tal ponto que há três conselheiras trans. Acho que as pessoas entendem que estamos vendo não apenas o que está acontecendo em nossa comunidade, mas também que abraçamos essa outra era para representá-lxs, para discutir, a partir de nossos espaços, políticas públicas urbanísticas de governo. Porque não vou apenas debater teoria feminista e queer, mas também política em seu sentido mais amplo”.

Como você entrou na política partidária?

Desde menina, comecei a militar pelos direitos sexuais. Quando ingressei na universidade, entrei na campanha do Não à ALCA e com Néstor abracei a construção coletiva de um projeto nacional, que tem que ser feminista. A partir dessa nova oxigenação, entrei pela primeira vez na política partidária. Outro dia, encontrei um companheiro que milita no HIJOS. E tive a oportunidade de lhe dizer que me lembrava de sua adolescência, quando estava nas aulas ensinando-lhe educação sexual, quando muitas pessoas nem sequer pensavam em colocar em ação o que trouxemos do movimento de mulheres, do movimento com o qual criamos as transfeministas para que nossa trajetória também tivesse valor. E esse valor é essa luta cotidiana.

Qual função o Observatório cumpriu sob o governo de Urtubey?

O Observatório é um organismo autônomo e autárquico por lei. Foi aberto concurso público oficial há um ano, eu me apresentei com mais outras 16 personas. Desde então, levamos adiante a análise do fenômeno da violência de gênero em nossa província, saber qual é sua prevalência em números estatísticos. Isso permite fazer recomendações aos três Poderes. Nesse sentido, minha voz não estremeceu ao dizer ao governador quando comentava alegremente em um programa de televisão sobre o software em relação à gravidez entre adolescentes. Fui muito crítica, porque digo abertamente que é algo terrível que afetava a vida de nossa população de mulheres adolescentes. Do meu ponto de vista, sempre tenho sido crítica; a fim de conseguir que as coisas ficassem boas, tinha que falar delas. E temos feito isso face a um grande movimento de mulheres que pediam a revogação da lei 1.170, que impedia que o aborto fosse criminalizado. Isso foi uma luta do movimento de mulheres. Com o Observatório, havia em Salta uma instituição pronunciando-se a favor desse projeto.

Como é a situação das pessoas trans em Salta e no noroeste da Argentina?

Digo, querida amiga, que o encontro regional ocorreu recentemente e venho percorrendo o território desde Salvador Mazza, Orán, Tartagal, Rosario de Lerma, Rosario de la frontera. A situação hoje é impressionante: há travesticídios, transfeminicídios, violência policial por decretos, pelos códigos de contravenção, como em 18 províncias mais. Estamos em risco face aos governos neoliberais e de direita que avançam em toda a América Latina. Em um encontro no Peru, em Pachacamac, conversamos não apenas sobre como nos cuidarmos, mas também como ativar uma luta integrada que comprometa o movimento de mulheres, as organizações sociais e também os partidos políticos. Por isso, comemoramos o fato de Dora Barrancos estar na lista [de candidatos] e Ofelia Fernández. E estou contente de poder levar a discussão trans a esses espaços, porque nossa população hoje está morrendo e o Estado não faz nada.

Eu entendo que não é fácil para as pessoas trans a vida dentro das comunidades de origem…

Em Salta, existem muitos povos nativos e comunidades indígenas. Tive a possibilidade de recorrer a eles e depois seguir conectada com companheiras que levam sua música e sua composições a diferentes lugares, transmitindo essa identidade que precisa ser lembrada, levando essa voz pelos vales das comunidades Diaguita e Calchaquí. No norte, conseguimos realizar uma pesquisa do Observatório, que incluía as trajetórias de vida de travestis e pessoas trans, e isso nos levou a conhecer companheiras de Orán, que são nativas, mas também afro-indígenas. Reconhecer-me como afro-indígena é entender que nossos traços, nossas histórias estão entrecruzadas também por isso, por essas comunidades oriundas dessas terras e por essa negritude que atravessa meu reconhecimento como travesti transindígena. E daí o orgulho de lutar para que outras companheiras façam o mesmo. É muito difícil reconhecer-se como uma pessoa das comunidades quando se é vítima de violência. Porque sofremos violência não apenas nas sociedades ocidentais, mas também dentro das comunidades. Mesmo respeitando a cultura, a idiossincrasia e toda essa configuração belíssima que têm as comunidades nativas, há também a expulsão e nossas companheiras travestis e trans.

Não deveria ser o caso de todas…

Claro que não. Há companheiras que acreditam e percebem que foram aceitas por seus povos e que hoje são orgulhosas de sua história. Então, por exemplo, recomendaria ver Tacos altos en el barro, um filme de Rolando Parro feito aqui em Salta, no qual são mostradas essas vidas dentro das comunidades nativas. Ter uma identidade de gênero trans dentro desses espaços também implica atravessar a discriminação e a violência. E há também uma expulsão pelo mesmo Estado, pelo não reconhecimento das terras das comunidades nativas. Não só se oprimem as pessoas trans, as mulheres, as identidades não binárias, mas também a todo o feminismo, a todas as comunidades nativas, às/aos mais humildes, às/aos mais pobres, às crianças. Estão em discussão novamente dois modelos de país e aqui nós estamos com Alberto [Rodríguez] e Cristina [Kirchner], com muita convicção e coragem.

Quais seriam suas propostas se você ganhasse o jogo?

Vimos trabalhando por uma Salta inclusiva: isso tem a ver com a economia popular e o feminismo, e com os centros culturais emergentes, alternativos, dissidentes. A cultura é uma dimensão fundamental na vida das pessoas para desarmar os pesadelos modernos e projetar sonhos individuais coletivos. Pensamos nas políticas vinculadas ao coletivo LGTBQI, de forma interseccional. A intenção também é disputar o poder dos maiores aparatos da província, como o de Urtubey e [Juan Carlos] Romero, que governam a província há mais de 12 anos, com o saldo que temos em uma Salta onde cresceram a pobreza e a miséria.

Entrevista feita por Paula Jiménez España, publicada em 9 de agosto de 2019 no jornal Página 12. Disponível em: <https://www.pagina12.com.ar/210432-salta-la-transfeminista>.

Tradução: Luiz Morando.


[i] Juan Manuel Urtubey é advogado, professor universitário e governador da província de Salta, na Argentina. Foi eleito para um primeiro mandato em 2007 e reeleito em 2011. Pertence ao Partido Justicialista (peronista) e é apoiado por forças políticas do campo conservador.

[ii] Lohana Berkin (1965-2016) foi uma ativista transgênera na Argentina, defensora da luta pelo reconhecimento da identidade de gênero.

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